<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"><channel><title><![CDATA[Metodologia da Pesquisa - EAGU]]></title><description><![CDATA[Curso de Metodologia da Pesquisa - Pós-Graudação em Direito - Escola da AGU]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/</link><image><url>https://metodologia.agu.arcos.org.br/favicon.png</url><title>Metodologia da Pesquisa - EAGU</title><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/</link></image><generator>Ghost 5.46</generator><lastBuildDate>Wed, 29 Apr 2026 13:03:40 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://metodologia.agu.arcos.org.br/rss/" rel="self" type="application/rss+xml"/><ttl>60</ttl><item><title><![CDATA[Coming soon]]></title><description><![CDATA[<p>This is ad, a brand new site by Henrique Costa that&apos;s just getting started. Things will be up and running here shortly, but you can <a href="#/portal/">subscribe</a> in the meantime if you&apos;d like to stay up to date and receive emails when new content is published!</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/coming-soon/</link><guid isPermaLink="false">6453ab9f26359b7467f96e67</guid><category><![CDATA[News]]></category><dc:creator><![CDATA[Henrique Costa]]></dc:creator><pubDate>Thu, 04 May 2023 12:57:03 GMT</pubDate><media:content url="https://static.ghost.org/v4.0.0/images/feature-image.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://static.ghost.org/v4.0.0/images/feature-image.jpg" alt="Coming soon"><p>This is ad, a brand new site by Henrique Costa that&apos;s just getting started. Things will be up and running here shortly, but you can <a href="#/portal/">subscribe</a> in the meantime if you&apos;d like to stay up to date and receive emails when new content is published!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Módulo 8 - Elementos do Projeto de Pesquisa]]></title><description><![CDATA[<ul><li>11/10/22, 3&#xAA; feira, 18h30 a 22h30 - Encontro s&#xED;ncrono - Prof. Henrique Fulg&#xEA;ncio</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a</div>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/modulo08-2/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97056</guid><category><![CDATA[Módulo]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Fri, 20 Aug 2021 20:37:17 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<ul><li>11/10/22, 3&#xAA; feira, 18h30 a 22h30 - Encontro s&#xED;ncrono - Prof. Henrique Fulg&#xEA;ncio</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a </div><!--kg-card-end: html--><h2 id="2-leitura-obrigat%C3%B3ria">2. Leitura obrigat&#xF3;ria</h2><blockquote>Costa, Alexandre. <a href="https://metodologia.agu.arcos.org.br/modelo-de-projeto-de-pesquisa/">Modelo de projeto de pesquisa</a>.</blockquote><p>Este modelo tem por finalidade primordialmente did&#xE1;tica. Ele n&#xE3;o deve ser encarado como um formato obrigat&#xF3;rio, mas como uma orienta&#xE7;&#xE3;o voltada a auxiliar as pessoas que t&#xEA;m pouca experi&#xEA;ncia em pesquisa a formular um projeto adequado.</p><p>Evidentemente, trata-se de um formato simplificado e abstrato, que precisa ser adaptado &#xE0;s necessidades concretas de cada pesquisa. Al&#xE9;m disso, como j&#xE1; foi esclarecido antes, a formula&#xE7;&#xE3;o do projeto &#xE9; circular: n&#xE3;o existe uma receita de passos a serem seguidos, mas uma necessidade de equilibrar v&#xE1;rios elementos (especialmente problema, metodologia e referencial te&#xF3;rico), cujo devido equacionamento exige muitas idas e vindas.</p><p>Toda altera&#xE7;&#xE3;o no problema acarreta mudan&#xE7;as nos objetivos e nas hip&#xF3;teses, e essas mudan&#xE7;as podem exigir tamb&#xE9;m altera&#xE7;&#xF5;es na pr&#xF3;pria formula&#xE7;&#xE3;o do problema. Um projeto n&#xE3;o &#xE9; feito de uma vez s&#xF3;, mas exige que a (re)formula&#xE7;&#xE3;o de cada elemento gere a necessidade de adaptar o restante do texto. </p><p>Essas m&#xFA;ltiplas adapta&#xE7;&#xF5;es muitas vezes n&#xE3;o s&#xE3;o feitas de forma adequada, o que faz com que o problema n&#xE3;o se conecte bem com os objetivos, que a metodologia n&#xE3;o se acople com as hip&#xF3;teses, que o marco te&#xF3;rico n&#xE3;o esclare&#xE7;a devidamente os conceitos que foram usados. Essa falta de concatena&#xE7;&#xE3;o entre os v&#xE1;rios elementos &#xE9; um dos defeitos mais comuns dos projetos, que muitas vezes s&#xE3;o feitos em prazos pequenos, que n&#xE3;o deixam tempo para uma revis&#xE3;o adequada.</p><p>Mas n&#xE3;o h&#xE1; f&#xF3;rmula m&#xE1;gica. Todo projeto precisa ser amadurecido, o que exige que cada elemento seja feito e refeito v&#xE1;rias vezes, at&#xE9; que o resultado seja consistente: depois de v&#xE1;rios turnos de inova&#xE7;&#xE3;o e adapta&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; poss&#xED;vel chegar ao projeto maduro, em que os elementos est&#xE3;o devidamente concatenados.</p><p>O objetivo deste modelo &#xE9; esclarecer a fun&#xE7;&#xE3;o de cada um dos elementos e oferecer indica&#xE7;&#xF5;es pr&#xE1;ticas que ajudem os estudantes a realizar esse exerc&#xED;cio circular, de modo a possibilitar a realiza&#xE7;&#xE3;o de um projeto consistente. Perguntas que ajudam nesse c&#xED;rculo s&#xE3;o, entre outras:</p><ol><li>Como o tema se articula com o problema?</li><li>Como o problema est&#xE1; articulado com os objetivos?</li><li>Como a hip&#xF3;tese est&#xE1; articulada com a metodologia?</li><li>A justificativa &#xE9; convincente acerca da relev&#xE2;ncia da pesquisa?</li></ol><h2 id="4-atividade">4. Atividade</h2><h3 id="41-trabalho-final-reda%C3%A7%C3%A3o-do-projeto-de-pesquisa">4.1 Trabalho final: Reda&#xE7;&#xE3;o do Projeto de Pesquisa</h3>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Módulo 7 - Análise Econômica do Direito]]></title><description><![CDATA[<ul><li>06/10/2022, 18h30 &#xA0;- Encontro s&#xED;ncrono</li><li>06/10/2022 &#xA0;- &#xA0;Atividade: Workshop hist&#xF3;ria do pensamento e aspectos metodol&#xF3;gicos de direito e economia</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a</div>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/modulo07-analise-economica-do-direito/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97055</guid><category><![CDATA[Módulo]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Fri, 20 Aug 2021 20:32:06 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<ul><li>06/10/2022, 18h30 &#xA0;- Encontro s&#xED;ncrono</li><li>06/10/2022 &#xA0;- &#xA0;Atividade: Workshop hist&#xF3;ria do pensamento e aspectos metodol&#xF3;gicos de direito e economia</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a </div><!--kg-card-end: html--><h2 id="2-leitura-obrigat%C3%B3ria">2. Leitura obrigat&#xF3;ria</h2><blockquote>1: Battesini, Eug&#xEA;nio. <strong>Direito e Economia.</strong> Editora LTr, 2011, p. 25-97.</blockquote><p></p><blockquote>2: Salama,Bruno. <strong>Direito e Economia</strong>. Editora Saraiva, 2010, p. 7-51.</blockquote><h2 id="3-leitura-complementar">3. Leitura complementar</h2><blockquote>1: Cooter, Robert; Sch&#xE4;fer, Hans-Bernd. <strong>O N&#xF3; de Salom&#xE3;o: como o Direito pode Erradicar a Pobreza das Na&#xE7;&#xF5;es.</strong> CRV, 2017, pp. 17-84,</blockquote><p></p><blockquote>2: Garoupa, Nuno e Ginsburg, Tom. An&#xE1;lise Econ&#xF4;mica e Direito Comparado. Em: Timm, Luciano (org). <strong>Direito e Economia no Brasil</strong>. Atlas, 2011, pp. 139-157.</blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Equilibrando a complexidade do trabalho ao tempo disponível]]></title><description><![CDATA[<h2 id="1-tipos-de-trabalhos-e-publica-es">1. Tipos de trabalhos e publica&#xE7;&#xF5;es</h2><p>Os textos acad&#xEA;micos podem ter formas bem diferentes: artigos, monografias, disserta&#xE7;&#xF5;es, teses, tratados, verbetes, relat&#xF3;rios de pesquisa, resenhas e outros mais. As distin&#xE7;&#xF5;es entre algumas dessas categorias podem ser nebulosas, mas</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/analise-da-complexidade-das-pesquisas/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97054</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Tue, 22 Jun 2021 17:25:23 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2 id="1-tipos-de-trabalhos-e-publica-es">1. Tipos de trabalhos e publica&#xE7;&#xF5;es</h2><p>Os textos acad&#xEA;micos podem ter formas bem diferentes: artigos, monografias, disserta&#xE7;&#xF5;es, teses, tratados, verbetes, relat&#xF3;rios de pesquisa, resenhas e outros mais. As distin&#xE7;&#xF5;es entre algumas dessas categorias podem ser nebulosas, mas &#xE9; importante conhecer esses v&#xE1;rios tipos de trabalho cada um deles tem suas peculiaridades e exige um planejamento diverso.</p><p>Em comum, temos o fato de que a atividade acad&#xEA;mica passa sempre pela escrita e o seu objetivo final &#xE9; (quase sempre) o de gerar <em>publica&#xE7;&#xF5;es</em>, especialmente em <em>livros</em> ou em <em>peri&#xF3;dicos</em>. A diferen&#xE7;a b&#xE1;sica entre essas duas modalidades &#xE9; que os livros s&#xE3;o uma esp&#xE9;cie de <em>monografia</em>, ou seja, constituem um texto &#x201C;completo, constitu&#xED;do de uma s&#xF3; parte, ou que se pretende completar em um n&#xFA;mero preestabelecido de partes separadas&#x201D; (ABNT, NBR 6023). Portanto, o <em>mono</em> de monografia n&#xE3;o se refere a um autor &#xFA;nico, mas a uma obra fechada, que tem uma unidade interna.</p><p>O g&#xEA;nero <em>monografia</em> compreende obras que t&#xEA;m uma unidade, sejam elas livros em volume &#xFA;nico (que s&#xE3;o a maioria), livros divididos em v&#xE1;rios tomos (mas que constituem uma unidade), enciclop&#xE9;dias e dicion&#xE1;rios. As publica&#xE7;&#xF5;es monogr&#xE1;ficas se distinguem das publica&#xE7;&#xF5;es <em>peri&#xF3;dicas</em>, como revistas e jornais, que s&#xE3;o constitu&#xED;das por uma s&#xE9;rie <em>aberta</em> de n&#xFA;meros diferentes. Uma revista cient&#xED;fica &#xE9; publicada tendo em vista uma continuidade futura, em volumes cujo conte&#xFA;do n&#xE3;o pode ser conhecido de antem&#xE3;o. O que define uma boa revista n&#xE3;o &#xE9; um certo conte&#xFA;do, mas um certo <em>projeto editorial</em>, com uma defini&#xE7;&#xE3;o clara do seu escopo e dos crit&#xE9;rios de sele&#xE7;&#xE3;o dos textos a serem publicados.</p><p>De fato, o conceito editorial de <em>monografia</em> n&#xE3;o designa um tipo de texto, mas um tipo de publica&#xE7;&#xE3;o. O mesmo texto (por exemplo, os conte&#xFA;dos de um curso de pesquisa jur&#xED;dica), pode ser publicado de modo unificado como um livro, mas tamb&#xE9;m pode ser fragmentado em elementos menores, que podem ser publicados como pequenos livros, como cap&#xED;tulos de livros diferentes ou como artigos. Cada uma dessas formas tem suas vantagens e desvantagens, e a <em>estrat&#xE9;gia de publica&#xE7;&#xE3;o</em> deve ser pensada pelo autor.</p><p>Em certas &#xE1;reas acad&#xEA;micas, somente &#xE9; levada a s&#xE9;rio a publica&#xE7;&#xE3;o feita em <em>peri&#xF3;dicos cient&#xED;ficos</em>, pois estes contam com um sistema de revis&#xE3;o por especialistas (o <em>peer review</em>) institu&#xED;do para garantir que uma revista publique apenas trabalhos que tenham conclus&#xF5;es s&#xF3;lidas, baseadas em metodologias adequadas. Em ci&#xEA;ncias experimentais, como a f&#xED;sica, os livros n&#xE3;o s&#xE3;o um meio de publica&#xE7;&#xE3;o de trabalhos cient&#xED;ficos, mas s&#xE3;o uma forma de publica&#xE7;&#xE3;o voltada especialmente a <em>livros did&#xE1;ticos</em> ou a <em>divulga&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica para leigos</em>.</p><p>No caso do direito, boa parte da produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica &#xE9; veiculada na forma de livros, que &#xE9; o modo tradicional de circula&#xE7;&#xE3;o do conhecimento jur&#xED;dico. Este, por&#xE9;m, &#xE9; um cen&#xE1;rio que tem se modificado rapidamente, como discutiremos no ponto seguinte.</p><p>Mas antes de entrar nas estrat&#xE9;gias contempor&#xE2;neas de publica&#xE7;&#xE3;o, precisamos dar um passo atr&#xE1;s e diferenciar o conceito editorial de monografia (que &#xE9; este do qual tratamos, da monografia como um <em>tipo de publica&#xE7;&#xE3;o</em>), do conceito acad&#xEA;mico de monografia. Quando falamos em uma <em>monografia final de curso</em>, n&#xE3;o designamos uma forma de publica&#xE7;&#xE3;o, mas um tipo espec&#xED;fico de texto, que se diferencia das disserta&#xE7;&#xF5;es, das teses, dos manuais e dos tratados.</p><p>No contexto universit&#xE1;rio, entende-se normalmente que o <em>mono</em> de <em>monografia</em> se refere a um tema bem delimitado, o que diferencia as monografias tanto dos manuais (que tratam didaticamente de muitos temas), dos tratados (que tratam de um campo tem&#xE1;tico amplo) e das enciclop&#xE9;dias (constitu&#xED;das por verbetes). Assim, a marca distintiva da monografia &#xE9; o fato de que ela deve ser um trabalho aprofundado (e n&#xE3;o panor&#xE2;mico) acerca de um objeto bem determinado (e n&#xE3;o de um campo de saber).</p><p>Comumente, usamos o termo monografia em um sentido ainda mais restrito, para identificar um trabalho monogr&#xE1;fico de complexidade intermedi&#xE1;ria, que seria mais extenso e complexo do que um artigo (que &#xE9; a forma mais concisa de escrita acad&#xEA;mica public&#xE1;vel), embora mais simples que uma disserta&#xE7;&#xE3;o (denomina&#xE7;&#xE3;o normalmente reservada aos trabalhos de conclus&#xE3;o de mestrado) ou uma tese (denomina&#xE7;&#xE3;o ligada aos trabalhos de doutoramento, que envolvem a defesa de uma tese original).</p><p>Nesse ponto, os usos <em>editorial</em> e <em>acad&#xEA;mico</em> da palavra monografia se cruzam: as monografias acad&#xEA;micas seguem o formato do livro. Sejam trabalhos de conclus&#xE3;o de curso (TCC), disserta&#xE7;&#xF5;es ou teses, as monografias acad&#xEA;micas s&#xE3;o divididas em cap&#xED;tulos e &#xE9; bastante comum que as melhores entre elas recebam das bancas avaliadoras uma <em>recomenda&#xE7;&#xE3;o de publica&#xE7;&#xE3;o</em>. Escrever uma monografia &#xE9; escrever um texto completo, que poderia ser publicado no formato de um <em>livro</em>. Monografias acad&#xEA;micas n&#xE3;o s&#xE3;o tipicamente planejadas para serem parte de um conjunto, nem para serem publicadas de modo fragmentado, e sim para constitu&#xED;rem textos unit&#xE1;rios, formados por v&#xE1;rios cap&#xED;tulos interconectados.</p><p>Uma monografia t&#xED;pica tem ao menos 50 p&#xE1;ginas, o que cumpre o tamanho m&#xED;nimo para que um documento possa ser qualificado formalmente como <em>livro</em>, nos termos da ABNT (NBR 6029/2002), que define livro como uma &#x201C;publica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o peri&#xF3;dica que cont&#xE9;m acima de 49 p&#xE1;ginas, exclu&#xED;das as capas, e que &#xE9; objeto de N&#xFA;mero Internacional Normalizado para Livro (ISBN)&#x201D;. Originalmente, a NBR 6029 da ABNT definia como livro publica&#xE7;&#xF5;es a partir de 5 p&#xE1;ginas pass&#xED;veis de obter ISBN, mas atualmente as obras com 5 a 49 p&#xE1;ginas entram na defini&#xE7;&#xE3;o de <em>folheto</em>. Esse n&#xFA;mero de p&#xE1;ginas deve ser visto com cuidado porque as folhas A4 t&#xED;picas de uma monografia cont&#xE9;m cerca de 50% mais palavras que as p&#xE1;ginas usuais de um livro, que s&#xE3;o menores, embora usem um espa&#xE7;amento mais condensado. Assim, uma monografia constitu&#xED;da por um <em>manuscrito</em> (ou seja, um texto escrito pelo autor e n&#xE3;o publicado) impresso com 35 p&#xE1;ginas provavelmente cont&#xE9;m texto suficiente para ser publicada no formato de livro.</p><p>Essas s&#xE3;o dimens&#xF5;es que ultrapassam os limites m&#xE1;ximos para a publica&#xE7;&#xE3;o de artigos em revistas especializadas, que normalmente aceitam manuscritos cujo tamanho m&#xE1;ximo varia entre 15 (em revistas mais restritivas, como a Revista Jur&#xED;dica da Presid&#xEA;ncia) e 35 p&#xE1;ginas, nas revistas que admitem artigos mais longos. Embora haja uma fronteira nebulosa entre os artigos grandes e as monografias curtas, o mais comum &#xE9; que as monografias tenham tamanhos correspondentes a cerca de dois a tr&#xEA;s artigos, superando com isso as 50 p&#xE1;ginas nas monografias de gradua&#xE7;&#xE3;o e se aproximando de 100 p&#xE1;ginas no caso das disserta&#xE7;&#xF5;es de mestrado.</p><p>Todos evitamos estabelecer claramente esses limites de extens&#xE3;o porque alguns trabalhos curtos podem ser muito densos e muitos trabalhos longos s&#xE3;o compila&#xE7;&#xF5;es infind&#xE1;veis de fichamentos e cita&#xE7;&#xF5;es, que ocupam espa&#xE7;o sem agregar nada. Se voc&#xEA; escreve uma monografia de 60 a 80 p&#xE1;ginas, uma disserta&#xE7;&#xE3;o de mestrado de 100 a 120 p&#xE1;ginas e um doutorado de algo em torno de 150 p&#xE1;ginas, cremos que ningu&#xE9;m vai comentar o tamanho deles na banca, pois eles ser&#xE3;o sentidos como &#x201C;normais&#x201D;.</p><p>J&#xE1; os artigos t&#xEA;m limites muito mais claros, pois textos curtos demais (o que &#xE9; raro) n&#xE3;o chegam a ser public&#xE1;veis, e trabalhos longos demais deixam de s&#xEA;-lo. Um artigo de 16 p&#xE1;ginas pode ser publicado em quase qualquer revista jur&#xED;dica brasileira, mas quando um artigo vai chegando &#xE0;s 30, 35 p&#xE1;ginas, poucas s&#xE3;o as revistas cuja pol&#xED;tica editorial admite a sua submiss&#xE3;o, mesmo que se trate de revistas puramente online (onde era de se esperar que o tamanho n&#xE3;o fosse uma quest&#xE3;o central).</p><p>Portanto, se voc&#xEA; deseja publicar um livro, pense em escrever um manuscrito de 100 a 150 p&#xE1;ginas, dividido em cap&#xED;tulos que tenham o tamanho de um artigo, para que esses cap&#xED;tulos possam circular de forma independente. Na academia, s&#xE3;o poucos os livros que s&#xE3;o lidos integralmente porque a parte inovadora e original de uma obra acad&#xEA;mica costuma estar concentrada em alguns dos seus pontos. Os pesquisadores raramente leem os livros inteiros porque eles consultam essas obras em busca de elementos que dialoguem com as suas pr&#xF3;prias pesquisas. No uso did&#xE1;tico em cursos de gradua&#xE7;&#xE3;o e p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; mais comum que os professores recomendem a leitura de certos cap&#xED;tulos, e n&#xE3;o de livros inteiros, se se voc&#xEA; quer que o seu texto circule em tais cursos, conv&#xE9;m organizar o trabalho de modo a facilitar esse tipo de uso fragmentado.</p><p>A l&#xF3;gica dos peri&#xF3;dicos &#xE9; diferente, porque o prest&#xED;gio do peri&#xF3;dico &#xE9; medido em termos do seu <em>fator de impacto</em>, ou seja, do quanto ele &#xE9; citado por outras publica&#xE7;&#xF5;es. N&#xE3;o interessa &#xE0;s revistas publicar textos que tenham potencial pequeno para receber cita&#xE7;&#xF5;es, o que incentiva as revistas a publicar um pequeno n&#xFA;mero de artigos de alta qualidade. Por&#xE9;m, a avalia&#xE7;&#xE3;o institucional da CAPES e os crit&#xE9;rios de inser&#xE7;&#xE3;o em bases p&#xFA;blicas como a Scielo (Scientific Eletronic Library Online) imp&#xF5;em aos peri&#xF3;dicos uma s&#xE9;rie de caracter&#xED;sticas que condicionam as suas dimens&#xF5;es e o seu funcionamento, especialmente de limites &#xE0; sua <em>endogenia</em>.</p><p>Boa parte das revistas &#xE9; sustentada por recursos de uma institui&#xE7;&#xE3;o determinada, especialmente de universidades p&#xFA;blicas e privadas, que t&#xEA;m um grande interesse de que essas revistas publiquem os textos dos seus pesquisadores. Por&#xE9;m, todos os sistemas de avalia&#xE7;&#xE3;o consideram a endogenia como um signo de baixa qualidade, o que faz com que sejam introduzidos v&#xE1;rios crit&#xE9;rios de <em>pluralidade</em>: uma revista de prest&#xED;gio deve ter editores filiados a diferentes institui&#xE7;&#xF5;es, deve ter pareceristas de v&#xE1;rios locais, deve publicar textos de autores de regi&#xF5;es diferentes e em l&#xED;nguas diversas.</p><p>Para entrar no Scielo, por exemplo, que &#xE9; um signo de grande prest&#xED;gio para um peri&#xF3;dico, a revista precisa ter editores associados a v&#xE1;rias institui&#xE7;&#xF5;es de pesquisa, inclusive fora do pa&#xED;s, precisa admitir 25% de seus artigos para revis&#xE3;o em l&#xED;ngua estrangeira.</p><h2 id="2-o-horizonte-temporal-dos-trabalhos">2. O horizonte temporal dos trabalhos</h2><p>Todo pesquisador est&#xE1; constantemente em um dilema, visto que suas pesquisas s&#xE3;o determinadas por dois elementos que apontam em sentidos contr&#xE1;rios.</p><p>De um lado, &#xE9; sempre importante formular abordagens originais e criativas. Quanto mais voc&#xEA; avan&#xE7;a na academia, maiores s&#xE3;o as exig&#xEA;ncias no sentido de que o seu trabalho precisa ser mais complexo em v&#xE1;rios n&#xED;veis: </p><ol><li>emp&#xED;rico, com coletas de dados mais desafiadoras;</li><li>te&#xF3;rico, com a formula&#xE7;&#xE3;o original de categorias para classificar os dados de forma inovadora;</li><li>metodol&#xF3;gico, com o desenvolvimento de ferramentas de an&#xE1;lise capazes de extrair conclus&#xF5;es interessantes dos dados que voc&#xEA; levantou.</li></ol><p>Por outro lado, n&#xE3;o adianta muita coisa planejar uma pesquisa t&#xE3;o complexa que exigir&#xE1; que voc&#xEA; desenvolva compet&#xEA;ncias cujo dom&#xED;nio demandar&#xE1; um tempo que n&#xE3;o &#xE9; dispon&#xED;vel e cuja coleta de dados exigir&#xE1; recursos que voc&#xEA; pode n&#xE3;o ter.</p><p>&#xC9; sempre esperado que os seus trabalhos demandem que voc&#xEA; aprimore algumas habilidades ao longo do processo (estat&#xED;sticas, computacionais, metodol&#xF3;gicas, etc.), mas esse processo de forma&#xE7;&#xE3;o precisa ser compat&#xED;vel com a complexidade do seu trabalho e o tempo dispon&#xED;vel.</p><p>O limite do seu horizonte temporal deve ser o de quatro anos, que &#xE9; atualmente o prazo m&#xE1;ximo de um doutorado. Esse &#xE9; um per&#xED;odo suficiente para que voc&#xEA; possa dedicar dois anos ou tr&#xEA;s anos ao desenvolvimento de capacidades estat&#xED;sticas e computacionais avan&#xE7;adas. Tamb&#xE9;m &#xE9; suficiente para que voc&#xEA; realize um longo trabalho de campo, com aplica&#xE7;&#xE3;o de muitos question&#xE1;rios ou com uma observa&#xE7;&#xE3;o participativa que pode tomar v&#xE1;rios meses. </p><p>Nos limites do doutorado, voc&#xEA; pode reservar o &#xFA;ltimo ano para a coleta de dados e a reda&#xE7;&#xE3;o final da tese, o que lhe d&#xE1; at&#xE9; tr&#xEA;s anos para realizar atividades como:</p><ol><li>Defini&#xE7;&#xE3;o e aprimoramento do projeto;</li><li>Estudos preparat&#xF3;rios e revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica;</li><li>Estudos metodol&#xF3;gicos: estat&#xED;stica, programa&#xE7;&#xE3;o, <em>machine learning</em>, etc.</li></ol><p>Ao longo dessa fase de planejamento e prepara&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; normal que voc&#xEA; altere v&#xE1;rias vezes o objeto de pesquisa, visto que seus estudos abrir&#xE3;o muitos caminhos que voc&#xEA; nunca explorou. Por mais que essas mudan&#xE7;as conduzam a um aprimoramento que &#xE9; desej&#xE1;vel, o longo tempo do doutorado permite que muitas pessoas se percam nesse caminho, seja procrastinando a defini&#xE7;&#xE3;o do objeto de pesquisa, seja fazendo estudos preparat&#xF3;rios que nunca terminam, seja dedicando-se muito ao trabalho fora da academia. </p><p>O exerc&#xED;cio da liberdade &#xE9; um processo que gera ang&#xFA;stia, pois somos respons&#xE1;veis diretos pelos nossos atos e os n&#xED;veis de exposi&#xE7;&#xE3;o de uma defesa p&#xFA;blica s&#xE3;o um peso muito grande para v&#xE1;rios estudantes. A s&#xED;ndrome do impostor &#xE9; um fantasma constante para os acad&#xEA;micos e v&#xE1;rios s&#xE3;o os doutorandos que enfrentam quadros de ang&#xFA;stia e depress&#xE3;o nessa fase de indefini&#xE7;&#xE3;o dos projetos.</p><p>Para enfrentar essas dificuldades, os programas de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o tendem a exigir dos doutorandos, no meio do seu curso, uma <em>qualifica&#xE7;&#xE3;o do projeto</em>: o projeto dever&#xE1; ser apresentado a uma banca e, uma vez aprovado, n&#xE3;o pode mais ser substancialmente alterado. Essa &#xE9; uma estrat&#xE9;gia que exige dos doutorandos um planejamento cuidadoso (que &#xE9; imprescind&#xED;vel no n&#xED;vel de complexidade das pesquisas de doutorado) e garante que ao menos um ano e meio seja destinado &#xE0; execu&#xE7;&#xE3;o dos projetos. </p><p>J&#xE1; os mestrados (profissionais ou acad&#xEA;micos) t&#xEA;m, no m&#xE1;ximo, dois anos de prazo, o que faz com que simplesmente n&#xE3;o haja tempo dispon&#xED;vel para fazer todos esses desenvolvimentos pr&#xE9;vios. Dois anos pode parecer muito tempo para um pesquisador iniciante (afinal, &#xE9; quase metade de uma gradua&#xE7;&#xE3;o), mas isso significa que os mestrandos t&#xEA;m basicamente um ano para se preparar (1/3 do tempo dos doutorandos) e um ano para executar o projeto. </p><p>Essa grande restri&#xE7;&#xE3;o temporal faz com que os mestrandos precisem ser muito comedidos em seus projetos, pois de nada adianta planejar uma pesquisa t&#xE3;o ambiciosa que ela se torne incompat&#xED;vel com a disponibilidade real de tempo e de recursos. &#xA0;O projeto de mestrado costuma ser o momento no qual os estudantes se v&#xEA;m frente ao doloroso reconhecimento dos seus pr&#xF3;prios limites, pois o que se exige dos mestrandos &#xE9; um trabalho public&#xE1;vel (o que n&#xE3;o se exige na gradua&#xE7;&#xE3;o e em algumas especializa&#xE7;&#xF5;es), mas o tempo oferecido &#xE9; muito pequeno para realizar um produto desse tipo.</p><p>Um mestrando precisa escolher com cuidado as habilidades que ele pretende desenvolver e o conjunto de informa&#xE7;&#xF5;es que pretende analisar, para que tudo isso caiba no seu apertado cronograma. Isso faz com que o enfrentamento dos desafios do mestrado somente seja vi&#xE1;vel com uma boa orienta&#xE7;&#xE3;o, que auxilie os pesquisadores na defini&#xE7;&#xE3;o do objeto de pesquisa, da bibliografia a se revista e das estrat&#xE9;gias de abordagem.</p><p>J&#xE1; as p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xF5;es <em>lato sensu</em> (especializa&#xE7;&#xF5;es) costumam ser ainda mais concisas. Uma p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o de 18 meses oferece aos estudantes o mesmo tempo de prepara&#xE7;&#xE3;o de um mestrado (cerca de um ano de aulas), mas apenas metade do tempo para a realiza&#xE7;&#xE3;o da pesquisa, o que exige a formula&#xE7;&#xE3;o de projetos ainda mais enxutos.</p><p>No caso das gradua&#xE7;&#xF5;es, o tempo dispon&#xED;vel para a pesquisa varia e o tempo de prepara&#xE7;&#xE3;o &#xE9; dilu&#xED;do ao longo do curso, em disciplinas metodol&#xF3;gicas diferentes, mas &#xE9; comum que o Trabalho de Conclus&#xE3;o de Curso seja realizado no &#xFA;ltimo semestre, o que exige que ele caiba em cerca de 4 meses. Por&#xE9;m, n&#xE3;o se espera que os graduandos produzam trabalhos originais nem public&#xE1;veis: trata-se de um exerc&#xED;cio com foco na forma&#xE7;&#xE3;o do pesquisador, diferentemente da p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o, que tem como foco a produ&#xE7;&#xE3;o de trabalhos que efetivamente contribuam com novos conhecimentos para o campo.</p><h2 id="3-dimens-es-de-complexidade"><strong>3. Dimens&#xF5;es de complexidade</strong></h2><p>No ponto anterior, discutimos o modo como o tempo da pesquisa precisa ser adequado aos prazos dispon&#xED;veis. Pesquisas mais extensas costumam gerar trabalhos mais longos, mas isso n&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;rio, pois investiga&#xE7;&#xF5;es extensas e complexas podem gerar artigos curtos, que consolidam o resultado de muito esfor&#xE7;o.</p><p>Trabalhos acad&#xEA;micos muito longos (de v&#xE1;rias centenas de p&#xE1;ginas) costumam ser menos densos e envolver muitos trechos de revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica ou mesmo de transcri&#xE7;&#xF5;es. O que deve diferenciar os trabalhos de gradua&#xE7;&#xE3;o dos de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; a sua extens&#xE3;o, mas o n&#xED;vel de complexidade.</p><p>Pesquisas acad&#xEA;micas podem ter diversos graus de complexidade em suas v&#xE1;rias dimens&#xF5;es. </p><h3 id="3-1-dimens-o-emp-rica-o-levantamento-dos-dados">3.1 Dimens&#xE3;o emp&#xED;rica: o levantamento dos dados</h3><p>Existem trabalhos em que &#xE9; desafiadora a coleta de dados emp&#xED;ricos capazes de possibilitar um enfrentamento do problema de pesquisa. Essa &#xE9; uma tarefa especialmente complexa quando voc&#xEA; precisa fazer uma observa&#xE7;&#xE3;o direta dos fen&#xF4;menos ou quando lida com documentos que est&#xE3;o em arquivos cujo acesso &#xE9; restrito.</p><p>Uma pesquisa poss&#xED;vel seria a de mapear a forma como o STF utiliza o tempo de suas sess&#xF5;es virtuais e presenciais: que processos s&#xE3;o julgados, quanto tempo &#xE9; destinado a cada um, o que esse tempo envolve (sustenta&#xE7;&#xF5;es, votos, di&#xE1;logos, etc.). Esse &#xE9; um tipo de pesquisa em que um grande desafio seria o de assistir &#xE0;s se&#xE7;&#xF5;es (ao vivo ou em grava&#xE7;&#xF5;es) para poder identificar o uso do tempo. Investiga&#xE7;&#xF5;es que envolvem a observa&#xE7;&#xE3;o direta de fen&#xF4;menos sociais, como julgamentos, tendem a exigir um tempo muito grande de coleta de dados, mesmo quando eles s&#xE3;o facilmente acessados.</p><p>Ocorre que nem todos os dados est&#xE3;o em arquivos abertos ao p&#xFA;blico. Tha&#xED;s Dum&#xEA;t, por exemplo, fez na UnB uma pesquisa chamada &quot;<a href="https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/16696/1/2013_ThaisDumetFaria.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Hist&#xF3;ria de um sil&#xEA;ncio eloquente</a>&quot;, que buscava compreender qual era o perfil das mulheres criminalizadas pelo sistema brasileiro de justi&#xE7;a no in&#xED;cio do s&#xE9;culo XX. Ela narra que sua ideia inicial era trabalhar com os prontu&#xE1;rios das detentas na Penitenci&#xE1;ria Feminina (hoje chamada de Talavera Bruce), e que ela passou praticamente um ano enfrentando uma burocracia que exigia autoriza&#xE7;&#xE3;o do Secret&#xE1;rio de Seguran&#xE7;a P&#xFA;blica, em um processo administrativo espec&#xED;fico, para ter acesso aos documentos. Somente depois de todo esse itiner&#xE1;rio, que envolveu seis visitas ao Rio de Janeiro e o cumprimento de uma s&#xE9;rie de exig&#xEA;ncias, a pesquisadora recebeu a informa&#xE7;&#xE3;o de que os prontu&#xE1;rios que ela queria examinar haviam sido destru&#xED;dos por um inc&#xEA;ndio e que, portanto, n&#xE3;o havia mais documentos sobre aquela &#xE9;poca.</p><p>O desafio de coletar informa&#xE7;&#xF5;es contidas em arquivos desse tipo &#xE9; grande e pode consumir uma parte substancial do tempo dispon&#xED;vel. Se Tha&#xED;s Dum&#xEA;t tivesse conseguido acesso aos prontu&#xE1;rios, ela teria enfrentado outros desafios (de ordem te&#xF3;rica e metodol&#xF3;gica), relacionados &#xE0; organiza&#xE7;&#xE3;o e &#xE0; classifica&#xE7;&#xE3;o dos documentos. Como as fontes de pesquisa definidas no projeto se mostraram indispon&#xED;veis, Dum&#xEA;t teve de modificar o objeto da investiga&#xE7;&#xE3;o, que passou a lidar com documentos acess&#xED;veis na Biblioteca Nacional. Ela n&#xE3;o conseguiu informa&#xE7;&#xF5;es diretas sobre as detentas, mas a an&#xE1;lise de discursos da &#xE9;poca permitiu que ela avaliasse os estere&#xF3;tipos sobre a criminalidade feminina na primeira metade do s&#xE9;c. XX (<a href="https://metodologia.agu.arcos.org.br/analise-da-complexidade-das-pesquisas/Hist%C3%B3ria%20de%20um%20sil%C3%AAncio%20eloquente">Dum&#xEA;t, 2013</a>).</p><p>Essa op&#xE7;&#xE3;o pela pesquisa em documentos p&#xFA;blicos, como livros dispon&#xED;veis em bibliotecas ou decis&#xF5;es judiciais, reduz a complexidade do processo de coleta de dados emp&#xED;ricos, lembrando que a pesquisa documental &#xE9; emp&#xED;rica, pois ela observa diretamente certos objetos (os documentos).</p><p>Nesse ponto de levantamento de dados emp&#xED;ricos, podemos ter pesquisas que s&#xE3;o de:</p><ol><li>Baixa complexidade: utiliza informa&#xE7;&#xF5;es contidas em bancos de dados p&#xFA;blicos, anteriormente organizados, de tal forma que n&#xE3;o h&#xE1; necessidade de despender esfor&#xE7;os de coleta e organiza&#xE7;&#xE3;o dos dados;</li><li>M&#xE9;dia complexidade: utiliza informa&#xE7;&#xF5;es contidas em bancos de dados p&#xFA;blicos, mas que n&#xE3;o foram previamente organizadas, o que exige dos pesquisadores um trabalho de gera&#xE7;&#xE3;o de bancos estruturados de dados;</li><li>Alta complexidade: precisa produzir os dados utilizados nas an&#xE1;lises, seja por meio de experimentos, de observa&#xE7;&#xE3;o direta, de entrevistas, de etnografia ou de outras formas de levantamento de dados sobre as situa&#xE7;&#xF5;es pesquisadas.</li></ol><h3 id="3-2-dimens-o-te-rica-as-escolhas-conceituais">3.2 Dimens&#xE3;o te&#xF3;rica: as escolhas conceituais</h3><p>Existem trabalhos em que a coleta dos dados pode ser simples, mas a sua an&#xE1;lise pode ser sobremaneira desafiadora. </p><p>Como devemos classificar os dados obtidos? Essa &#xE9; uma quest&#xE3;o propriamente te&#xF3;rica e devemos reconhecer que, no campo da pesquisa emp&#xED;rica em direito, n&#xE3;o ocorreu ainda uma consolida&#xE7;&#xE3;o das categorias de an&#xE1;lise, o que aumenta a complexidade te&#xF3;rica das investiga&#xE7;&#xF5;es.</p><ol><li>O que se deve chamar de processo? Uma cautelar em ADI &#xE9; processo ou &#xE9; um incidente dentro de outro processo? </li><li>O que se deve chamar de decis&#xE3;o? Uma decis&#xE3;o repetitiva &#xE9; uma nova decis&#xE3;o ou &#xE9; uma aplica&#xE7;&#xE3;o nova de uma decis&#xE3;o anterior?</li><li>O que se deve chamar de proced&#xEA;ncia? Uma decis&#xE3;o de ADPF que afirma a necessidade de uma interpreta&#xE7;&#xE3;o conforme, pode se apresentar como proced&#xEA;ncia, mas na pr&#xE1;tica manter a validade do entendimento que foi contestado pela a&#xE7;&#xE3;o.</li></ol><p>Esse tipo de escolha pode ser feita pelos pesquisadores, mas a forma t&#xED;pica de enfrent&#xE1;-las &#xE9; eleger um &quot;marco te&#xF3;rico&quot; e afiliar-se a ele. Quando o investigador define um referencial te&#xF3;rico espec&#xED;fico, ele se desonera da complexa tarefa de desenvolver os conceitos ou de justificar a sua ado&#xE7;&#xE3;o, reduzindo a complexidade te&#xF3;rica da pesquisa. </p><p>A ado&#xE7;&#xE3;o de marcos te&#xF3;ricos adequados &#xE9; o que viabiliza a pesquisa conclusiva. Voc&#xEA; n&#xE3;o pode reconstruir a roda a cada momento, pois isso desloca o seu problema emp&#xED;rico (compreender uma situa&#xE7;&#xE3;o) para uma quest&#xE3;o propriamente te&#xF3;rica (desenvolver um conceito voltado a compreender situa&#xE7;&#xF5;es). </p><p>Se voc&#xEA; decide fazer uma investiga&#xE7;&#xE3;o acerca de como os tribunais brasileiros lidam com as pessoas transg&#xEA;nero, &#xE9; preciso que voc&#xEA; parta de um conceito de transg&#xEA;nero ou que defina um conceito no seu pr&#xF3;prio trabalho. Essa segunda op&#xE7;&#xE3;o converteria a sua investiga&#xE7;&#xE3;o em uma pesquisa te&#xF3;rica, voltada a desenvolver categorias, o que exigiria um esfor&#xE7;o te&#xF3;rico muito grande e absolutamente dispens&#xE1;vel, se o seu interesse &#xE9; analisar decis&#xF5;es judiciais de um ponto de vista emp&#xED;rico, ou analisar interpreta&#xE7;&#xF5;es jur&#xED;dicas de um ponto de vista dogm&#xE1;tico. Em ambos os casos, o mais indicado &#xE9; que voc&#xEA; escolha o conceito de transg&#xEA;nero com o qual trabalhar&#xE1; e indique essa apropria&#xE7;&#xE3;o como parte do marco te&#xF3;rico do trabalho.</p><p>A ado&#xE7;&#xE3;o de um referencial te&#xF3;rico deve ser vista como uma forma de <em>reduzir</em> a complexidade te&#xF3;rica da pesquisa, e n&#xE3;o de increment&#xE1;-la. Pesquisas com referenciais definidos podem partir para a aplica&#xE7;&#xE3;o dessa rede de categorias, sem gastar muito tempo com a sua formula&#xE7;&#xE3;o e a sua adapta&#xE7;&#xE3;o. Pesquisas com referenciais te&#xF3;ricos indefinidos precisam dedicar grande parte de seus esfor&#xE7;os (ou todos eles...) a definir categorias h&#xE1;beis para compreender as rela&#xE7;&#xF5;es sociais observadas.</p><p>Usando a mesma triparti&#xE7;&#xE3;o que foi desenvolvida no ponto anterior (e notem, essa &#xE9; uma categoria classificat&#xF3;ria formulada neste trabalho), podemos identificar que h&#xE1; tr&#xEA;s n&#xED;veis de complexidade te&#xF3;rica:</p><ol><li>Baixa complexidade. Voc&#xEA; &#xE9; capaz de utilizar um referencial te&#xF3;rico desenvolvido em trabalhos anteriores e que voc&#xEA; pode simplesmente aplicar.</li><li>M&#xE9;dia complexidade. Voc&#xEA; utiliza sistemas categoriais anteriormente desenvolvidos, mas precisa fazer algumas adapta&#xE7;&#xF5;es para a situa&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica que est&#xE1; sendo analisada.</li><li>Alta complexidade. Voc&#xEA; n&#xE3;o tem um sistema categorial predefinido, ou precisa fazer muitas adapta&#xE7;&#xF5;es para torn&#xE1;-los aplic&#xE1;veis ao seu objeto de pesquisa. </li></ol><h3 id="3-3-dimens-o-anal-tica-hermen-utica-e-metodologia">3.3 Dimens&#xE3;o anal&#xED;tica: hermen&#xEA;utica e metodologia</h3><p>Thais Dum&#xEA;t precisou alterar o objeto de pesquisa porque a coleta de dados planejada n&#xE3;o era simplesmente dif&#xED;cil, mas imposs&#xED;vel. Optar por analisar documentos dispon&#xED;veis na Biblioteca Nacional facilita o processo de levantamento de dados, mas gera outras complexidades: que tipo de categorias podem ser identificados dentro de documentos heterog&#xEA;neos?</p><p>A escolha te&#xF3;rica de Dum&#xEA;t foi usar a categoria de &quot;mulher criminosa&quot; como conceito central, e utilizar referenciais te&#xF3;ricos constru&#xED;dos para mapear representa&#xE7;&#xF5;es sociais. O trabalho com fontes t&#xE3;o diversas n&#xE3;o deixou espa&#xE7;o a uma metodologia de an&#xE1;lise de dados claramente definida, o que fez com que a solidez das conclus&#xF5;es dependessem sobremaneira da experi&#xEA;ncia da pesquisadora e de sua habilidade de interpretar os documentos e elaborar uma narrativa consistente a partir das fontes consultadas.</p><p>Essa abordagem hermen&#xEA;utica, que n&#xE3;o deixa espa&#xE7;o para m&#xE9;todos precisos, &#xE9; parte constitutiva das metodologias qualitativas, que s&#xE3;o constru&#xED;das a partir do horizonte de compreens&#xE3;o do pesquisador e de suas habilidades interpretativas. Trata-se de uma op&#xE7;&#xE3;o comum no direito, que tem a vantagem de lidar bem com grandes conjuntos de textos em linguagem natural (com as senten&#xE7;as judiciais), mas que tem a desvantagem de gerar um peso argumentativo muito grande para o pesquisador, que precisar&#xE1; justificar de modo exaustivo as suas escolhas e conclus&#xF5;es.</p><p>Abordagens qualitativas envolvem uma prepara&#xE7;&#xE3;o te&#xF3;rica muito complexa por parte dos pesquisadores, que precisam conhecer a literatura t&#xE9;cnica e filos&#xF3;fica com grande profundidade, para serem capazes de produzir an&#xE1;lises que dialoguem efetivamente com os discursos contempor&#xE2;neos. A impossibilidade definir m&#xE9;todos claros de an&#xE1;lise aumenta a complexidade anal&#xED;tica dos trabalhos, al&#xE9;m de multiplicar os desafios te&#xF3;ricos.</p><p>A ado&#xE7;&#xE3;o de m&#xE9;todos de an&#xE1;lise predefinidos n&#xE3;o deve ser vista como uma dificuldade, mas como uma alternativa para viabilizar o atingimento de conclus&#xF5;es dentro dos limites das pesquisas. Por exemplo, seus dados poderiam mostrar que, na amostra que voc&#xEA; coletou, a m&#xE9;dia geral de decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia em ADIs era de 26%, enquanto a m&#xE9;dia de decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia em processos ajuizados pela OAB seria de 30%. Ser&#xE1; poss&#xED;vel concluir, a partir desses dados, que a OAB tem um n&#xED;vel de proced&#xEA;ncia superior &#xE0; m&#xE9;dia?</p><p>Para fazer essa infer&#xEA;ncia, existem m&#xE9;todos estat&#xED;sticos, que levam em conta o tamanho da amostra, a dispers&#xE3;o dos dados e o tamanho da popula&#xE7;&#xE3;o. Aplicar esse tipo de m&#xE9;todo quantitativo pode gerar s&#xF3;lidas, pois h&#xE1; trabalhos anteriores que desenvolveram esses crit&#xE9;rios de an&#xE1;lise. Assim, apropriar-se de metodologias desenhadas em outros trabalhos &#xE9; uma forma de economizar tempo e de viabilizar conclus&#xF5;es.</p><h2 id="4-n-veis-de-complexidade-dos-trabalhos">4. N&#xED;veis de complexidade dos trabalhos</h2><p>Essas dimens&#xF5;es de complexidade podem aparecer combinadas de v&#xE1;rias formas, dentro de pesquisas concretas. Certos tipos de trabalho (como as teses de doutorado) exigem uma complexidade alta, enquanto outros trabalhos t&#xEA;m exig&#xEA;ncias menores. </p><p>Pensamos que a melhor forma de compreender essas diferen&#xE7;as, e com isso projetar um trabalho adequado, &#xE9; compreender que as atividades cient&#xED;ficas podem ter v&#xE1;rios graus de complexidade.</p><h3 id="2-1-complexidade-1-gradua-o"><strong>2.1. Complexidade 1: Gradua&#xE7;&#xE3;o</strong></h3><p>Os trabalhos produzidos na gradua&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m normalmente uma fun&#xE7;&#xE3;o meramente pedag&#xF3;gica. Eles n&#xE3;o s&#xE3;o pensados como produ&#xE7;&#xE3;o de conhecimento, mas como um exerc&#xED;cio por meio do qual o graduando se capacita gradualmente a produzir textos adequados &#xE0;s exig&#xEA;ncias do campo.</p><p>Escrever uma monografia de gradua&#xE7;&#xE3;o &#xE9; um desafio muito grande para os estudantes, mas o fato &#xE9; que os trabalhos produzidos s&#xE3;o normalmente um primeiro ensaio de produ&#xE7;&#xE3;o, que tem um foco muito grande na revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica e uma parte anal&#xED;tica de baixa complexidade e escopo reduzido.</p><p>Essas caracter&#xED;sticas fazem com que esses trabalhos raramente gerem textos public&#xE1;veis, exceto quando envolvem uma atua&#xE7;&#xE3;o mais expressiva do orientador, cujo conhecimento e experi&#xEA;ncia podem fazer com que o texto avance em termos de complexidade e originalidade.</p><p>Esses s&#xE3;o trabalhos que normalmente envolvem um tempo reduzido de planejamento e execu&#xE7;&#xE3;o, mas que devidamente orientados podem alcan&#xE7;ar patamares muito bons de qualidade, especialmente quando se trata de trabalhos emp&#xED;ricos, visto que o levantamento de novos dados e sua an&#xE1;lise pode despertar interesse acad&#xEA;mico genu&#xED;no para trabalhos de gradua&#xE7;&#xE3;o.</p><h3 id="2-2-complexidade-1-5-p-s-gradua-o-lato-sensu"><strong>2.2. Complexidade 1,5: P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o <em>lato sensu</em></strong></h3><p>A p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o <em>lato sensu</em> (ou seja, a especializa&#xE7;&#xE3;o) &#xE9; um formato no qual cabem propostas pedag&#xF3;gicas muito heterog&#xEA;neas. Em alguns casos, o objetivo &#xE9; puramente o de servir como espa&#xE7;o de <em>estudo</em>, de atualiza&#xE7;&#xE3;o de conhecimentos, o que tende a gerar trabalhos sem densidade de pesquisa.</p><p>Por&#xE9;m, a abordagem pr&#xF3;pria de uma p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o &#xE9; a que promove a realiza&#xE7;&#xE3;o de atividades de pesquisa, o que ocorre tipicamente nas institui&#xE7;&#xF5;es que t&#xEA;m (ou pretendem ter) programas de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o <em>stricto sensu</em> (mestrados e doutorados).</p><p>Na p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o <em>lato sensu</em>, diferentemente do que ocorre na gradua&#xE7;&#xE3;o, espera-se que os estudantes sejam capazes de elaborar ao menos artigos public&#xE1;veis. N&#xE3;o s&#xE3;o comuns metodologias muito complexas, que normalmente exigiriam um tempo de dedica&#xE7;&#xE3;o dos pesquisadores incompat&#xED;vel com o formato mais conciso dos cursos <em>lato sensu.</em> S&#xE3;o mais comuns abordagens de car&#xE1;ter descritivo, voltadas a mapear um determinado objeto emp&#xED;rico. Outra possibilidade comum &#xE9; admitir, como forma de TCC, <em>propostas de interven&#xE7;&#xE3;o </em>que aliem os resultados das pesquisas com propostas pr&#xE1;ticas para adaptar rotinas de trabalho aos resultados alcan&#xE7;ados, contribuindo assim para uma administra&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica baseada em evid&#xEA;ncias.</p><h3 id="2-3-complexidade-2-mestrado"><strong>2.3. Complexidade 2: Mestrado</strong></h3><p>No n&#xED;vel do mestrado, espera-se tipicamente que os estudantes se capacitem a realizar pesquisas. Com rela&#xE7;&#xE3;o aos trabalhos de gradua&#xE7;&#xE3;o, exige-se no mestrado o desenvolvimento de conhecimentos metodol&#xF3;gicos e de habilidades compat&#xED;veis com o planejamento e a execu&#xE7;&#xE3;o aut&#xF4;noma de uma pesquisa cient&#xED;fica.</p><p>Se, na gradua&#xE7;&#xE3;o, pode ser suficiente demonstrar a capacidade de fazer um levantamento bibliogr&#xE1;fico ou de mapear um determinado campo de conhecimento, o trabalho de mestrado precisa efetivamente ser qualificado como uma pesquisa. Isso faz com que os mestrandos n&#xE3;o precisem aprender apenas a formular um problema, mas tamb&#xE9;m devem ser capazes de identificar uma metodologia adequada a enfrent&#xE1;-lo e a executar a pesquisa planejada.</p><p>Por&#xE9;m, essa pesquisa n&#xE3;o precisa ser original, no sentido de que &#xE9; poss&#xED;vel se limitar a aplicar modelos anteriormente desenvolvidos (especialmente metodologias aplicadas em trabalhos anteriores) ou concentrar-se apenas na formula&#xE7;&#xE3;o de modelos descritivos. Enquanto a gradua&#xE7;&#xE3;o pode se limitar a mapear a produ&#xE7;&#xE3;o sobre um tema, o mestrado pode se limitar a mapear um certo conjunto de dados, descrevendo um determinado objeto de pesquisa.</p><p>Essa caracter&#xED;stica do modelo brasileiro &#xE9; tamb&#xE9;m presente em outros sistemas, como o Europeu, que tem uma gradua&#xE7;&#xE3;o mais resumida (tipicamente de 3 anos), mas no qual o ciclo do mestrado toma de um a dois anos e exige a produ&#xE7;&#xE3;o de um trabalho de pesquisa.</p><p>A compatibiliza&#xE7;&#xE3;o desse sistema com o nosso apresenta alguma dificuldade porque a nossa gradua&#xE7;&#xE3;o tende a ser mais longa e a exigir uma introdu&#xE7;&#xE3;o &#xE0; pesquisa, nos TCCs. Por&#xE9;m, o trabalho exigido ao final do mestrado europeu tende a ser mais parecido com as nossas disserta&#xE7;&#xF5;es de mestrado do que com as monografias de fim de curso.</p><p>Na Fran&#xE7;a, por exemplo, o <em>master</em> &#xE9; dividido em duas se&#xE7;&#xF5;es independentes, que correspondem a graus que anteriormente eram diversos. O Master 1 tem um trabalho final pr&#xF3;prio, que tem complexidade mediana e se aproxima das nossas especializa&#xE7;&#xF5;es ou monografias de fim de curso. J&#xE1; o Master 2, que &#xE9; o segundo ano do mestrado, exige trabalhos cuja complexidade &#xE9; compat&#xED;vel com as disserta&#xE7;&#xF5;es de mestrado.</p><p>A conclus&#xE3;o do <em>master</em> se d&#xE1; pela apresenta&#xE7;&#xE3;o de um TCC (<em>m&#xE9;moire</em>), que &#xE9; diferente no caso de se tratar de um <em>master professionnel</em>, voltado a um desenvolvimento de habilidades t&#xE9;cnico-profissionais, ou de um <em>master recherche</em>, voltado ao desenvolvimento da pesquisa.</p><p>No caso do <em>m&#xE9;moire de recherche</em>, trata-se tipicamente de uma monografia, cujos moldes s&#xE3;o definidos pela institui&#xE7;&#xE3;o. Na Universidade de Nanterre, por exemplo, o Master em Direito Privado deve ter no m&#xE1;ximo 40 p&#xE1;ginas, enquanto no Master em Direito Penal ele pode ter at&#xE9; 80 p&#xE1;ginas. Por&#xE9;m, no <a href="http://www.iheal.univ-paris3.fr/sites/www.iheal.univ-paris3.fr/files/Guide%20du%20memoire%20M1%20et%20M2%20Conclure%20et%20rediger.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Institut des Hautes &#xC9;tudes de L&apos;Amerique Latine</a>, o Master 1 deve ter de 30 a 40 p&#xE1;ginas e o Master 2 deve ter de 120 a 150.</p><p>J&#xE1; no caso do <em>m&#xE9;moire</em> dos mestrados profissionais, &#xE9; comum a exig&#xEA;ncia de um per&#xED;odo de est&#xE1;gio obrigat&#xF3;rio e de um texto mais reduzido, que n&#xE3;o envolve uma pesquisa, mas uma reflex&#xE3;o sobre quest&#xF5;es profissionais desenvolvidas no per&#xED;odo est&#xE1;gio.</p><p>Uma regula&#xE7;&#xE3;o mais clara dessas distin&#xE7;&#xF5;es pode ser vista nos <a href="https://www.ulaval.ca/fileadmin/Secretaire_general/Reglements/Reglement_des_etudes.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Regulamento de Estudos da Universidade de Laval</a>, no Canada, que estabelece claramente que os mestrados de pesquisa devem ser conclu&#xED;dos por meio de um <em>m&#xE9;moire de recherche</em> que envolve cerca de 30 cr&#xE9;ditos (um semestre de trabalho), enquanto o TCC do mestrado profissional envolve um ensaio, um relat&#xF3;rio de est&#xE1;gio ou um projeto de interven&#xE7;&#xE3;o que envolvem no m&#xE1;ximo 1/3 do tempo dedicado &#xE0; monografia.</p><p>No caso dos mestrados profissionais brasileiros, n&#xE3;o h&#xE1; esse enfoque no est&#xE1;gio, e as regras da Capes indicam claramente que os trabalhos de conclus&#xE3;o dever&#xE3;o atender ao m&#xE9;todo cient&#xED;fico, o que sugere a necessidade de envolvam trabalhos de pesquisa, embora essa pesquisa deva ser dirigida &#xE0; integra&#xE7;&#xE3;o entre teoria e pr&#xE1;tica que norteia esses cursos.</p><h3 id="2-4-complexidade-3-doutorado"><strong>2.4. Complexidade 3: Doutorado</strong></h3><p>Enquanto o mestrado &#xE9; um processo de desenvolvimento de consci&#xEA;ncia metodol&#xF3;gica, o doutorado exige um dom&#xED;nio completo das metodologias dispon&#xED;veis e a produ&#xE7;&#xE3;o de um trabalho original.</p><p>Essa originalidade n&#xE3;o significa dizer algo que nunca foi antes imaginado, mas significa que o pesquisador deve demonstrar sua autonomia no sentido de desenvolver modelos explicativos. Se o mestrado pode ser meramente descritivo (lidando com a aplica&#xE7;&#xE3;o de modelos te&#xF3;ricos a certos campos emp&#xED;ricos), o doutorado deve ser capaz de colocar a prova esses modelos e a contribuir para o seu aprimoramento.</p><p>A complexidade especial dos doutorados ocorre no campo da teoria: os fatos sempre s&#xE3;o complexos, mas as abordagens podem ser muito diferentes. Diferentemente dos mestrados, os doutorados devem envolver um debate te&#xF3;rico aprofundado, uma avalia&#xE7;&#xE3;o dos limites das teorias manejadas e de sua capacidade de explicar os fen&#xF4;menos observados.</p><p>A passagem do mestrado para o doutorado n&#xE3;o &#xE9; realizada por uma extens&#xE3;o da amplitude dos trabalhos de mestrado. N&#xE3;o basta, por exemplo, aplicar a mesma metodologia a um novo objeto, ou a um conjunto maior de objetos. O que se exige dos doutorandos &#xE9; que incorporem em seus problemas de pesquisa novas camadas de complexidade.</p><p>Se, no mestrado, utilizou-se uma an&#xE1;lise de como o STJ julga processos de habeas corpus, o doutorado n&#xE3;o deve envolver apenas uma extens&#xE3;o dessa an&#xE1;lise aos mandados de seguran&#xE7;a. Uma nova camada de complexidade pode ser acrescentada de v&#xE1;rias formas: comparando os dois tipos de a&#xE7;&#xF5;es ou inserindo uma nova dimens&#xE3;o (pol&#xED;tica, econ&#xF4;mica, antropol&#xF3;gica) &#xE0; an&#xE1;lise anterior. Cada nova dimens&#xE3;o gera tens&#xF5;es te&#xF3;ricas que precisam ser resolvidas, e &#xE9; o enfrentamento dessas complexidades que deveria caracterizar o doutorado.</p><p>Isso faz com que o doutorado exija uma consci&#xEA;ncia metodol&#xF3;gica superior e um dom&#xED;nio te&#xF3;rico de alta complexidade, que culminam na apresenta&#xE7;&#xE3;o de uma <em>abordagem original</em>, ou seja, de um trabalho que n&#xE3;o se limita a aplicar metodologias predefinidas, mas que contribui para o desenvolvimento de novas abordagens, ou para o aprimoramento de estrat&#xE9;gias anteriores.</p><p></p><p></p><!--kg-card-begin: markdown--><p><sup class="footnote-ref"><a href="#fn1" id="fnref1">[1]</a></sup></p>
<p>&#x201C;Certamente, ao lado da justi&#xE7;a, o bem comum &#xE9; tamb&#xE9;m um dos fins do direito. Certamente, a lei, mesmo quando m&#xE1;, conserva ainda um valor: o valor de garantir a seguran&#xE7;a do direito perante situa&#xE7;&#xF5;es duvidosas. Certamente, a imperfei&#xE7;&#xE3;o humana n&#xE3;o consente que sempre e em todos os casos se combinem harmoniosamente nas leis os tr&#xEA;s valores que todo o direito deve servir: o bem comum, a seguran&#xE7;a jur&#xED;dica e a justi&#xE7;a. Ser&#xE1;, muitas vezes, necess&#xE1;rio ponderar se a uma lei m&#xE1;, nociva ou injusta, dever&#xE1; ainda reconhecer-se validade por amor da seguran&#xE7;a do direito; ou se, por virtude de sua nocividade ou injusti&#xE7;a, tal validade lhe dever&#xE1; ser recusada. Mas uma coisa h&#xE1; que deve estar profundamente gravada na consci&#xEA;ncia do povo e de todos os juristas: <em>pode</em> haver leis tais, com um tal grau de injusti&#xE7;a e de nocividade para o bem comum, que toda a validade e at&#xE9; o car&#xE1;ter de jur&#xED;dicas n&#xE3;o poder&#xE3;o jamais deixar de lhes ser negados.&#x201D;</p>
<p>&#x201C;Certamente, ao lado da justi&#xE7;a, o bem comum &#xE9; tamb&#xE9;m um dos fins do direito. Certamente, a lei, mesmo quando m&#xE1;, conserva ainda um valor: o valor de garantir a seguran&#xE7;a do direito perante situa&#xE7;&#xF5;es duvidosas. Certamente, a imperfei&#xE7;&#xE3;o humana n&#xE3;o consente que sempre e em todos os casos se combinem harmoniosamente nas leis os tr&#xEA;s valores que todo o direito deve servir: o bem comum, a seguran&#xE7;a jur&#xED;dica e a justi&#xE7;a. Ser&#xE1;, muitas vezes, necess&#xE1;rio ponderar se a uma lei m&#xE1;, nociva ou injusta, dever&#xE1; ainda reconhecer-se validade por amor da seguran&#xE7;a do direito; ou se, por virtude de sua nocividade ou injusti&#xE7;a, tal validade lhe dever&#xE1; ser recusada. Mas uma coisa h&#xE1; que deve estar profundamente gravada na consci&#xEA;ncia do povo e de todos os juristas: <em>pode</em> haver leis tais, com um tal grau de injusti&#xE7;a e de nocividade para o bem comum, que toda a validade e at&#xE9; o car&#xE1;ter de jur&#xED;dicas n&#xE3;o poder&#xE3;o jamais deixar de lhes ser negados.&#x201D;&#x201C;Certamente, ao lado da justi&#xE7;a, o bem comum &#xE9; tamb&#xE9;m um dos fins do direito. Certamente, a lei, mesmo quando m&#xE1;, conserva ainda um valor: o valor de garantir a seguran&#xE7;a do direito perante situa&#xE7;&#xF5;es duvidosas. Certamente, a imperfei&#xE7;&#xE3;o humana n&#xE3;o consente que sempre e em todos os casos se combinem harmoniosamente nas leis os tr&#xEA;s valores que todo o direito deve servir: o bem comum, a seguran&#xE7;a jur&#xED;dica e a justi&#xE7;a. Ser&#xE1;, muitas vezes, necess&#xE1;rio ponderar se a uma lei m&#xE1;, nociva ou injusta, dever&#xE1; ainda reconhecer-se validade por amor da seguran&#xE7;a do direito; ou se, por virtude de sua nocividade ou injusti&#xE7;a, tal validade lhe dever&#xE1; ser recusada. Mas uma coisa h&#xE1; que deve estar profundamente gravada na consci&#xEA;ncia do povo e de todos os juristas: <em>pode</em> haver leis tais, com um tal grau de injusti&#xE7;a e de nocividade para o bem comum, que toda a validade e at&#xE9; o car&#xE1;ter de jur&#xED;dicas n&#xE3;o poder&#xE3;o jamais deixar de lhes ser negados.&#x201D;&#x201C;Certamente, ao lado da justi&#xE7;a, o bem comum &#xE9; tamb&#xE9;m um dos fins do direito. Certamente, a lei, mesmo quando m&#xE1;, conserva ainda um valor: o valor de garantir a seguran&#xE7;a do direito perante situa&#xE7;&#xF5;es duvidosas. Certamente, a imperfei&#xE7;&#xE3;o humana n&#xE3;o consente que sempre e em todos os casos se combinem harmoniosamente nas leis os tr&#xEA;s valores que todo o direito deve servir: o bem comum, a seguran&#xE7;a jur&#xED;dica e a justi&#xE7;a. Ser&#xE1;, muitas vezes, necess&#xE1;rio ponderar se a uma lei m&#xE1;, nociva ou injusta, dever&#xE1; ainda reconhecer-se validade por amor da seguran&#xE7;a do direito; ou se, por virtude de sua nocividade ou injusti&#xE7;a, tal validade lhe dever&#xE1; ser recusada. Mas uma coisa h&#xE1; que deve estar profundamente gravada na consci&#xEA;ncia do povo e de todos os juristas: <em>pode</em> haver leis tais, com um tal grau de injusti&#xE7;a e de nocividade para o bem comum, que toda a validade e at&#xE9; o car&#xE1;ter de jur&#xED;dicas n&#xE3;o poder&#xE3;o jamais deixar de lhes ser negados.&#x201D;</p>
<hr class="footnotes-sep">
<section class="footnotes">
<ol class="footnotes-list">
<li id="fn1" class="footnote-item"><p>dasdfas <a href="#fnref1" class="footnote-backref">&#x21A9;&#xFE0E;</a></p>
</li>
</ol>
</section>
<!--kg-card-end: markdown-->]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Design da pesquisa: acoplando problemas e métodos]]></title><description><![CDATA[<p>Epstein e King chamam a defini&#xE7;&#xE3;o conjunta do problema e da estrat&#xE9;gia de abordagem de <em>design</em> da pesquisa. Usaremos aqui esse termo porque se trata de uma palavra que &#xE9; bastante utilizada em portugu&#xEA;s para designar esse tipo de atividade.</p><p>A partir dos</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/design-da-pesquisa/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97052</guid><category><![CDATA[Atividades]]></category><category><![CDATA[Em grupo]]></category><category><![CDATA[15 min]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Mon, 21 Jun 2021 19:24:41 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Epstein e King chamam a defini&#xE7;&#xE3;o conjunta do problema e da estrat&#xE9;gia de abordagem de <em>design</em> da pesquisa. Usaremos aqui esse termo porque se trata de uma palavra que &#xE9; bastante utilizada em portugu&#xEA;s para designar esse tipo de atividade.</p><p>A partir dos estudos feitos at&#xE9; este momento, o grupo dever&#xE1; formular um &quot;objeto de pesquisa&quot; e definir uma estrat&#xE9;gia de abordagem capaz de coletar dados h&#xE1;beis para que seja poss&#xED;vel formular uma resposta ao problema de pesquisa.</p><p>O tempo designado para essa atividade &#xE9; de 15 minutos.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Módulo 6 - Análise de dados judiciais]]></title><description><![CDATA[<ul><li>at&#xE9; 4/10/2022 - Leitura dos textos do M&#xF3;dulo 6</li><li>4/10/2022, 18h30 - Encontro s&#xED;ncrono: Prof. Henrique Fulg&#xEA;ncio</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a</div>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/modulo06-2/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97051</guid><category><![CDATA[Módulo]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Wed, 09 Jun 2021 12:54:48 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<ul><li>at&#xE9; 4/10/2022 - Leitura dos textos do M&#xF3;dulo 6</li><li>4/10/2022, 18h30 - Encontro s&#xED;ncrono: Prof. Henrique Fulg&#xEA;ncio</li></ul><!--kg-card-begin: html--><div class="post-excerpt" style="font-size: 0.01em;opacity:0;margins:0 0 0;">a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a </div><!--kg-card-end: html--><h2 id="2-introdu-o">2. Introdu&#xE7;&#xE3;o</h2><p>Nesta unidade, trabalharemos o significado da coleta de dados e os desafios envolvidos nela, especialmente a quest&#xE3;o dos vieses cognitivos que precisam ser mitigados, para evitar que um vi&#xE9;s de sele&#xE7;&#xE3;o distor&#xE7;a os resultados da pesquisa.</p><p>Exploraremos um pouco a p&#xE1;gina de Estat&#xED;stica do STF, em busca de dados que permitam a produ&#xE7;&#xE3;o de an&#xE1;lises.</p><p>O objetivo geral &#xE9; o de compreender as formas pelas quais os dados j&#xE1; organizados podem ser acessados e come&#xE7;ar a enfrentar os desafios da classifica&#xE7;&#xE3;o dos dados.</p><p>&#xC9; preciso contar com computadores com Excel instalado, para explorar essas bases e outras que disponibilizaremos.</p><p>Al&#xE9;m de trabalhar sobre a tabela, aprenderemos alguns t&#xF3;picos pr&#xE1;ticos sobre Excel.</p><h2 id="3-objetivos">3. Objetivos</h2><ol><li>Compreender a forma de estrutura&#xE7;&#xE3;o do banco de dados</li><li>Identificar algumas fontes interessantes de bancos de dados</li><li>Adquirir capacidades b&#xE1;sicas de explora&#xE7;&#xE3;o de dados com Excel</li></ol><h2 id="4-leituras">4. Leituras</h2><h3 id="4-1-leitura-obrigat-ria">4.1 Leitura obrigat&#xF3;ria</h3><blockquote>1: Costa, Alexandre. <strong><a href="https://novo.arcos.org.br/coleta-de-dados-judiciais/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Coleta de dados judiciais</a></strong>. Arcos, 2021.</blockquote><blockquote>2: Costa, Alexandre.<strong> <a href="https://dsd.arcos.org.br/explorando-dados-no-excel/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Explorando dados com o Excel</a></strong>. Arcos, 2020.</blockquote><h3 id="4-2-leitura-sugerida">4.2 Leitura sugerida</h3><blockquote>1: Costa, Alexandre; Horta, Ricardo; Fulg&#xEA;ncio, Henrique. <a href="https://novo.arcos.org.br/pesquisa-empirica-em-direito/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Pesquisa emp&#xED;rica em Direito</a>. Metodologia.Arcos, 2020.Qual a diferen&#xE7;a entre pesquisa experimental e pesquisa observacional</blockquote><ol><li>Qual &#xE9; a rela&#xE7;&#xE3;o entre metodologia e infer&#xEA;ncia?</li><li>Qual &#xE9; a diferen&#xE7;a entre abordagens quantitativas e abordagens qualitativas?</li><li>&#xC9; poss&#xED;vel mesclar estrat&#xE9;gias quantitativas e qualitativas na mesma pesquisa?</li><li>O que s&#xE3;o unidades de an&#xE1;lise?</li></ol><blockquote>2: Costa, Alexandre. <a href="https://dsd.arcos.org.br/analise-de-dados/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">An&#xE1;lise de dados</a>. Metodologia.Arcos, 2020.</blockquote><h3 id="4-3-leitura-complementar">4.3: Leitura complementar</h3><p>1. Yeung, Luciana. Jurimetria ou An&#xE1;lise Quantitativa de Decis&#xF5;es Judiciais. Em: Machado, Ma&#xED;ra R. <a href="http://reedpesquisa.org/wp-content/uploads/2019/04/MACHADO-Mai%CC%81ra-org.-Pesquisar-empiricamente-o-direito.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Pesquisar empiricamente o Direito</a>. S&#xE3;o Paulo: Rede de Estudos Emp&#xED;ricos em Direito, 2017.</p><p>2. Epstein, Lander e Posner. &#xA0;The Behavior of Federal Judges. Cap&#xED;tulo 1. A Realistic Theory of Judicial Behavior.</p><p>3. Pfeffer, J.; &#xA0;Sutton, R. I. (2006). <a href="https://hbr.org/2006/01/evidence-based-management?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Evidence-Based Management</a>. <em>Harvard Business Review</em>,<em> janeiro</em>.</p><h2 id="5-atividades">5. &#xA0;Atividades</h2><h3 id="5-1">5.1 </h3>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Analisar a estrutura dos trabalhos científicos]]></title><description><![CDATA[<p>Esta atividade tem por objetivo analisar as estruturas poss&#xED;veis dos trabalhos acad&#xEA;micos, para voc&#xEA; compreender os modelos existentes e realizar as escolhas referentes ao seu TCC. O primeiro passo &#xE9; ler o texto abaixo:</p><blockquote><a href="https://metodologia.agu.arcos.org.br/a-estrutura-dos-textos-academicos/">A estrutura dos textos acad&#xEA;micos</a></blockquote><p>No m&#xF3;dulo</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/atividade03/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97050</guid><category><![CDATA[Atividades]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Tue, 01 Jun 2021 17:45:43 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Esta atividade tem por objetivo analisar as estruturas poss&#xED;veis dos trabalhos acad&#xEA;micos, para voc&#xEA; compreender os modelos existentes e realizar as escolhas referentes ao seu TCC. O primeiro passo &#xE9; ler o texto abaixo:</p><blockquote><a href="https://metodologia.agu.arcos.org.br/a-estrutura-dos-textos-academicos/">A estrutura dos textos acad&#xEA;micos</a></blockquote><p>No m&#xF3;dulo anterior, voc&#xEA; j&#xE1; identificou 5 trabalhos de seu interesse. Conhecer os texto da sua &#xE1;rea e identificar bons modelos &#xE9; o come&#xE7;o do caminho para escrever um trabalho s&#xF3;lido e public&#xE1;vel.</p><p>Embora a estrutura IMRD seja dominante nas publica&#xE7;&#xF5;es de artigos nas revistas cient&#xED;ficas que veiculam pesquisas experimentais, ela n&#xE3;o &#xE9; a estrutura t&#xED;pica dos artigos em direito, especialmente por estar ligada especialmente &#xE0; divulga&#xE7;&#xE3;o de resultados de pesquisas emp&#xED;ricas.</p><p>Os artigos jur&#xED;dicos adotam formatos e abordagens muito diferentes: hist&#xF3;ricas, comparativas, ensa&#xED;sticas, dogm&#xE1;ticas, quantitativas. Todas elas s&#xE3;o modos v&#xE1;lidos de contribuir para o desenvolvimento do conhecimento jur&#xED;dico.</p><p>A atividade deste m&#xF3;dulo consiste em analisar os textos que j&#xE1; escolheu na atividade anterior e identifique a sua estrutura, atentando-se para o modo como aparecem no texto:</p><ol><li>a defini&#xE7;&#xE3;o do objeto da pesquisa,</li><li>as explica&#xE7;&#xF5;es metodol&#xF3;gicas,</li><li>a revis&#xE3;o de bibliografia,</li><li>a explana&#xE7;&#xE3;o e a an&#xE1;lise dos resultados/dados.</li></ol><p>Em especial, veja qual &#xE9; o peso dado &#xE0; metodologia, se h&#xE1; resultados de pesquisa a serem indicados e se as conclus&#xF5;es se baseiam em evid&#xEA;ncias descritas no trabalho.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mapeando a bibliografia]]></title><description><![CDATA[<h2></h2><p>No m&#xF3;dulo passado, voc&#xEA; mapeou 5 peri&#xF3;dicos relvantes para os temas que te interessam. Nesta semana, avan&#xE7;aremos com o mapeamento dos artigos contidos nesses peri&#xF3;dicos.</p><h2 id="passo-1-identificar-5-artigos-interessantes">Passo 1: Identificar 5 artigos interessantes</h2><p>No m&#xF3;dulo passado, voc&#xEA; leu os &#xED;</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/mapeando-a-bibliografia/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704f</guid><category><![CDATA[Atividades]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Tue, 01 Jun 2021 16:31:50 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2></h2><p>No m&#xF3;dulo passado, voc&#xEA; mapeou 5 peri&#xF3;dicos relvantes para os temas que te interessam. Nesta semana, avan&#xE7;aremos com o mapeamento dos artigos contidos nesses peri&#xF3;dicos.</p><h2 id="passo-1-identificar-5-artigos-interessantes">Passo 1: Identificar 5 artigos interessantes</h2><p>No m&#xF3;dulo passado, voc&#xEA; leu os &#xED;ndices dos peri&#xF3;dicos, para confirmar que eles t&#xEA;m interesses convergentes com os seus. Neste m&#xF3;dulo, o objetivo &#xE9; identificar 5 artigos que voc&#xEA; tenha achado interessantes nesses peri&#xF3;dicos, para inseri-los na nossa biblioteca compartilhada. </p><p>Esta biblioteca come&#xE7;ar&#xE1; o curso vazia, e ser&#xE1; preenchida pelas pesquisas que voc&#xEA;s fizerem. Para fazer essa inser&#xE7;&#xE3;o, a primeira coisa a fazer &#xE9; tornar-se membro desta biblioteca p&#xFA;blica, seguindo os passos descritos a seguir.</p><h2 id="passo-2-ingressar-na-biblioteca-compartilhada">Passo 2: Ingressar na biblioteca compartilhada</h2><p>Criamos no zotero.org uma biblioteca p&#xFA;blica para a nossa disciplina, que inicialmente est&#xE1; vazia.</p><p>Para acess&#xE1;-la, clique no link da <a href="https://www.zotero.org/groups/4274113/metodologia_de_pesquisa_em_direito/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Biblioteca Compartilhada de Metodologia de Pesquisa em Direito</a>. Se voc&#xEA; n&#xE3;o tem uma conta no Zotero, que &#xE9; um aplicativo gratuito <em>open source</em>, clique em &quot;<em>Register&quot;</em> e fa&#xE7;a uma conta nesse site. </p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/06/image.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="972" height="474" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2021/06/image.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/06/image.png 972w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></figure><p>Uma ver registrada a sua conta, voc&#xEA; pode clicar novamente sobre o link e agora voc&#xEA; poder&#xE1; escolher a op&#xE7;&#xE3;o &quot;<em>Join&quot;</em>, que permite tornar-se membro da biblioteca compartilhada.</p><p>Uma vez que voc&#xEA; se tornar um membro, poder&#xE1; ingressar na <em>Group Library,</em> por meio do link contido na p&#xE1;gina acima (na parte esquerda, em azul) ou por meio deste <a href="https://www.zotero.org/groups/4274113/metodologia_de_pesquisa_em_direito/library?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">link para a Biblioteca</a>.</p><h2 id="passo-3-adicionar-biblioteca-compartilhada-os-textos-que-voc-selecionou">Passo 3: Adicionar &#xE0; Biblioteca Compartilhada os textos que voc&#xEA; selecionou </h2><p>Dentro da Biblioteca, voc&#xEA; poder&#xE1; ver todos os textos que a comp&#xF5;em e, principalmente, acrescentar novos textos, cujas refer&#xEA;ncias ser&#xE3;o compartilhadas com todas as pessoas que ingressarem na biblioteca. De fato, a biblioteca &#xE9; p&#xFA;blica e voc&#xEA; poderia ter entrado nela sem se tornar membro. Por&#xE9;m, sendo membro, voc&#xEA; pode edit&#xE1;-la, que &#xE9; o objetivo desta atividade.</p><p>Se voc&#xEA; clicar no &quot;+&quot; indicado na tela abaixo, voc&#xEA; criar&#xE1; uma entrada, e poder&#xE1; colocar os dados de um dos artigos que voc&#xEA; selecionou.</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2020/09/image-2.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="720" height="193" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2020/09/image-2.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2020/09/image-2.png 720w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></figure><p>Por&#xE9;m, h&#xE1; uma op&#xE7;&#xE3;o mais simples para cumprir esta tarefa: voc&#xEA; pode clicar sobre o s&#xED;mbolo da varinha &#xE0; direita do &quot;+&quot;, o que vai abrir o <em>Add by identifier</em>. Na janela que se abre, voc&#xEA; pode inserir o endere&#xE7;o de um dos artigos selecionados.</p><p>Essa &#xE9; uma alternativa que funciona bem com artigos que t&#xEA;m identificadores claros dos dados a serem buscados. Por exemplo, na p&#xE1;gina abaixo, temos um artigo publicado na Revista Direito GV, que tem o DOI (Digital Object Identifier). </p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/06/image-1.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="958" height="421" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2021/06/image-1.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/06/image-1.png 958w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></figure><p>Se voc&#xEA; inserir esse n&#xFA;mero (que pode ser copiado no bot&#xE3;o indicado pela seta amarela) no &quot;Add by Identifier&quot;, ele carrega as informa&#xE7;&#xF5;es do artigo de forma autom&#xE1;tica. Como o DOI tem todos os dados bem classificados, &#xE9; prov&#xE1;vel que a essa inser&#xE7;&#xE3;o ocorra sem erros. Quando usamos o endere&#xE7;o da p&#xE1;gina (URL), pode haver alguma dificuldade na apropria&#xE7;&#xE3;o autom&#xE1;tica dos dados, exigindo um cuidado maior de revis&#xE3;o, para garantir que os dados est&#xE3;o todos corretos.</p><p>Uma forma ainda mais pr&#xE1;tica &#xE9; abrir a p&#xE1;gina de <a href="https://www.zotero.org/download/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Downloads do Zotero</a> e baixar o conector do Zotero com o navegador que voc&#xEA; utiliza (Chrome, Firefox, Safari ou Edge). Fazendo isso, voc&#xEA; pode instalar uma extens&#xE3;o para o navegador, que acrescenta um bot&#xE3;o Zotero, que possibilita que voc&#xEA; extraia diretamente para a biblioteca os dados da p&#xE1;gina em que voc&#xEA; estiver. Assim, basta ir &#xE0;s p&#xE1;ginas dos artigos que voc&#xEA; selecionou e clique sobre o bot&#xE3;o <em>Save to Zotero</em>. </p><p>Agora que voc&#xEA; sabe inserir novos itens na Bibliografia Compartilhada, acrescente a ela os textos que voc&#xEA; identificou como relevantes, tomando apenas o cuidado de verificar se eles j&#xE1; foram acrescentados por outros estudantes, para evitar inser&#xE7;&#xF5;es duplicadas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A disciplina de metodologia de pesquisa]]></title><description><![CDATA[<p>O objetivo deste curso &#xE9; desenvolver compet&#xEA;ncias ligadas ao exerc&#xED;cio da pesquisa.</p><p>No campo do direito, &#xE9; comum que os cursos de metodologia sejam lecionados como cursos de <em>epistemologia</em>, ou seja, de filosofia da ci&#xEA;ncia. Esse tipo de abordagem conduz ao desenvolvimento de um</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/a-disciplina-de-metodologia-de-pesquisa/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704e</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Sat, 29 May 2021 04:22:01 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>O objetivo deste curso &#xE9; desenvolver compet&#xEA;ncias ligadas ao exerc&#xED;cio da pesquisa.</p><p>No campo do direito, &#xE9; comum que os cursos de metodologia sejam lecionados como cursos de <em>epistemologia</em>, ou seja, de filosofia da ci&#xEA;ncia. Esse tipo de abordagem conduz ao desenvolvimento de um discurso filos&#xF3;fico acerca da pesquisa, que trata das caracter&#xED;sticas das atividades cient&#xED;ficas e aborda a estrutura, os limites e as possibilidades do discurso cient&#xED;fico.</p><p>&#xC9; bem verdade que um debate epistemol&#xF3;gico &#xE9; importante para estudantes que prov&#xE9;m de uma gradua&#xE7;&#xE3;o em direito que raramente trata dessa ordem de quest&#xF5;es. Por&#xE9;m, existem casos nos quais a ado&#xE7;&#xE3;o desse enfoque decorre do fato de as disciplinas de metodologia serem ministradas por docentes ligados &#xE0; teoria e &#xE0; filosofia, mas que t&#xEA;m pouca viv&#xEA;ncia no exerc&#xED;cio da pesquisa emp&#xED;rica.</p><p>O presente curso n&#xE3;o tem um enfoque epistemol&#xF3;gico, mas metodol&#xF3;gico: trata-se de desenvolver habilidades relacionadas &#xE0; pesquisa emp&#xED;rica, o que deixa um espa&#xE7;o restrito para o debate acerca das v&#xE1;rias teorias sobre a ci&#xEA;ncia. Para quem deseja aprofundar os conhecimentos de epistemologia, sugerimos a leitura de um excelente livro de Paulo Abrantes chamado <em>M&#xE9;todo e Ci&#xEA;ncia: uma abordagem filos&#xF3;fica</em> (<a href="http://www.finotracoeditora.com.br/livros/000570/9786599155925/metodo-e-ciencia-uma-abordagem-filosofica.html?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Abrantes, 2013</a>). </p><p>Neste curso, embora seja imprescind&#xED;vel tratar de algumas quest&#xF5;es filos&#xF3;ficas, o objetivo principal &#xE9; capacitar os estudantes a formular um projeto de pesquisa que seja ao mesmo tempo coeso e fact&#xED;vel. Toda pesquisa envolve um trabalho extenso, por isso, a etapa de planejamento &#xE9; essencial. Nenhum advogado faz um projeto de peti&#xE7;&#xE3;o, para depois ser executado, porque as peti&#xE7;&#xF5;es tendem a ser trabalhos relativamente curtos e que seguem uma estrutura predeterminada: descri&#xE7;&#xE3;o dos fatos, qualifica&#xE7;&#xE3;o jur&#xED;dica dos fatos descritos e pedido. Escrevemos um esbo&#xE7;o inicial, que &#xE9; revisto e aprimorado, at&#xE9; chegar a um resultado consistente.</p><p>Essa din&#xE2;mica de estabelecer minutas e submet&#xEA;-las a ciclos de revis&#xE3;o, &#xE9; adaptada ao trabalho pr&#xE1;tico de advogados e ju&#xED;zes, que escrevem textos na estrutura de um parecer: defesa ret&#xF3;rica de uma tese, que manifesta a opini&#xE3;o do parecerista. Essa mesma abordagem tamb&#xE9;m &#xE9; adaptada a trabalhos acad&#xEA;micos em que seguem a estrutura de um ensaio, que normalmente &#xE9; desenvolvido de modo intuitivo e circular: o autor estuda bastante e, a partir do estudo, chega a algumas conclus&#xF5;es que s&#xE3;o apresentadas e justificadas.</p><p>Tal abordagem intuitiva tem a vantagem de exigir pouco esfor&#xE7;o de planejamento e tem a desvantagem de tornar os resultados muito dependentes da experi&#xEA;ncia do pesquisador, visto que a sua sensibilidade ser&#xE1; o principal guia para selecionar os casos relevantes, para identificar os argumentos centrais e para construir a justificativa ret&#xF3;rica das conclus&#xF5;es. </p><p>No caso das pesquisas emp&#xED;ricas, essa abordagem intuitiva &#xE9; pouco indicada porque os ciclos de revis&#xE3;o da pesquisa s&#xE3;o demasiadamente custosos. Um magistrado pode entender que o texto que est&#xE1; escrevendo para uma senten&#xE7;a n&#xE3;o defendeu suas conclus&#xF5;es de modo suficientemente claro nem convincente, e isso faz com que ele tenha de rever o texto. Rever o texto &#xE9; uma atividade complexa, mas que podemos fazer v&#xE1;rias vezes, at&#xE9; chegar a um bom resultado.</p><p>No caso das pesquisas emp&#xED;ricas, podemos enfrentar o mesmo dilema sobre a clareza dos argumentos, e isso tamb&#xE9;m faz com que os pesquisadores passem pelos mesmos ciclos de revis&#xE3;o de sua escrita. Ocorre, por&#xE9;m, que a pesquisa emp&#xED;rica lida com a produ&#xE7;&#xE3;o de <em>conjuntos de dados</em>, que s&#xE3;o feitos a partir de procedimentos espec&#xED;ficos de coleta, de tratamento, de classifica&#xE7;&#xE3;o, de organiza&#xE7;&#xE3;o. Nesse caso, se um pesquisador segue intuitivamente a sua sensibilidade e descobre ao fim que n&#xE3;o levantou dados suficientes, ele n&#xE3;o pode simplesmente rever o trabalho: ele precisa reiniciar a pesquisa.</p><p>Se a amostra for insuficiente e se as classifica&#xE7;&#xF5;es forem inadequadas, n&#xE3;o se trata de remodelar os argumentos, mas de recompor as bases de dados. Se um doutorando passou meses realizando entrevistas e depois entendeu que teria sido crucial fazer uma determinada pergunta aos entrevistados, ele muitas vezes n&#xE3;o ter&#xE1; como refazer essas entrevistas. Se um mestrando desenhou mal um experimento sobre a efic&#xE1;cia de um medicamento, o resultado pode ser inconclusivo, e o pesquisador provavelmente n&#xE3;o ter&#xE1; tempo nem dinheiro para refaz&#xEA;-lo.</p><p>Em suma: nas pesquisas que envolvem a observa&#xE7;&#xE3;o e a coleta de dados, a corre&#xE7;&#xE3;o de defici&#xEA;ncias na coleta e no tratamento das informa&#xE7;&#xF5;es tendem a exigir custos e tempo que n&#xE3;o s&#xE3;o dispon&#xED;veis ao pesquisador emp&#xED;rico. A estrat&#xE9;gia ensa&#xED;stica de fazer um esbo&#xE7;o e desenvolv&#xEA;-los em ciclos de revis&#xE3;o s&#xF3; funciona quando n&#xE3;o h&#xE1; uma etapa longa e custosa de experimenta&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica ou de levantamento de dados.</p><p>Fazer uma pesquisa emp&#xED;rica de modo intuitivo &#xE9; como come&#xE7;ar a construir uma casa de modo intuitivo, a partir de um esbo&#xE7;o geral. Quanto mais complexo for o seu desafio (talvez voc&#xEA; n&#xE3;o queira construir uma casa, mas um submarino ou um computador), a aus&#xEA;ncia de um planejamento minucioso e exigente &#xE9; receita certa para o fracasso.</p><p>Isso faz com que o planejamento da pesquisa emp&#xED;rica seja um elemento crucial para o &#xEA;xito do trabalho: diversamente do que ocorre nos pareceres e ensaios (que s&#xE3;o as formas de escrita t&#xED;picas dos juristas), as pesquisas exigem uma etapa de projeto que permite a identifica&#xE7;&#xE3;o e a supera&#xE7;&#xE3;o de defici&#xEA;ncias antes de o pesquisador &quot;ir a campo&quot; para levantar os dados.</p><p>Essa necessidade crucial de planejamento n&#xE3;o diminui o lugar da criatividade e da intui&#xE7;&#xE3;o, que s&#xE3;o elementos fundamentais para a formula&#xE7;&#xE3;o de hip&#xF3;teses explicativas. Por&#xE9;m, a pesquisa emp&#xED;rica se realiza por meio de observa&#xE7;&#xF5;es minuciosas, que em vez de operar uma intui&#xE7;&#xE3;o bem cultivada, precisam desafiar explicitamente as nossas convic&#xE7;&#xF5;es. Isso ocorre porque a ci&#xEA;ncia parte de intui&#xE7;&#xF5;es, mas tem a necessidade de submet&#xEA;-las a testes rigorosos, para elas serem consideradas plaus&#xED;veis.</p><p>A pesquisa cient&#xED;fica prospera atrav&#xE9;s um delicado equil&#xED;brio entre intui&#xE7;&#xF5;es afiadas (que s&#xE3;o necess&#xE1;rias para formular hip&#xF3;teses criativas) e uma grande desconfian&#xE7;a acerca das pr&#xF3;prias convic&#xE7;&#xF5;es (desconfian&#xE7;a que &#xE9; necess&#xE1;ria para que nossas hip&#xF3;teses sejam verdadeiramente colocadas a teste). O parecerista tende a defender as opini&#xF5;es &#xE0;s quais chegou intuitivamente, o que o leva a construir estruturas ret&#xF3;ricas de justifica&#xE7;&#xE3;o. Enquanto o cientistas estabelecer testes rigorosos para as suas intui&#xE7;&#xF5;es, o ensa&#xED;sta busca defender as interpreta&#xE7;&#xF5;es e explica&#xE7;&#xF5;es que ele pr&#xF3;prio formula.</p><p>Na academia jur&#xED;dica, essa abordagem ensa&#xED;stica leva ao risco de que uma confian&#xE7;a demasiada na intui&#xE7;&#xE3;o fa&#xE7;a com que a pesquisa se limite a confirmar as hip&#xF3;teses de trabalho. Todavia, confiar pouco na intui&#xE7;&#xE3;o tamb&#xE9;m gera problemas, pois tende a conduzir o pesquisador a realizar trabalhos burocr&#xE1;ticos, de pouca originalidade. &#xC9; f&#xE1;cil afirmar que devemos ter um equil&#xED;brio aristot&#xE9;lico entre confiar demais e confiar de menos. Mas ocorre que essa &quot;confian&#xE7;a desconfiada&quot; &#xE9; t&#xE3;o paradoxal que n&#xE3;o podemos esperar que ela seja realizada adequadamente por uma pessoa. </p><p>Os seres humanos tendem a exigir provas muito s&#xF3;lidas para demonstrar teses que desafiam as nossas cren&#xE7;as, mas se contentam &#xA0;com ind&#xED;cios fr&#xE1;geis, quando eles confirmam nossas convic&#xE7;&#xF5;es, como podemos observar claramente nas senten&#xE7;as do ent&#xE3;o juiz Sergio Moro ou dos famosos <em>powerpoints </em>de Deltan Dalagnol. Tanto o senso comum como as pesquisas de psicologia comportamental nos indicam que somos maus ju&#xED;zes sobre nossas pr&#xF3;prias cren&#xE7;as, mas somos avaliadores rigorosos com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s teses defendidas pelas outras pessoas. </p><p>Essa assimetria faz com que v&#xE1;rias institui&#xE7;&#xF5;es sociais (como a ci&#xEA;ncia e o judici&#xE1;rio) adotem processos coletivos de avalia&#xE7;&#xE3;o. No judici&#xE1;rio, a decis&#xE3;o monocr&#xE1;tica de um juiz normalmente pode ser reavaliada por um coletivo de magistrados. Na academia, todo trabalho &#xE9; submetido a uma avalia&#xE7;&#xE3;o externa, em que um coletivo de examinadores analisa a solidez das metodologias e dos resultados. </p><p>Essa din&#xE2;mica faz com que os acad&#xEA;micos, assim como os magistrados, estejam sempre submetidos a um alto grau de exposi&#xE7;&#xE3;o. Um pesquisador tem de estar aberto sempre a submeter-se ao escrut&#xED;nio de outros, bem como a participar da avalia&#xE7;&#xE3;o do trabalho de seus pares, o que exige o desenvolvimento de crit&#xE9;rios rigorosos de produ&#xE7;&#xE3;o e tamb&#xE9;m de um olhar sens&#xED;vel para os desafios que cada um de n&#xF3;s enfrenta.</p><p>Na pr&#xE1;tica do direito, n&#xE3;o h&#xE1; interpreta&#xE7;&#xF5;es objetivamente corretas, mas a necessidade pr&#xE1;tica de tomar decis&#xF5;es definitivas faz com que sejam criados sistemas de <em>autoridade</em>: a senten&#xE7;a judicial n&#xE3;o decorre de um conhecimento especial dos ju&#xED;zes, mas t&#xE3;o-somente da autoridade em que est&#xE3;o investidos. O que distingue um juiz n&#xE3;o &#xE9; o seu conhecimento nem &#xE9; o seu prest&#xED;gio, mas &#xE9; o seu poder.</p><p>Na ci&#xEA;ncia, n&#xE3;o h&#xE1; lugar para a autoridade. H&#xE1; lugar para o prest&#xED;gio, para o reconhecimento p&#xFA;blico das contribui&#xE7;&#xF5;es que foram e s&#xE3;o feitas por diversos atores, que se tornam influentes em alguns campos e que representam modelos a serem seguidos. Mas o prest&#xED;gio n&#xE3;o significa poder, pois os trabalhos dos cientistas mais c&#xE9;lebres podem ser contestados mesmo por pesquisadores iniciantes: a for&#xE7;a da cr&#xED;tica est&#xE1; nas evid&#xEA;ncias e nos argumentos.</p><p>Para que essa din&#xE2;mica ocorra, &#xE9; preciso ter razo&#xE1;vel seguran&#xE7;a de que as cr&#xED;ticas ser&#xE3;o construtivas, e o primeiro passo nesse sentido &#xE9; que as pessoas que comp&#xF5;em um grupo se reconhe&#xE7;am e se percebam como companheiros em um desafio comum, nos quais existe abertura para ouvir e disposi&#xE7;&#xE3;o para apoiar uns aos outros nos riscos assumidos.</p><p>A forma&#xE7;&#xE3;o do pesquisador nunca &#xE9; um processo isolado: precisamos do olhar do outro, com um teste para nossas intui&#xE7;&#xF5;es; e precisamos olhar uns para os outros, para formularmos conjuntamente par&#xE2;metros rigorosos de avalia&#xE7;&#xE3;o das nossas pr&#xF3;prias ideias. Assim, a forma&#xE7;&#xE3;o dos pesquisadores sempre envolve a prepara&#xE7;&#xE3;o para essa intera&#xE7;&#xE3;o com o escrut&#xED;nio da comunidade, em uma defesa p&#xFA;blica que tem por objetivo avaliar tanto a profici&#xEA;ncia do pesquisador quanto a &#xA0;solidez do trabalho.</p><p>O forte vi&#xE9;s de confirma&#xE7;&#xE3;o que cada pessoa tem acerca de suas convic&#xE7;&#xF5;es faz com que, por mais imenso que seja o esfor&#xE7;o individual envolvido em um trabalho, &#xA0;nossas pesquisas somente atingem resultados excelentes quando realizadas no contexto de um grupo coeso, que nos ofere&#xE7;a tanto uma base segura para nos arriscarmos em intui&#xE7;&#xF5;es ousadas quanto que nos desafie a submeter nossas intui&#xE7;&#xF5;es a testes rigorosos. </p><p>Nas disciplinas acad&#xEA;micas, &#xE9; preciso construir um espa&#xE7;o de acolhimento e seguran&#xE7;a que permita aos estudantes, especialmente aos mais t&#xED;midos, que possam fazer perguntas e sugest&#xF5;es de forma livre, o que contribui para o desenvolvimento de uma intui&#xE7;&#xE3;o sens&#xED;vel. Um ambiente intimidador e competitivo estimula todos os participantes a evitar posi&#xE7;&#xF5;es em que se sintam expostos. Se as pessoas n&#xE3;o se sentem estimuladas a demonstrar as suas d&#xFA;vidas e inquieta&#xE7;&#xF5;es ou para arriscar interpreta&#xE7;&#xF5;es originais, o processo de aprendizagem fica muito prejudicado.</p><p>Essa situa&#xE7;&#xE3;o faz com que as disciplinas de metodologia tenham um objetivo d&#xFA;plice: precisamos desenvolver algumas habilidades no plano individual, mas tamb&#xE9;m precisamos fomentar la&#xE7;os, para que a turma possa se transformar em um grupo capaz de contribuir efetivamente para que os v&#xE1;rios trabalhos possam ser desenvolvidos com excel&#xEA;ncia. </p><p>N&#xE3;o h&#xE1; excel&#xEA;ncia sem di&#xE1;logo, sem toler&#xE2;ncia, sem abertura, sem cumplicidade. Por isso, ao final da disciplina, esperamos que voc&#xEA;s tenham bons projetos no n&#xED;vel individual, mas tamb&#xE9;m que voc&#xEA;s ter&#xE3;o conseguido formar uma comunidade epist&#xEA;mica, um grupo que servir&#xE1; de apoio para que esses projetos possam ser revistos e aperfei&#xE7;oados, ao longo do seu processo de execu&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Precisamos, ent&#xE3;o, investir tempo na cria&#xE7;&#xE3;o de um ambiente em que as pessoas se sintam acolhidas e seguras. O primeiro passo para isso &#xE9; deixar claro que todos n&#xF3;s partilhamos todos os mesmos receios e inseguran&#xE7;as. A academia exige que cada um de n&#xF3;s esteja sempre superando seus limites, o que gera uma forte s&#xED;ndrome do impostor: todos temos receio de n&#xE3;o estarmos &#xE0; altura dos desafios que precisamos enfrentar, todos temos receio de que algu&#xE9;m desmascare a nossa fraqueza. </p><p>Essa &#xE9; uma dificuldade inerente ao fato de que, no campo acad&#xEA;mico, pois n&#xE3;o importa qual &#xE9; a sua experi&#xEA;ncia e a sua capacidade: cada um de n&#xF3;s se prop&#xF5;e a enfrentar desafios que est&#xE3;o sempre al&#xE9;m das nossas for&#xE7;as e que, por isso, n&#xE3;o conv&#xE9;m que sejam enfrentados sozinhos. Voc&#xEA;s t&#xEA;m os seus colegas, que os ajudar&#xE3;o a perceber as potencialidades e os limites de suas intui&#xE7;&#xF5;es mais inspiradas, e voc&#xEA;s ter&#xE3;o tamb&#xE9;m os orientadores, cuja fun&#xE7;&#xE3;o &#xE9; justamente auxiliar voc&#xEA;s com a experi&#xEA;ncia acumulada por quem j&#xE1; trilhou outras vezes esse caminho.</p><p>A sensa&#xE7;&#xE3;o de inseguran&#xE7;a costuma nos acompanhar desde o in&#xED;cio do processo, pois quase todos duvidamos da solidez dos projetos de pesquisa apresentados nos processos seletivos. Os melhores projetos s&#xE3;o aqueles feitos dentro de um grupo de pesquisa, com a an&#xE1;lise e colabora&#xE7;&#xE3;o de outros pesquisadores. Por&#xE9;m, raros s&#xE3;o os candidatos em qualquer processo seletivo que tiveram a oportunidade de debater coletivamente seus projetos e de obter aux&#xED;lio de pesquisadores experientes, capazes de auxiliar na defini&#xE7;&#xE3;o do problema, no aprimoramento dos m&#xE9;todos, na defini&#xE7;&#xE3;o clara dos marcos te&#xF3;ricos. Por isso, &#xE9; muito comum que os mestrandos (e mesmo doutorandos) tenham d&#xFA;vidas acerca dos projetos com os quais ingressaram nos respectivos programas de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Cada um vive a pr&#xF3;pria inseguran&#xE7;a e muitos imaginam que as outras pessoas s&#xE3;o mais seguras, mais conhecedoras, mais capazes. Mas o fato &#xE9; que as p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xF5;es e os mestrados s&#xE3;o os cursos nos quais a maioria das pessoas desenvolve as habilidades de pesquisa aut&#xF4;noma. Algumas t&#xEA;m experi&#xEA;ncias de pesquisa na gradua&#xE7;&#xE3;o, mas o que se espera nesse n&#xED;vel &#xE9; apenas a inicia&#xE7;&#xE3;o &#xE0; pesquisa, focada na forma&#xE7;&#xE3;o dos estudantes e n&#xE3;o na produ&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica propriamente dita.&#x2003;</p><p>&#xC9; somente na p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o (especialmente nos programas <em>stricto sensu</em>) que as exig&#xEA;ncias te&#xF3;rico-metodol&#xF3;gicas passam a ser compat&#xED;veis com contribui&#xE7;&#xF5;es efetivas ao campo, que s&#xE3;o escritas <em>para serem publicadas</em>. Essa escrita para a publica&#xE7;&#xE3;o envolve n&#xED;veis de exposi&#xE7;&#xE3;o aos quais muitos n&#xE3;o est&#xE3;o acostumados. Mas ocorre que esse tipo de exposi&#xE7;&#xE3;o &#xE9; inevit&#xE1;vel na academia, visto que a estrutura do conhecimento acad&#xEA;mico envolve a publicidade dos dados e a revis&#xE3;o dos pares.</p><p>A ci&#xEA;ncia &#xE9; feita por meio da formula&#xE7;&#xE3;o de explica&#xE7;&#xF5;es inovadoras, compostas por hip&#xF3;teses geradas de forma intuitiva e que, na maioria das vezes, terminam por se mostrar incompletas (quando n&#xE3;o s&#xE3;o totalmente equivocadas).</p><p>Partimos de intui&#xE7;&#xF5;es, e a ci&#xEA;ncia &#xE9; um grande projeto de testagem e aperfei&#xE7;oamento dessas intui&#xE7;&#xF5;es, movidas pela cr&#xED;tica externa e por exig&#xEA;ncias argumentativas muito grandes. O rigor espec&#xED;fico do conhecimento cient&#xED;fico decorre justamente dessa abertura constante &#xE0; cr&#xED;tica, desse reconhecimento de que nunca teremos explica&#xE7;&#xF5;es acabadas.</p><p>Erramos muito mais do que acertamos, e por isso s&#xF3; conseguimos produzir algo de interessante quando nos sentimos seguros o suficiente para arriscar. Um ambiente inseguro desestimula a din&#xE2;mica que &#xE9; pr&#xF3;pria da academia: &#xA0;propor explica&#xE7;&#xF5;es que s&#xE3;o expostas publicamente, criticadas de forma aberta e que normalmente se mostram limitadas e precisam ser constantemente revistas.</p><p>Um curso de metodologia &#xE9; justamente um treinamento voltado a capacitar os estudantes a participar dessa din&#xE2;mica de formular trabalhos robustos e apresent&#xE1;-los ao escrut&#xED;nio p&#xFA;blico. Esse &#xE9; um treino que come&#xE7;a na sala de aula, para que cada pessoa se exercite em formular hip&#xF3;teses e discuti-las publicamente, apresentando e recebendo cr&#xED;ticas. Depois, &#xE9; preciso formular um projeto de pesquisa s&#xF3;lido e fact&#xED;vel, que &#xE9; o objetivo t&#xED;pico dos cursos de metodologia. Mas devemos reconhecer que esse &#xE9; somente o in&#xED;cio de um ciclo de forma&#xE7;&#xE3;o, que somente se completa quando os pesquisadores apresentam publicamente os resultados de seus trabalhos.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Modelo de Projeto de intervenção]]></title><description><![CDATA[<h2 id="1-capa">1. Capa</h2><p>Tal como a capa do projeto de pesquisa, a capa do projeto de interven&#xE7;&#xE3;o deve conter informa&#xE7;&#xF5;es suficientes para a identifica&#xE7;&#xE3;o do projeto: o t&#xED;tulo, o autor e a sua finalidade. Uma capa t&#xED;pica tem</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/projeto-de-proposta-de-intervencao/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704d</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Fri, 05 Feb 2021 01:27:17 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2 id="1-capa">1. Capa</h2><p>Tal como a capa do projeto de pesquisa, a capa do projeto de interven&#xE7;&#xE3;o deve conter informa&#xE7;&#xF5;es suficientes para a identifica&#xE7;&#xE3;o do projeto: o t&#xED;tulo, o autor e a sua finalidade. Uma capa t&#xED;pica tem o seguinte formato:</p><!--kg-card-begin: html--><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/02/image-1.png" class="kg-image" alt style="height: 500px; width: 350px;"></figure><!--kg-card-end: html--><h2 id="2-t-tulo">2. T&#xED;tulo</h2><p>[[Repetimos aqui as mesmas orienta&#xE7;&#xF5;es do t&#xED;tulo do projeto de pesquisa. Ent&#xE3;o, se voc&#xEA; j&#xE1; conhece essas informa&#xE7;&#xF5;es, pode pular para o ponto 3.</p><p>A principal fun&#xE7;&#xE3;o do t&#xED;tulo do seu trabalho &#xE9; servir como orienta&#xE7;&#xE3;o dos <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Motor_de_busca?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">mecanismos de busca</a> na internet (google, bing, etc.), visto que futuras pesquisas dialogar&#xE3;o com a sua e &#xE9; importante fazer com que os pesquisadores encontrem o seu texto com facilidade. Como o t&#xED;tulo tem especial relev&#xE2;ncia para os algoritmos das ferramentas de busca, ele deve ser pensado como uma maneira de chamar aten&#xE7;&#xE3;o para os pontos que voc&#xEA; considera que devem atrair a aten&#xE7;&#xE3;o de potenciais leitores.</p><p>T&#xED;tulos mais &#x201C;po&#xE9;ticos&#x201D;, com express&#xF5;es mais liter&#xE1;rias e figuras de linguagem, podem ser interessantes para estimular o leitor a se interessar pelo seu texto, especialmente se ele circular em ambientes nos quais &#xE9; o est&#xED;mulo da curiosidade que gera a abertura do arquivo (como <em>facebook</em> ou <em>whatsapp</em>). Por&#xE9;m, n&#xE3;o vale a pena criar um t&#xED;tulo que seja <em>atrativo</em>, mas que n&#xE3;o corresponda muito ao trabalho propriamente dito, o que seria uma forma de <a href="https://rockcontent.com/br/blog/clickbait/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br"><em>clickbait </em></a>acad&#xEA;mico.</p><p>J&#xE1; os t&#xED;tulos mais &#x201C;descritivos&#x201D; tendem a oferecer elementos importantes para que o seu texto venha a ser encontrado por pesquisas feitas na internet, o que &#xE9; fundamental, visto que de pouco adianta dar ao trabalho t&#xED;tulo &#x201C;instigante&#x201D;, mas que o torna pouco vis&#xED;vel para as ferramentas de busca. Uma estrat&#xE9;gia de meio-termo &#xE9; usar um t&#xED;tulo mais atraente e um subt&#xED;tulo mais descritivo. Por&#xE9;m, n&#xE3;o perca de vista que toda revista cient&#xED;fica pergunta aos examinadores se o t&#xED;tulo do trabalho corresponde ao seu conte&#xFA;do, o que exige dos t&#xED;tulos que sejam capazes de descrever bem a pesquisa realizada.</p><p>Uma causa comum de problemas nesse campo &#xE9; escolhermos um t&#xED;tulo no come&#xE7;o do trabalho, quando dizemos o que gostar&#xED;amos de alcan&#xE7;ar com ele, e que o mantenhamos at&#xE9; o final, at&#xE9; por desenvolvermos com ele uma rela&#xE7;&#xE3;o afetiva. Depois que voc&#xEA; escreve o resumo do seu trabalho (etapa necess&#xE1;ria para toda publica&#xE7;&#xE3;o), &#xE9; preciso analisar com cuidado se o t&#xED;tulo apresenta mesmo o que voc&#xEA; realizou, ou se ele continua indicando quais eram as suas pretens&#xF5;es iniciais, que tipicamente s&#xE3;o reduzidas no contato com a realidade e com a dureza dos prazos.</p><p>Uma estrat&#xE9;gia normalmente &#xFA;til &#xE9; formular algumas alternativas e mostrar a outras pessoas, pois o fato de estarmos imersos na produ&#xE7;&#xE3;o do trabalho faz com que percamos um pouco da perspectiva, o que pode comprometer a clareza do t&#xED;tulo. Pode ser uma boa alternativa pedir que algu&#xE9;m leia o resumo e avalie se o t&#xED;tulo corresponde bem a ele.]]</p><h2 id="3-defini-o-da-situa-o-problema-em-que-situa-o-se-prop-e-intervir">3. Defini&#xE7;&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o-problema: em que situa&#xE7;&#xE3;o se prop&#xF5;e intervir?</h2><p>[[A pesquisa &#xE9; uma tentativa de descobrir coisas que n&#xE3;o sabemos. Por esse motivo, o <em>objeto de pesquisa</em> &#xE9; uma quest&#xE3;o: uma pergunta a ser respondida. No campo dos projetos de pesquisa, chamamos essa quest&#xE3;o de <em>problema</em>. </p><p>No caso do plano de interven&#xE7;&#xE3;o, n&#xE3;o se trata de um <em>relat&#xF3;rio</em> do que foi alcan&#xE7;ado, mas de uma sugest&#xE3;o do que devemos fazer no futuro. O seu objetivo n&#xE3;o &#xE9; ampliar o nosso conhecimento, mas aprimorar as nossas pr&#xE1;ticas. Por isso, o objeto de um plano de interven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o uma quest&#xE3;o (a ser respondida), mas &#xE9; uma situa&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica (a ser transformada). </p><p>N&#xF3;s investigamos uma quest&#xE3;o, mas n&#xF3;s intervimos em uma situa&#xE7;&#xE3;o. Por isso, costuma-se indicar que o objeto de um plano de interven&#xE7;&#xE3;o &#xE9; uma <em>situa&#xE7;&#xE3;o-problema</em>. Assim, no projeto de interven&#xE7;&#xE3;o, em vez de <em>formular um problema</em>, o proponente deve descrever a situa&#xE7;&#xE3;o que &#xE9; entendida como problem&#xE1;tica e, por isso, ser&#xE1; objeto da interven&#xE7;&#xE3;o proposta.</p><p>Toda proposta de interven&#xE7;&#xE3;o parte da identifica&#xE7;&#xE3;o de que existe uma pr&#xE1;tica institucional (a situa&#xE7;&#xE3;o-problema) deficiente, cujas limita&#xE7;&#xF5;es podem ser identificadas e enfrentadas a partir de certas a&#xE7;&#xF5;es. Por&#xE9;m, devemos ter em mente que a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; simplesmente a indica&#xE7;&#xE3;o de que algo deve ser mudado. N&#xE3;o basta diagnosticar a defici&#xEA;ncia, mas &#xE9; preciso contribuir efetivamente para a sua supera&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Enquanto um problema de pesquisa pode ser resumido a uma pergunta, a situa&#xE7;&#xE3;o problema precisa ser desenvolvida em alguns par&#xE1;grafos, que permitam tanto a sua descri&#xE7;&#xE3;o como a sua contextualiza&#xE7;&#xE3;o. Assim, a defini&#xE7;&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o problema precisa esclarecer alguns pontos relevantes.</p><h3 id="3-1-descri-o-das-pr-ticas-atuais-onde-intervir-">3.1 Descri&#xE7;&#xE3;o das pr&#xE1;ticas atuais (onde intervir)</h3><p>Qual &#xE9; a situa&#xE7;&#xE3;o em que foi identificada um problema? Trata-se de um modo de decidir processos, de uma forma de nomear pessoas, de uma estrat&#xE9;gia de aplica&#xE7;&#xE3;o de penalidades, de uma cl&#xE1;usula contratual aplicada de forma recorrente? </p><p>Como as atividades concretas que voc&#xEA; analisar&#xE1; ocorrem dentro de uma determinada organiza&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; preciso descrever a situa&#xE7;&#xE3;o com o devido esclarecimento desse contexto institucional: as formas de investiga&#xE7;&#xE3;o da Controladoria-Geral da Uni&#xE3;o, os mecanismos de sele&#xE7;&#xE3;o de gestores p&#xFA;blicos pelo Minist&#xE9;rio do Planejamento, os crit&#xE9;rios de prioridade de vacina&#xE7;&#xE3;o definidos pelo Minist&#xE9;rio da Sa&#xFA;de, e assim por diante.</p><p> Uma boa defini&#xE7;&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o-problema ser&#xE1; &#xFA;til para escrever o resumo do texto, que costuma come&#xE7;ar por uma frase como &#x201C;<em>Trata-se de uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o na atividade x, desempenhada pela institui&#xE7;&#xE3;o Y...&quot;.</em></p><p>Se voc&#xEA; construir um plano de a&#xE7;&#xE3;o para enfrentar um problema, voc&#xEA; deve ser capaz de iniciar seu resumo indicando que a proposta busca enfrentar um determinado problema pr&#xE1;tico, que ocorre em uma situa&#xE7;&#xE3;o determinada. Uma vez que seu texto seja encontrado por instrumentos de busca, os potenciais leitores iniciar&#xE3;o pela leitura do resumo, cujo conte&#xFA;do ser&#xE1; fundamental para que eles avaliem o efetivo interesse no seu trabalho.</p><h3 id="3-2-descri-o-do-problema-a-ser-enfrentado">3.2 Descri&#xE7;&#xE3;o do problema a ser enfrentado</h3><p>Antes de formular o projeto de interven&#xE7;&#xE3;o, voc&#xEA; j&#xE1; deve ter intui&#xE7;&#xF5;es sobre quais s&#xE3;o as dificuldades que existem na pr&#xE1;tica. Todo projeto de interven&#xE7;&#xE3;o parte de uma esp&#xE9;cie de diagn&#xF3;stico pr&#xE9;vio de que h&#xE1; problemas a serem enfrentados, mesmo que n&#xE3;o se saiba, a priori, que vias de enfrentamento seriam as mais adequadas.</p><p>Que elementos da situa&#xE7;&#xE3;o constituem um problema pr&#xE1;tico a ser enfrentado? Falta efetividade? Os gastos s&#xE3;o demasiados? Os resultados s&#xE3;o decepcionantes?</p><h3 id="3-3-diagn-stico-preliminar-ou-consolidado-causas-do-problema">3.3 Diagn&#xF3;stico preliminar ou consolidado: causas do problema</h3><p>O processo de busca por solu&#xE7;&#xF5;es ou aprimoramentos institucionais &#xE9; cont&#xED;nuo. O diagn&#xF3;stico nunca &#xE9; definitivo, mas reflete a situa&#xE7;&#xE3;o verificada em determinado momento, devendo ser desenvolvido em observ&#xE2;ncia ao cronograma estabelecido, o que lhe imp&#xF5;e uma limita&#xE7;&#xE3;o. Nada impede que surjam novos problemas ou possibilidades de aprimoramento em momentos posteriores, verificados em diagn&#xF3;sticos supervenientes.</p><p>Neste ponto do projeto, deve ser indicado o diagn&#xF3;stico, ou seja, o conjunto de causas que foram identificadas para os problemas. No caso de haver pesquisas pr&#xE9;vias (realizadas em momentos anteriores ou como pesquisa preparat&#xF3;ria para este projeto espec&#xED;fico), &#xE9; poss&#xED;vel apresentar um diagn&#xF3;stico consolidado, a partir do qual ser&#xE3;o desenvolvidas as abordagens da interven&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Todavia, em muitos casos existe somente um diagn&#xF3;stico preliminar, o que significa que o projeto conter&#xE1; estrat&#xE9;gias voltadas especificamente a confirmar (ou desenvolver) esse diagn&#xF3;stico. Quando h&#xE1; somente um diagn&#xF3;stico preliminar, o trabalho dever&#xE1; ter duas fases: a fase de diagn&#xF3;stico, em que os problemas e suas causas ser&#xE3;o identificados (e validados pelos atores), e uma fase de elabora&#xE7;&#xE3;o de um plano de interven&#xE7;&#xE3;o.]]</p><h3 id="3-4-justificativa-ou-por-que-intervir-">3.4 Justificativa (ou: por que intervir?)</h3><p>[[A justificativa deve ser capaz de indicar a relev&#xE2;ncia da interven&#xE7;&#xE3;o, indicando os motivos que <em>justificam</em> o investimento do esfor&#xE7;o (e muitas vezes de recursos p&#xFA;blicos) na formula&#xE7;&#xE3;o do plano.</p><p>Quando os atores envolvidos na situa&#xE7;&#xE3;o compartilham a percep&#xE7;&#xE3;o de que existe um problema s&#xE9;rio na situa&#xE7;&#xE3;o descrita, a justificativa pode ser bastante simples, pois voc&#xEA; n&#xE3;o precisa convencer as pessoas de que uma interven&#xE7;&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;ria.</p><p>Por&#xE9;m, existem casos em que os problemas (ou a viabilidade de seu enfrentamento) n&#xE3;o s&#xE3;o evidentes, o que exige a o desenvolvimento de justificativas mais elaboradas. </p><p>Pontos t&#xED;picos da justificativa s&#xE3;o a explicita&#xE7;&#xE3;o das quest&#xF5;es sociais que estimularam o desenvolvimento da interven&#xE7;&#xE3;o (quando isso n&#xE3;o foi esgotado na introdu&#xE7;&#xE3;o) e uma argumenta&#xE7;&#xE3;o que evidencie as limita&#xE7;&#xF5;es das pr&#xE1;ticas que se pretende modificar. </p><p>No caso espec&#xED;fico da proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, um dos elementos da justificativa &#xE9; uma argumenta&#xE7;&#xE3;o de que o problema &#xE9; solucion&#xE1;vel. Nem todo problema tem uma solu&#xE7;&#xE3;o que pode ser implementada por certos agentes p&#xFA;blicos. Nem todo problema ter um diagn&#xF3;stico suficientemente claro para viabilizar propostas de solu&#xE7;&#xE3;o de suas defici&#xEA;ncias. Nem toda solu&#xE7;&#xE3;o &#xE9; economicamente vi&#xE1;vel. Por tudo isso, n&#xE3;o basta esclarecer que &#xE9; importante buscar solu&#xE7;&#xF5;es, mas &#xE9; tamb&#xE9;m preciso avaliar se potenciais solu&#xE7;&#xF5;es decorrentes da proposta de interven&#xE7;&#xE3;o podem ser vi&#xE1;veis, dentro do contexto de an&#xE1;lise.</p><p>Se a justificativa precisar ser muito complexa e come&#xE7;ar a ficar maior que a pr&#xF3;pria descri&#xE7;&#xE3;o do problema, conv&#xE9;m transform&#xE1;-la em um t&#xED;tulo espec&#xED;fico. Nesse caso, em vez de ser parte da descri&#xE7;&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o-problema, seria importante ter um t&#xF3;pico aut&#xF4;nomo de justificativa, que pode vir em seguida do t&#xF3;pico de defini&#xE7;&#xE3;o do problema.</p><h2 id="4-revis-o-de-literatura-optativa-">4. Revis&#xE3;o de literatura (optativa)</h2><p>[[Antes de formular a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, voc&#xEA; deve fazer uma pesquisa exaustiva para localizar trabalhos que analisaram situa&#xE7;&#xF5;es semelhantes e que tenham testado abordagens voltadas a resolver os problemas que voc&#xEA; identificou.</p><p>Essa revis&#xE3;o &#xE9;, de fato, menos um elemento de planejamento do que a explicita&#xE7;&#xE3;o dos resultados de seus <em>estudos preparat&#xF3;rios</em>, que s&#xE3;o vitais para que voc&#xEA; entenda as limita&#xE7;&#xF5;es do conhecimento existente, as experi&#xEA;ncias anteriores e as ideias com as quais voc&#xEA; precisa dialogar.</p><p>Para os leitores (especialmente para os avaliadores) do seu projeto, essa parte serve para mostrar o quanto voc&#xEA; domina a literatura acerca do seu tema e se os estudos preparat&#xF3;rios foram suficientes para que voc&#xEA; tenha conseguido definir um problema de pesquisa relevante.</p><p>A revis&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; uma lista de obras (as refer&#xEA;ncias das obras citadas aqui vir&#xE3;o ao final, nas Refer&#xEA;ncias Bibliogr&#xE1;ficas), mas de uma descri&#xE7;&#xE3;o do <em>estado da arte</em> da produ&#xE7;&#xE3;o existente, indicando os principais trabalhos, as inova&#xE7;&#xF5;es recentes, as pesquisas em curso que voc&#xEA; conseguiu localizar. Voc&#xEA; precisa organizar a produ&#xE7;&#xE3;o que voc&#xEA; encontrou, identifica&#xE7;&#xE3;o dos principais autores, textos (livros, artigos e outros) que voc&#xEA; tenha identificado e cuja leitura e an&#xE1;lise ser&#xE1; relevante para situar e desenvolver o trabalho.</p><p>Tamb&#xE9;m &#xE9; importante ter em mente que o foco desta revis&#xE3;o &#xE9; para trabalhos pr&#xE9;vios de pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, e n&#xE3;o propriamente trabalhos te&#xF3;ricos, que podem constar da revis&#xE3;o para revelar o estado da arte, mas que interessam menos numa proposta de interven&#xE7;&#xE3;o. O seu objetivo fundamental &#xE9; mapear diagn&#xF3;sticos anteriores e relatos de experi&#xEA;ncias em &#xE1;reas correlatas, que podem servir como modelo para o desenvolvimento da interven&#xE7;&#xE3;o proposta (ou a ser proposta, se for o caso).</p><p>Devemos ressaltar que esse &#xE9; um t&#xF3;pico optativo do trabalho, pois a revis&#xE3;o de literatura pode vir concentrada neste t&#xED;tulo, mas tamb&#xE9;m pode ser difusa, com refer&#xEA;ncias &#xE0; literatura sendo feitas ao longo de cada parte do trabalho. Essa escolha entre uma abordagem concentrada na Revis&#xE3;o de Literatura ou de uma abordagem difusa ao longo da obra, deve ser feita pelo pesquisador.</p><h2 id="5-objetivos-ou-o-que-se-busca-atingir-">5. Objetivos (ou: o que se busca atingir?)</h2><p>[[Definido o objeto e justificada a sua relev&#xE2;ncia, chega a hora de fazer uma descri&#xE7;&#xE3;o dos objetivos, que serve como media&#xE7;&#xE3;o entre <em>objeto</em> e <em>abordagem</em>.</p><p>Os objetivos s&#xE3;o centrados nos <em>verbos</em> que indicam <em>o que</em> o pesquisador vai <em>fazer</em>, para poder responder &#xE0; pergunta formulada: identificar, medir, analisar, avaliar, descrever, explicar.</p><p>Os objetivos dizem <em>o que fazer</em>, e eles s&#xE3;o diretamente conectados com as estrat&#xE9;gias de abordagem, que indicar&#xE3;o <em>como</em> realizar os objetivos. Quanto mais objetivos s&#xE3;o definidos, mais espec&#xED;ficos dever&#xE3;o ser os procedimentos metodol&#xF3;gicos, que precisam mostrar como cada um deles pode ser alcan&#xE7;ado.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; preciso multiplicar infinitamente os objetivos, sendo conveniente que eles sejam mantidos em um n&#xFA;mero suficientemente amplo para que sejam capazes de desdobrar o problema em seus elementos principais (dados a serem levantados, descri&#xE7;&#xF5;es a serem feitas, rela&#xE7;&#xF5;es a serem explicadas, etc.).</p><p>Os objetivos gerais da propostas tendem a girar em torno de quatro eixos:</p><ol><li>Diagnosticar as causas dos problemas identificados;</li><li>Formular solu&#xE7;&#xF5;es adequadas para enfrentar os problemas;</li><li>Implementar as medidas propostas;</li><li>Monitorar e avaliar os efeitos da implementa&#xE7;&#xE3;o.</li></ol><p>Esses objetivos gerais tendem a ser desdobrados em objetivos espec&#xED;ficos, com verbos que indiquem o que precisa ser feito para chegar a esses objetivos (<em>identificar</em>, <em>medir</em>, <em>analisar</em>, por exemplo), de forma que cada grupo de objetivos n&#xE3;o fique muito grande (algo como tr&#xEA;s objetivos gerais, desdobrados cada um em dois ou tr&#xEA;s objetivos espec&#xED;ficos).</p><p>Essa estrutura dos objetivos definir&#xE1; as estrat&#xE9;gias de abordagem, que devem ser dimensionadas justamente para alcan&#xE7;ar esses objetivos previamente formulados.</p><p>Al&#xE9;m disso, &#xE9; bem prov&#xE1;vel que os objetivos gerais dar&#xE3;o a estrutura de cap&#xED;tulos, enquanto os objetivos espec&#xED;ficos oferecem uma boa estrutura para os itens em que esses cap&#xED;tulos s&#xE3;o divididos, e que correspondem aos resultados esperados (uma vez que os resultados esperados s&#xE3;o a concretiza&#xE7;&#xE3;o dos objetivos definidos).]]</p><h2 id="6-estrat-gias-de-abordagem-ou-que-interven-o-ser-realizada">6. Estrat&#xE9;gias de abordagem (ou: que interven&#xE7;&#xE3;o ser&#xE1; realizada?</h2><p>Nas propostas de interven&#xE7;&#xE3;o, existem tr&#xEA;s elementos que demandam a defini&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias de abordagem:</p><ol><li>Diagn&#xF3;stico</li><li>Interven&#xE7;&#xE3;o</li><li>Monitoramento e avalia&#xE7;&#xE3;o</li></ol><p>N&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;rio que todo projeto tenha esses tr&#xEA;s elementos, mas, uma vez que sejam inclu&#xED;dos, cada um deles demanda explica&#xE7;&#xF5;es metodol&#xF3;gicas espec&#xED;ficas.</p><h3 id="6-1-estrat-gias-de-diagn-stico">6.1 Estrat&#xE9;gias de diagn&#xF3;stico</h3><p>[[Em v&#xE1;rias das pesquisas-a&#xE7;&#xE3;o voltadas a criar uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, um passo preliminar &#xE9; a defini&#xE7;&#xE3;o de um diagn&#xF3;stico suficientemente desenvolvido, para que seja poss&#xED;vel estabelecer as linhas de a&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Como voc&#xEA; vai fazer o diagn&#xF3;stico? Entrevistas, grupos focais, observa&#xE7;&#xE3;o participativa? As metodologias do diagn&#xF3;stico tendem a ser pr&#xF3;ximas daquelas usadas na pesquisa, pois trata-se tamb&#xE9;m de conhecer algo.</p><p>Por&#xE9;m, na formula&#xE7;&#xE3;o da proposta, &#xE9; preciso tentar esclarecer como elas ser&#xE3;o constru&#xED;das. Isoladamente? Em grupo? Utilizar&#xE1; alguma estrat&#xE9;gia especial diagn&#xF3;stico e formula&#xE7;&#xE3;o de propostas, como o <em><a href="https://www.ibm.com/br-pt/services/business/design-thinking?p1=Search&amp;p4=43700052743588597&amp;p5=e&amp;cm_mmc=Search_Google-_-1S_1S-_-LA_BR-_-modelo+de+design+thinking_e&amp;cm_mmca7=71700000065387775&amp;cm_mmca8=kwd-824638932182&amp;cm_mmca9=Cj0KCQiA0-6ABhDMARIsAFVdQv85fhhbLDssOHJDVnYQGadAb_L7raip8iA0Xv6HmdkAFShFTDQs-_8aAgEyEALw_wcB&amp;cm_mmca10=428259716787&amp;cm_mmca11=e&amp;gclid=Cj0KCQiA0-6ABhDMARIsAFVdQv85fhhbLDssOHJDVnYQGadAb_L7raip8iA0Xv6HmdkAFShFTDQs-_8aAgEyEALw_wcB&amp;gclsrc=aw.ds&amp;ref=metodologia.agu.arcos.org.br">design thinking</a></em>? Esses elementos devem ser esclarecidos na parte de estrat&#xE9;gias de abordagem do diagn&#xF3;stico.</p><p>Por&#xE9;m, se o seu diagn&#xF3;stico j&#xE1; tiver sido suficientemente desenvolvido, voc&#xEA; n&#xE3;o ter&#xE1; uma parte espec&#xED;fica de diagn&#xF3;stico em sua investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, que ser&#xE1; concentrada no desenvolvimento das estrat&#xE9;gias que constituir&#xE3;o a pr&#xF3;pria interven&#xE7;&#xE3;o. ]]</p><h3 id="6-2-estrat-gias-de-interven-o">6.2 Estrat&#xE9;gias de interven&#xE7;&#xE3;o</h3><p>[[Se a sua pesquisa se voltar a realizar um ciclo completo de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, ser&#xE1; necess&#xE1;rio desenvolver um projeto execut&#xE1;vel de interven&#xE7;&#xE3;o, contendo:</p><ol><li>Estrat&#xE9;gias de a&#xE7;&#xE3;o, com as transforma&#xE7;&#xF5;es a serem implementadas;</li><li>Estrat&#xE9;gias de monitoramento, com os dados que devem ser levantados para poder mensurar a medida em que as transforma&#xE7;&#xF5;es planejadas foram executadas;</li><li>Estrat&#xE9;gias de avalia&#xE7;&#xE3;o, com os crit&#xE9;rios que ser&#xE3;o utilizados para avaliar o cumprimento dos objetivos.</li></ol><p>Esse tipo de estrat&#xE9;gia somente pode ser definido de antem&#xE3;o quando existem diagn&#xF3;sticos precisos &#xE0; disposi&#xE7;&#xE3;o do pesquisador. Se isso n&#xE3;o ocorrer, o objetivo da sua atividade pode n&#xE3;o ser o de <em>implementar as estrat&#xE9;gias planejadas</em>, mas <em>desenvolver um plano de a&#xE7;&#xE3;o</em>. </p><p>Nesse caso, a formula&#xE7;&#xE3;o das estrat&#xE9;gias de interven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o ser&#xE1; parte do seu planejamento, mas ser&#xE1; o pr&#xF3;prio produto que voc&#xEA; apresentar&#xE1; como TCC. Se for essa a situa&#xE7;&#xE3;o, voc&#xEA; n&#xE3;o precisa apresentar na fase de projeto um sistema coerente e completo de abordagens, mas pode limitar-se a indicar que tipo de an&#xE1;lise voc&#xEA; pretende fazer para poder desenvolver o plano de a&#xE7;&#xE3;o. </p><p>Ocorre que esse desenvolvimento n&#xE3;o &#xE9; exatamente uma atividade de pesquisa, mas &#xE9; uma atividade t&#xE9;cnica, consistente em uma s&#xE9;rie de escolhas bem fundamentadas. Assim, n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel definir, a priori, uma estrat&#xE9;gia de abordagem que conduza &#xE0; formula&#xE7;&#xE3;o das propostas. Nesse caso, voc&#xEA; deve entender o projeto como uma esp&#xE9;cie de pr&#xE9;-proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, no qual algumas estrat&#xE9;gias poss&#xED;veis devem ser delineadas de forma geral, com a indica&#xE7;&#xE3;o de que um plano de a&#xE7;&#xE3;o execut&#xE1;vel ser&#xE1; o pr&#xF3;prio objeto do trabalho.</p><h2 id="7-referencial-te-rico">7. Referencial te&#xF3;rico</h2><h3 id="7-1-repert-rio-conceitual">7.1 Repert&#xF3;rio conceitual</h3><p>[[Chegando aqui, voc&#xEA; deve reler seus objetivos e sua abordagem, em busca de entender quais s&#xE3;o os conceitos que voc&#xEA; precisa esclarecer, para que o seu problema seja plenamente compreendido e para que a sua metodologia possa operar de modo claro.</p><p>Esse &#xE9; um dos pontos que as pessoas normalmente consideram mais dif&#xED;ceis e enigm&#xE1;ticos, pois ele aponta &#xA0;para textos te&#xF3;ricos e filos&#xF3;ficos que n&#xE3;o s&#xE3;o o centro da forma&#xE7;&#xE3;o de bachar&#xE9;is em ci&#xEA;ncias sociais aplicadas, como &#xE9; o caso do direito. </p><p>Um dos erros b&#xE1;sicos &#xE9; afirmar que o marco te&#xF3;rico &#xE9; Habermas, Dworkin ou Kelsen, como se uma <em>pessoa</em> pudesse ser um referencial. O que interessa, de fato, &#xE9; estabelecer qual &#xE9; a teoria que voc&#xEA; usa (no caso de voc&#xEA; usar uma teoria espec&#xED;fica), ou esclarecer o sentido em que voc&#xEA; usa os conceitos usados nos seus argumentos. </p><p>Uma estrat&#xE9;gia interessante &#xE9; localizar os conceitos usados na descri&#xE7;&#xE3;o do problema e no diagn&#xF3;stico preliminar. Quando voc&#xEA; descreve certas pr&#xE1;ticas acerca de processos, por exemplo, voc&#xEA; normalmente utilizar&#xE1; classifica&#xE7;&#xF5;es como: simples/complexo, penal/administrativo, procedente/improcedente, etc. </p><p>Toda classifica&#xE7;&#xE3;o implica uma simplifica&#xE7;&#xE3;o relativamente arbitr&#xE1;ria dos fen&#xF4;menos, e o marco te&#xF3;rico &#xE9; justamente um esclarecimento sobre os principais conceitos, especialmente sobre as categorias que voc&#xEA; usa para classificar os objetos observados.</p><p>&#xC9; conveniente que o esclarecimento sobre os conceitos n&#xE3;o se limite &#xE0; repeti&#xE7;&#xE3;o de defini&#xE7;&#xF5;es extra&#xED;das de dicion&#xE1;rios ou livros especializadas. N&#xE3;o basta indicar um conceito definido por algum autor, pois o mais importante &#xE9; mostrar de que forma esses conceitos ser&#xE3;o utilizados dentro do trabalho. Por isso, o mais adequado &#xE9; uma defini&#xE7;&#xE3;o contextualizada, em que se mostre como as categorias propostas se relacionam com os fen&#xF4;menos. </p><p>O que importa n&#xE3;o &#xE9; indicar um conceito, n&#xE3;o &#xE9; citar um autor que tratou dele. &#xC9; preciso fazer uma esp&#xE9;cie de defini&#xE7;&#xE3;o operacional das categorias, que consiste em uma explica&#xE7;&#xE3;o capaz de esclarecer o modo como esses conceitos ser&#xE3;o operados na pr&#xE1;tica. Que tipo de ato administrativo ser&#xE1; considerado uma decis&#xE3;o? Que tipo de conduta ser&#xE1; considerada ass&#xE9;dio? Que tipos de ass&#xE9;dio voc&#xEA; observar&#xE1; nas situa&#xE7;&#xF5;es emp&#xED;ricas analisadas? Esse tipo de explica&#xE7;&#xE3;o contextualizada dos modos de opera&#xE7;&#xE3;o &#xE9; que permitir&#xE1; que as pessoas saibam <em>como</em> voc&#xEA; usar&#xE1; os conceitos na pr&#xE1;tica.</p><h3 id="7-2-teoria-de-base">7.2 Teoria de base</h3><p>Al&#xE9;m do repert&#xF3;rio de conceitos que voc&#xEA; vai manejar, que &#xE9; uma parte do seu marco te&#xF3;rico, voc&#xEA; tamb&#xE9;m pode esclarecer qual &#xE9; a sua <em>teoria de base</em>. Nesse caso, n&#xE3;o se trata de identificar o significado das classifica&#xE7;&#xF5;es que voc&#xEA; vai usar, mas de identificar a estrutura mais geral e abstrata da sua abordagem, que est&#xE1; relacionada com o tipo de descri&#xE7;&#xE3;o (ou explica&#xE7;&#xE3;o) que voc&#xEA; pretende produzir.</p><p>Uma forma de identificar essa teoria de base &#xE9; concentrar-se no tipo de interven&#xE7;&#xE3;o que voc&#xEA; imagina propor, e nos elementos que voc&#xEA; utilizar&#xE1; para explicar a utilidade dessa interven&#xE7;&#xE3;o. Isso pode conduzir a v&#xE1;rias perspectivas, sendo que algumas das principais s&#xE3;o: </p><ul><li>Behaviorismo: se voc&#xEA; imagina que deve analisar o comportamento dos agentes, buscando compreender suas inten&#xE7;&#xF5;es e seus padr&#xF5;es decis&#xF3;rios, voc&#xEA; pode estar ligado &#xE0;s abordagens behavioristas, ou seja, centradas no comportamento dos indiv&#xED;duos e tendentes a explicar fen&#xF4;menos complexos como uma rede de comportamentos individuais, de tal forma que as explica&#xE7;&#xF5;es tendem a se concentrar nas raz&#xF5;es do comportamento. </li><li>Institucionalismo: se voc&#xEA; imagina que deve propor altera&#xE7;&#xF5;es na estrutura normativa (inclusive regulat&#xF3;ria), &#xE9; mais comum que voc&#xEA; tente indicar que o funcionamento das organiza&#xE7;&#xF5;es sociais deve ser pensado em um n&#xED;vel macro, pois a intera&#xE7;&#xE3;o entre os indiv&#xED;duos gera padr&#xF5;es coletivos de comportamento que n&#xE3;o se deixam revelar a um estudo do comportamento individual. Se a sua an&#xE1;lise se concentra na rela&#xE7;&#xE3;o entre a estrutura das organiza&#xE7;&#xF5;es e os resultados da atua&#xE7;&#xE3;o institucional, voc&#xEA; pode adotar um marco <em>institucionalista</em>, concentrado na an&#xE1;lise e na transforma&#xE7;&#xE3;o das estruturas organizacionais envolvidas em uma pr&#xE1;tica social. </li><li>Neoinstitucionalismo. Se voc&#xEA; imagina que deve propor altera&#xE7;&#xF5;es nas estruturas normativas, mas com foco na cria&#xE7;&#xE3;o de incentivos que modifiquem o padr&#xE3;o de comportamento das pessoas, voc&#xEA; estar&#xE1; pr&#xF3;ximo de uma abordagem neoinstitucionalista, que busca fazer uma an&#xE1;lise integrada das intera&#xE7;&#xF5;es entre os padr&#xF5;es de comportamento dos agentes e as estruturas institucionais existentes.</li><li>P&#xF3;s-estruturalismo: se voc&#xEA; entende que as suas explica&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o se concentram nas an&#xE1;lises do comportamento individual nem do comportamento institucional nem da rela&#xE7;&#xE3;o entre esses dois polos, existe uma grande chance de que voc&#xEA; pretenda entender as pr&#xE1;ticas sociais como o exerc&#xED;cio de uma ordem discursiva, que deve ser compreendida como o exerc&#xED;cio de uma pr&#xE1;tica social que atravessa tanto pessoas como institui&#xE7;&#xF5;es. Essa explica&#xE7;&#xE3;o da sociedade a partir de estruturas de linguagem, de discursos entrela&#xE7;ados e dos modos como nossas ordens discursivas se relacionam com nossas ordens pol&#xED;ticas, voc&#xEA; pode se aproximar das teses p&#xF3;s-estruturalistas.]]</li></ul><h2 id="8-aceite-das-autoridades-competentes">8. Aceite das autoridades competentes</h2><p>[[Artigos acad&#xEA;micos s&#xE3;o feitos para serem publicados e, portanto, &#xE9; importante identificar desde logo qual &#xE9; a revista pretendida. Propostas de interven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o se destinam a serem publicadas, mas a serem executadas, o que dispensa a indica&#xE7;&#xE3;o de um meio espec&#xED;fico de publica&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Por&#xE9;m, como a utilidade delas e o seu potencial impacto pr&#xE1;tico, somente &#xE9; razo&#xE1;vel fazer uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o em institui&#xE7;&#xF5;es que reconhecem a exist&#xEA;ncia da situa&#xE7;&#xE3;o-problema e que demonstram interesse no desenvolvimento de planos de interven&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Esse aceite &#xE9; uma esp&#xE9;cie de patroc&#xED;nio, em que autoridades competentes mostram compartilhar das preocupa&#xE7;&#xF5;es que movem o trabalho e indicam a exist&#xEA;ncia de abertura para, no m&#xED;nimo, avaliar a possibilidade da execu&#xE7;&#xE3;o da proposta.]]</p><h2 id="9-cronograma">9. Cronograma</h2><p>[[O cronograma &#xE9; parte do planejamento necess&#xE1;ria para que o pesquisador consiga garantir que o trabalho necess&#xE1;rio caiba nos prazos dispon&#xED;veis e tamb&#xE9;m para que estabele&#xE7;a metas temporais.</p><p>Uma forma t&#xED;pica de fazer o cronograma &#xE9; fazer uma tabela em que o tempo constitua as colunas (medido em meses, trimestres ou semestres, a depender do prazo) e cada linha seja um dos objetivos (incluindo tamb&#xE9;m pesquisas explorat&#xF3;rias, quando necess&#xE1;rio, e reda&#xE7;&#xE3;o do texto final). Voc&#xEA; pode chegar a resultados como:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/02/image.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="1454" height="601" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2021/02/image.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w1000/2021/02/image.png 1000w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/02/image.png 1454w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>http://metodologiadapesquisa.blogspot.com/2010/10/elaboracao-do-cronograma.html</figcaption></figure><p>Nesse exemplo, usam-se cores na tabela. Em outros, marca-se com um &apos;x&apos; os per&#xED;odos em que se planeja realizar cada atividade, lembrando que v&#xE1;rias atividades podem ser realizadas concomitantemente. Um cronograma linear com objetivos sucessivos normalmente n&#xE3;o &#xE9; muito fact&#xED;vel e soa como demasiadamente artificial.</p><p>Nas pesquisas-a&#xE7;&#xE3;o, o cronograma &#xE9; um dos pontos centrais, pois ele precisa deixar bem claro que existe tempo suficiente para realizar todo o ciclo de investiga&#xE7;&#xE3;o-interven&#xE7;&#xE3;o. Se voc&#xEA; pretende fazer uma implementa&#xE7;&#xE3;o, monitoramento e avalia&#xE7;&#xE3;o de certas propostas pr&#xE1;ticas, &#xE9; preciso que voc&#xEA; indique claramente a viabilidade desse tempo no seu cronograma.</p><p>Se os resultados de uma pr&#xE1;tica somente possam ser medidos em prazos mais longos, voc&#xEA; pode ter de limitar a sua pesquisa ao diagn&#xF3;stico e a um relat&#xF3;rio da interven&#xE7;&#xE3;o, mas com a indica&#xE7;&#xE3;o de que n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel realizar o monitoramento de efeitos que somente ocorrer&#xE3;o tempos depois (como o julgamento de um processo). Se a pr&#xF3;pria implementa&#xE7;&#xE3;o das medidas ultrapassar o seu prazo poss&#xED;vel, pode ser necess&#xE1;rio fazer um projeto concentrado apenas no diagn&#xF3;stico. Por esse motivo, o seu cronograma deve trazer uma estimativa realista dos tempos necess&#xE1;rios para:</p><ol><li>Diagn&#xF3;stico;</li><li>Implementa&#xE7;&#xE3;o, se for o caso;</li><li>Monitoramento, especialmente de efeitos futuros;</li><li>Avalia&#xE7;&#xE3;o do impacto.]]</li></ol><h2 id="10-estimativa-dos-recursos-necess-rios">10. Estimativa dos recursos necess&#xE1;rios</h2><p>[[Tanto o planejamento como a execu&#xE7;&#xE3;o das interven&#xE7;&#xF5;es demandam recursos. Embora no momento do projeto n&#xE3;o seja poss&#xED;vel dimensionar com precis&#xE3;o esses recursos (que depender&#xE3;o das propostas efetivamente formuladas), &#xE9; poss&#xED;vel fazer uma estimativa pr&#xE9;via dos recursos necess&#xE1;rios ao diagn&#xF3;stico e &#xE0; formula&#xE7;&#xE3;o da proposta de interven&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Esses recursos podem ser de v&#xE1;rios tipos: material de consumo, insumos de inform&#xE1;tica, softwares, servi&#xE7;os de terceiros, recursos humanos do &#xF3;rg&#xE3;o em que a interven&#xE7;&#xE3;o deve ocorrer. </p><p>Al&#xE9;m de indicar as necessidades materiais que condicionam a viabilidade do projeto, &#xE9; preciso indicar as fontes de financiamento h&#xE1;beis a custear esses recursos. Esse &#xE9; um ponto que precisa ser levado, inclusive, &#xE0; anu&#xEA;ncia das autoridades do &#xF3;rg&#xE3;o, para que seja poss&#xED;vel avaliar a disponibilidade desses recursos e a disposi&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica (ao menos potencial) de aloc&#xE1;-los em uma eventual interven&#xE7;&#xE3;o.]]</p><h2 id="11-refer-ncias">11. Refer&#xEA;ncias</h2><p>[[Neste ponto, devem ser colocadas as refer&#xEA;ncias bibliogr&#xE1;ficas efetivamente utilizadas ao longo do projeto, inclusive na revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Pesquisa-ação: a intervenção como experimento]]></title><description><![CDATA[<h2 id="1-caracter-sticas-da-pesquisa-a-o">1. Caracter&#xED;sticas da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o</h2><h3 id="1-1-a-pesquisa-cient-fica-e-seus-limites">1.1. A pesquisa cient&#xED;fica e seus limites</h3><p>Pesquisas s&#xE3;o tentativas de enfrentar uma <em>lacuna no conhecimento</em>. O &#xED;mpeto de pesquisar costuma nascer da percep&#xE7;&#xE3;o de que o nosso conhecimento sobre determinado tema</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/proposta-de-intervencao/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704c</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Thu, 04 Feb 2021 23:23:51 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2 id="1-caracter-sticas-da-pesquisa-a-o">1. Caracter&#xED;sticas da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o</h2><h3 id="1-1-a-pesquisa-cient-fica-e-seus-limites">1.1. A pesquisa cient&#xED;fica e seus limites</h3><p>Pesquisas s&#xE3;o tentativas de enfrentar uma <em>lacuna no conhecimento</em>. O &#xED;mpeto de pesquisar costuma nascer da percep&#xE7;&#xE3;o de que o nosso conhecimento sobre determinado tema &#xE9; deficiente (e precisa ser aprimorado) ou ao menos incompleto (e precisa ser expandido). Sentimos os limites do nosso conhecimento em v&#xE1;rias situa&#xE7;&#xF5;es:</p><ol><li>quando n&#xE3;o sabemos realizar uma atividade;</li><li>quando n&#xE3;o conseguimos tomar uma decis&#xE3;o porque nos faltam elementos;</li><li>quando tomamos uma decis&#xE3;o com base nos conhecimentos dispon&#xED;veis, mas os resultados divergem das nossas expectativas.</li></ol><p>Essas s&#xE3;o situa&#xE7;&#xF5;es em que a falta de um conhecimento adequado pode ser suprida por meio de uma investiga&#xE7;&#xE3;o cuidadosa do mundo, que chamamos de <em>pesquisa</em>. A pesquisa tem grandes vantagens, pois nos proporciona conhecimentos robustos, que servem como crit&#xE9;rios confi&#xE1;veis (embora nunca perfeitos) para orientar nossas escolhas.</p><p>Mas a pesquisa tem limites tamb&#xE9;m:</p><ol><li>ela &#xE9; uma atividade cara e muitas pesquisas terminam sendo mais custosas do que os benef&#xED;cios que elas podem gerar (ao menos de forma imediata);</li><li>ela &#xE9; uma atividade demorada, e muitas vezes precisamos de oferecer respostas r&#xE1;pidas;</li><li>ela nem sempre &#xE9; poss&#xED;vel, pois muitas vezes desejamos descobrir padr&#xF5;es cuja percep&#xE7;&#xE3;o demanda pesquisas anteriores, que n&#xE3;o foram realizadas.</li></ol><p>Esses limites da ci&#xEA;ncia fazem com que v&#xE1;rias atividades humanas sejam realizadas de modo mais efetivo por meio de abordagens n&#xE3;o-cient&#xED;ficas. Esse &#xE9; o caso dos saberes t&#xE9;cnicos, em que s&#xE3;o aplicados conhecimentos que foram sedimentados de maneira consuetudin&#xE1;ria. Esse longo processo de sedimenta&#xE7;&#xE3;o &#xE9; normalmente capaz de selecionar formas de atua&#xE7;&#xE3;o efetivas, que s&#xE3;o estabilizadas por meio de sua inser&#xE7;&#xE3;o em um conhecimento tradicional, transmitido de gera&#xE7;&#xE3;o em gera&#xE7;&#xE3;o.</p><h3 id="1-2-a-decis-o-t-cnica-baseada-em-evid-ncias">1.2 A decis&#xE3;o t&#xE9;cnica baseada em evid&#xEA;ncias</h3><p>A tradi&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; cient&#xED;fica, pois n&#xE3;o decorre de pesquisa. O que a forma &#xE9; um outro mecanismo de sele&#xE7;&#xE3;o: certas ideias s&#xE3;o formuladas, algumas delas s&#xE3;o mantidas ao longo do tempo, outras s&#xE3;o revistas. N&#xE3;o se trata, &#xE9; claro, da varia&#xE7;&#xE3;o cega da sele&#xE7;&#xE3;o natural, pois o desenvolvimento da cultura n&#xE3;o se d&#xE1; por muta&#xE7;&#xF5;es aleat&#xF3;rias, e sim por meio de propostas intencionais de rever certas posi&#xE7;&#xF5;es ou reinterpret&#xE1;-las. A tradi&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o procede da pesquisa, de um teste controlado de hip&#xF3;teses nem da utiliza&#xE7;&#xE3;o dos mecanismos estat&#xED;sticos da ci&#xEA;ncia contempor&#xE2;nea.</p><p>Os mecanismos de formula&#xE7;&#xE3;o de uma tradi&#xE7;&#xE3;o s&#xE3;o mais lentos e ela gera uma unidade mais est&#xE1;vel, visto que a tradi&#xE7;&#xE3;o dominante &#xE9; aquela que assim &#xE9; reconhecida pelas pessoas. A dogm&#xE1;tica jur&#xED;dica &#xE9; um desses discursos tradicionais, que s&#xE3;o renovados em um ritmo lento, por propostas de revis&#xE3;o e por exerc&#xED;cios de reinterpreta&#xE7;&#xE3;o. Entre os discursos t&#xE9;cnicos baseados na dogm&#xE1;tica tradicional e os discursos t&#xE9;cnicos baseados na ci&#xEA;ncia, parece existir um meio-termo: os discursos t&#xE9;cnicos <em>baseados em evid&#xEA;ncias</em>.</p><p>Estes s&#xE3;o discursos t&#xE9;cnicos que operam dentro de uma tradi&#xE7;&#xE3;o cultural, mas que s&#xE3;o comprometidos com <em>implementar</em> os conhecimentos cient&#xED;ficos. Os t&#xE9;cnicos n&#xE3;o s&#xE3;o pesquisadores, pois eles n&#xE3;o s&#xE3;o produtores de novos conhecimentos. Mas eles podem assumir um compromisso de tomar decis&#xF5;es que dialoguem com o conhecimento produzido pela pesquisa cient&#xED;fica. Esse &#xE9; um movimento que ganhou corpo na medicina no final do s&#xE9;culo XX e que, ao longo do s&#xE9;c. XXI, expandiu-se para outras &#xE1;reas de conhecimento t&#xE9;cnico, como a administra&#xE7;&#xE3;o e a gest&#xE3;o p&#xFA;blica.</p><p>Segundo Pfeffer e Sutton (<a href="https://hbr.org/2006/01/evidence-based-management?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2006</a>), cerca de 15% das decis&#xF5;es m&#xE9;dicas eram tomadas com base em evid&#xEA;ncias, sendo que a maior parte dos diagn&#xF3;sticos e tratamentos eram baseados no conhecimento tradicional que os m&#xE9;dicos aprenderam na faculdade, mas que n&#xE3;o s&#xE3;o baseados em pesquisas cient&#xED;ficas. Isso n&#xE3;o &#xE9; simplesmente uma cr&#xED;tica &#xE0; pr&#xE1;tica m&#xE9;dica, mas ao conhecimento m&#xE9;dico, que em grande medida repete padr&#xF5;es tradicionais que repetidamente se mostram incorretos.</p><p>Boa parte do debate atual sobre <a href="http://www.blog.saude.gov.br/index.php/promocao-da-saude/53079-voce-sabe-o-que-e-violencia-obstetrica?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">viol&#xEA;ncia obst&#xE9;trica</a>, por exemplo, se relaciona &#xE0; manuten&#xE7;&#xE3;o de pr&#xE1;ticas m&#xE9;dicas obsoletas, interven&#xE7;&#xF5;es desnecess&#xE1;rias e praticadas sem o consentimento da mulher. Essas s&#xE3;o condutas que n&#xE3;o t&#xEA;m base em evid&#xEA;ncias cient&#xED;ficas, mas que s&#xE3;o baseadas em uma tradi&#xE7;&#xE3;o m&#xE9;dica que n&#xE3;o respeita a autonomia das mulheres e que repetidas vezes se mostram incompat&#xED;veis com os princ&#xED;pios contempor&#xE2;neos de liberdade e dignidade.</p><p>Padr&#xF5;es tradicionais estratificados podem ser &#xFA;teis, quando n&#xE3;o existem outras diretrizes dispon&#xED;veis e quando a sua pr&#xE1;tica &#xE9; compat&#xED;vel com os valores contempor&#xE2;neos. Por&#xE9;m, essas pr&#xE1;ticas devem ser revistas quando temos evid&#xEA;ncias de que elas s&#xE3;o ineficazes (o que &#xE9; uma quest&#xE3;o t&#xE9;cnico-cient&#xED;fica) ou quando elas s&#xE3;o incompat&#xED;veis com o sistema constitucional (o que &#xE9; uma quest&#xE3;o t&#xE9;cnico-jur&#xED;dica).</p><p>Esse princ&#xED;pio de atuar com base em evid&#xEA;ncias encontra v&#xE1;rios limites pr&#xE1;ticos, visto que boa parte do conhecimento m&#xE9;dico, administrativo ou jur&#xED;dico n&#xE3;o foi submetido ainda ao crivo de uma pesquisa cient&#xED;fica rigorosa, que seja capaz de reavaliar as op&#xE7;&#xF5;es tradicionais. Nos campos t&#xE9;cnicos, a intui&#xE7;&#xE3;o bem treinada de um t&#xE9;cnico experiente continua sendo a fonte mais segura de decis&#xF5;es. Por&#xE9;m, o crescente n&#xFA;mero de investiga&#xE7;&#xF5;es cient&#xED;ficas via criando cada vez mais espa&#xE7;os em que a exist&#xEA;ncia de um conhecimento mais seguro deveria possibilitar a substitui&#xE7;&#xE3;o das abordagens intuitivas e tradicionais por decis&#xF5;es que levem em conta as pesquisas cient&#xED;ficas mais modernas.</p><p>A ci&#xEA;ncia fornece o conhecimento te&#xF3;rico s&#xF3;lido, mas a incorpora&#xE7;&#xE3;o desse conhecimento &#xE0;s pr&#xE1;ticas sociais depende do desenvolvimento de estrat&#xE9;gias adequadas de a&#xE7;&#xE3;o. Nem sempre h&#xE1; conhecimento cient&#xED;fico dispon&#xED;vel, mas, quando ele existe, torna-se importante criar protocolos por meio dos quais ele possa ser incorporado &#xE0;s pr&#xE1;ticas sociais existentes.</p><p>Essa transi&#xE7;&#xE3;o do conhecimento cient&#xED;fico para as pr&#xE1;ticas administrativas n&#xE3;o &#xE9; feito pela ci&#xEA;ncia, mas por meio de estrat&#xE9;gias de gest&#xE3;o. Por esse motivo, torna-se t&#xE3;o importante a elabora&#xE7;&#xE3;o de <em>planos de interven&#xE7;&#xE3;o</em> que sejam capazes de implementar as conclus&#xF5;es atingidas pelas pesquisas te&#xF3;ricas, dando a elas uma aplica&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica.</p><h3 id="1-3-o-ciclo-da-investiga-o-a-o">1.3 O ciclo da investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o</h3><p>Al&#xE9;m de incorporar os resultados da pesquisa cient&#xED;fica, espera-se que os gestores contempor&#xE2;neos desenvolvam uma reflexividade sobre suas pr&#xF3;prias atividades, de modo a possibilitar seu aprimoramento ao longo do tempo. David Tripp (<a href="https://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a09v31n3.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2005</a>) chama de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o esse tipo de abordagem no qual &quot;se aprimora a pr&#xE1;tica pela oscila&#xE7;&#xE3;o sistem&#xE1;tica entre agir no campo da pr&#xE1;tica e investigar a respeito dela&quot;.</p><p>N&#xE3;o se trata propriamente da pesquisa acad&#xEA;mica, que tem uma estrutura pr&#xF3;pria de produ&#xE7;&#xE3;o de conhecimentos, mas de uma outra forma de abordagem, que opera por meio de um ciclo:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/02/investiga--o-a--o.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="604" height="512" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2021/02/investiga--o-a--o.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2021/02/investiga--o-a--o.png 604w"></figure><p>O plano de interven&#xE7;&#xE3;o corresponde ao momento <em>planejar</em>. Esse plano deve ser uma decorr&#xEA;ncia de uma avalia&#xE7;&#xE3;o dos resultados da a&#xE7;&#xE3;o. A inadequa&#xE7;&#xE3;o dos resultados &#xE9; o que motiva a produ&#xE7;&#xE3;o de um <em>projeto de interven&#xE7;&#xE3;o</em>, que &#xA0;em um plano execut&#xE1;vel. A execu&#xE7;&#xE3;o desse plano &#xE9; a pr&#xF3;pria interven&#xE7;&#xE3;o, que implanta a melhora planejada, e cujos resultados devem ser devidamente monitorados, para que seja poss&#xED;vel avali&#xE1;-los e, com isso, permitir um novo ciclo, voltado a suplantar as defici&#xEA;ncias diagnosticadas.</p><p>A estrutura da avalia&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o envolve a multiplica&#xE7;&#xE3;o desses ciclos de aprimoramento. Por&#xE9;m, cada um desses elementos pode ser objeto de uma atividade diferente:</p><ol><li>monitorar os resultados (que corresponde a uma investiga&#xE7;&#xE3;o descritiva, voltada a descrever um fen&#xF4;meno),</li><li>avaliar os resultados (que corresponde a uma investiga&#xE7;&#xE3;o conclusiva, voltada a aplicar uma metodologia de avalia&#xE7;&#xE3;o),</li><li>planejar uma melhora pr&#xE1;tica (que n&#xE3;o &#xE9; exatamente uma pesquisa, mas um plano de interven&#xE7;&#xE3;o), e a</li><li>implantar as interven&#xE7;&#xF5;es planejadas.</li></ol><p>Quando tratamos de um plano de interven&#xE7;&#xE3;o, ele pode envolver os quatro elementos acima descritos, mas esse ciclo completo costuma ser demasiadamente longo para um TCC, visto que o tempo de implementa&#xE7;&#xE3;o, monitoramento e avalia&#xE7;&#xE3;o tende a ser bem maior do que o tempo dispon&#xED;vel. Mesmo em um mestrado &#xE9; pouco vi&#xE1;vel realizar todo esse ciclo. Por esse motivo, em cursos de especializa&#xE7;&#xE3;o, sugerimos que seja feito apenas o diagn&#xF3;stico, inclusive porque essa fase de diagn&#xF3;stico se aproxima mais de uma pesquisa e porque ela n&#xE3;o depende de um patroc&#xED;nio administrativo.</p><p>Tripp sugere que chamemos de <em>pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o</em> esse uso de t&#xE9;cnicas consagradas de pesquisa para produzir a parte investigativa de uma investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o (que &#xE9; uma express&#xE3;o mais ampla, designando tamb&#xE9;m processos que s&#xE3;o mais intuitivos e n&#xE3;o se valem de metodologias rigorosas de levantamento e an&#xE1;lise de dados). A pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o seria a utiliza&#xE7;&#xE3;o de investiga&#xE7;&#xF5;es cient&#xED;ficas dentro do contexto de uma investiga&#xE7;&#xE3;o a&#xE7;&#xE3;o. Nas palavras de Tripp, &#x201C;pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o &#xE9; uma forma de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o que utiliza t&#xE9;cnicas de pesquisa consagradas para informar a a&#xE7;&#xE3;o que se decide tomar para melhorar a pr&#xE1;tica&#x201D;.</p><p>Essa incorpora&#xE7;&#xE3;o das abordagens cient&#xED;ficas como m&#xE9;todos de aprimoramento de gest&#xE3;o permite o desenvolvimento de uma gest&#xE3;o baseada em evid&#xEA;ncias. Por&#xE9;m, n&#xE3;o se trata exatamente da pesquisa cient&#xED;fica pois o objetivo n&#xE3;o &#xE9; contribuir para a produ&#xE7;&#xE3;o de um conhecimento generaliz&#xE1;vel para outras situa&#xE7;&#xF5;es, mas produzir um conhecimento centrado na situa&#xE7;&#xE3;o problema, voltado especificamente a compreend&#xEA;-la para poder aprimor&#xE1;-la.</p><h3 id="1-4-verossimilhan-a-e-efici-ncia">1.4 Verossimilhan&#xE7;a e efici&#xEA;ncia</h3><p>A pesquisa cient&#xED;fica exige uma aloca&#xE7;&#xE3;o maior de recursos e um disp&#xEA;ndio de tempo que somente se justificam quando o resultado &#xE9; escal&#xE1;vel: ele n&#xE3;o se volta a resolver uma situa&#xE7;&#xE3;o concreta, mas uma gama de situa&#xE7;&#xF5;es. J&#xE1; os processos de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o se concentram no aprimoramento de certas din&#xE2;micas de trabalho, de certas estrat&#xE9;gias administrativas, o que exige um grau menor de certeza, visto que o objetivo &#xE9; gerar resultados &#xFA;teis para uma pr&#xE1;tica organizacional particular.</p><p>Trata-se de formular interven&#xE7;&#xF5;es meramente veross&#xED;meis, a partir da combina&#xE7;&#xE3;o do conhecimento tradicional existente, das perspectivas dos agentes envolvidos e do conhecimento cient&#xED;fico dispon&#xED;vel. Essa plausibilidade do resultado n&#xE3;o ser&#xE1; testada por meio de um m&#xE9;todo investigativo, mas dever&#xE1; ser&#xE1; testada por meio de um projeto piloto (ou prot&#xF3;tipo), cujos custos sejam razo&#xE1;veis e que ofere&#xE7;a resultados mensur&#xE1;veis e pass&#xED;veis de avalia&#xE7;&#xE3;o.</p><p>O ciclo de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o deve gerar aprimoramentos mais r&#xE1;pidos e mais baratos do que o desenvolvimento de m&#xFA;ltiplas pesquisas cient&#xED;ficas, voltadas a testar exaustivamente as hip&#xF3;teses levantadas e mais c&#xE9;ticas com rela&#xE7;&#xE3;o aos conhecimentos tradicionais e &#xE0;s intui&#xE7;&#xF5;es dos agentes mais experientes. Essa vincula&#xE7;&#xE3;o com a tradi&#xE7;&#xE3;o tende a gerar resultados mais conservadores e promover altera&#xE7;&#xF5;es mais discretas nas pr&#xE1;ticas administrativas do que uma pesquisa cient&#xED;fica inovadora, que coloque em xeque os pressupostos do campo. Por&#xE9;m, como os ciclos s&#xE3;o mais r&#xE1;pidos, &#xE9; poss&#xED;vel promover ciclos iterados de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, acumulando mudan&#xE7;as discretas que conduzam a um aprimoramento das pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas e das estrat&#xE9;gias administrativas.</p><p>No fim das contas, a pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o resulta em proposi&#xE7;&#xF5;es que devem ser implementadas e cuja efici&#xEA;ncia ser&#xE1; avaliada na pr&#xE1;tica. Pode ocorrer que as propostas sejam eficientes por motivos bastante diversos dos que os pesquisadores imaginam, mas isso pouco importa. Essa incerteza no diagn&#xF3;stico das causas &#xE9; um problema para a pesquisa cient&#xED;fica, pois compromete a utiliza&#xE7;&#xE3;o desse conhecimento em outras experi&#xEA;ncias. </p><p>Na pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, essa incerteza n&#xE3;o &#xE9; um problema, mas uma caracter&#xED;stica: trata-se de uma heur&#xED;stica de aprimoramento, cujo resultado pr&#xE1;tico &#xE9; mais importante do que a contribui&#xE7;&#xE3;o te&#xF3;rica para o conhecimento. O objetivo &#xE9; buscar a&#xE7;&#xF5;es mais efetivas e n&#xE3;o um conhecimento generaliz&#xE1;vel e, portanto, a verossimilhan&#xE7;a dos diagn&#xF3;sticos &#xE9; suficiente para projetar a&#xE7;&#xF5;es de altera&#xE7;&#xE3;o discreta, apostando em ciclos iterados de aprimoramento.</p><p>Essa &#xE9; uma percep&#xE7;&#xE3;o que acompanhou a pr&#xF3;pria formula&#xE7;&#xE3;o do conceito de pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, que normalmente &#xE9; referido no texto Action Research and Minority Problems, de Kurt Lewin (<a href="https://github.com/AlexandreAraujoCosta/DSD_Biblioteca/blob/main/Kurt%20Lewin%20-%20Action%20Research%20and%20Minority%20Problems.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">1946</a>). Segundo Lewin, os atores pr&#xE1;ticos tinham uma percep&#xE7;&#xE3;o crescente de que :</p><blockquote>&quot;[...] mere diagnosis &#x2014; and surveys are a type of diagnosis &#x2014; does not suffice. In intergroup relations as in other fields of social management the diagnosis has to be compelmented by experimental comparative studies of the effectiveness of various techniques of change.&apos;&apos; (<a href="https://github.com/AlexandreAraujoCosta/DSD_Biblioteca/blob/main/Kurt%20Lewin%20-%20Action%20Research%20and%20Minority%20Problems.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">1946</a>:37)</blockquote><p>Nesse sentido, a pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o oferece um importante mecanismo de coopera&#xE7;&#xE3;o entre pesquisadores e operadores pr&#xE1;ticos, cujos esfor&#xE7;os precisam ser unidos para viabilizar o planejamento e a execu&#xE7;&#xE3;o de interven&#xE7;&#xF5;es.</p><h3 id="1-5-interven-o-ou-proposta-de-interven-o">1.5 Interven&#xE7;&#xE3;o ou proposta de interven&#xE7;&#xE3;o?</h3><p>A pesquisa cient&#xED;fica parte da defini&#xE7;&#xE3;o de um problema, que &#xE9; baseado no estudo e na experi&#xEA;ncia do pesquisador. A formula&#xE7;&#xE3;o do problema permite a fixa&#xE7;&#xE3;o de objetivos claros e a formula&#xE7;&#xE3;o de abordagens capazes de alcan&#xE7;ar esses objetivos. No fim do processo, fazemos uma esp&#xE9;cie de relat&#xF3;rio em que indicamos o problema estudado, os resultados alcan&#xE7;ados pelas nossas estrat&#xE9;gias de abordagem e discutimos quais s&#xE3;o os impactos desses resultados para o campo. Existe, assim, uma distin&#xE7;&#xE3;o clara entre a pesquisa (que &#xE9; o processo) e o relat&#xF3;rio de pesquisa (que &#xE9; o produto apresentado ao final, na forma de artigo, monografia, disserta&#xE7;&#xE3;o ou tese).</p><p>No caso das pesquisas, &#xE9; poss&#xED;vel determinar claramente um projeto de pesquisa, que consiste em um planejamento que deve esclarecer de forma exaustiva o problema e o m&#xE9;todo, bem como o marco te&#xF3;rico, para que seja poss&#xED;vel avaliar se as a&#xE7;&#xF5;es propostas pelo pesquisador tendem a conduzir aos resultados desejados, avalia&#xE7;&#xE3;o essa que &#xE9; feita pelo orientador e, em certos casos, deve ser ratificada por uma banca de qualifica&#xE7;&#xE3;o.</p><p>No caso da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, essa diferen&#xE7;a entre projeto e produto n&#xE3;o &#xE9; t&#xE3;o clara, porque a formula&#xE7;&#xE3;o de propostas de a&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o pode ser reduzida &#xE0; aplica&#xE7;&#xE3;o de um m&#xE9;todo predefinido. O car&#xE1;ter propositivo precisa envolver escolhas t&#xE9;cnicas que n&#xE3;o s&#xE3;o redut&#xED;veis a um m&#xE9;todo. Essa caracter&#xED;stica define tanto o ponto fraco da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o (porque as intui&#xE7;&#xF5;es podem estar erradas), como sua vantagem principal (viabilizar ciclos de itera&#xE7;&#xE3;o mais r&#xE1;pidos, em que a inefici&#xEA;ncia seja diagnosticada e novas propostas possam emergir).</p><p>Essa caracter&#xED;stica tem impactos no planejamento da interven&#xE7;&#xE3;o, pois n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel definir, a priori, os m&#xE9;todos que ser&#xE3;o utilizados para formular a proposta. Do ponto de vista cient&#xED;fico, a formula&#xE7;&#xE3;o seria um salto no vazio, orientado pela intui&#xE7;&#xE3;o bem informada do pesquisador. Frente a essa situa&#xE7;&#xE3;o, o que &#xE9; poss&#xED;vel planejar?</p><p>O que se planeja &#xE9; a interven&#xE7;&#xE3;o, que serve como m&#xE9;todo para testar uma esp&#xE9;cie de hip&#xF3;tese: que a interven&#xE7;&#xE3;o projetada teria impactos positivos na situa&#xE7;&#xE3;o-problema. A interven&#xE7;&#xE3;o funciona como uma esp&#xE9;cie de experimento: uma altera&#xE7;&#xE3;o controlada da realidade, que tem como fun&#xE7;&#xE3;o avaliar a hip&#xF3;tese de trabalho (que, no caso, &#xE9; a de que a interven&#xE7;&#xE3;o gera aprimoramento da pr&#xE1;tica em que a transforma&#xE7;&#xE3;o &#xE9; implementada). </p><p>Os exemplos iniciais de pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, discutidos por Kurt Lewin (<a href="https://github.com/AlexandreAraujoCosta/DSD_Biblioteca/blob/main/Kurt%20Lewin%20-%20Action%20Research%20and%20Minority%20Problems.pdf?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">1946</a>), j&#xE1; tinham essa dimens&#xE3;o: havia uma pr&#xE1;tica realizada de uma determinada maneira e os pesquisadores introduziram duas variantes, o que gerou dois grupos com caracter&#xED;sticas novas, e a manuten&#xE7;&#xE3;o de um grupo de controle (em que n&#xE3;o houve qualquer mudan&#xE7;a).</p><p>Essas caracter&#xED;sticas indicam que, na pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, as <em>estrat&#xE9;gias de interven&#xE7;&#xE3;o</em> ocupam o lugar das <em>estrat&#xE9;gias de abordagem</em>, e sua fun&#xE7;&#xE3;o &#xE9; gerar altera&#xE7;&#xF5;es que permitam avaliar se as transforma&#xE7;&#xF5;es propostas s&#xE3;o capazes de aprimorar uma pr&#xE1;tica social. Nesse contexto, os m&#xE9;todos de pesquisa costumam entrar especialmente em dois momentos: no diagn&#xF3;stico e na avalia&#xE7;&#xE3;o. </p><p>Para iniciar o processo, &#xE9; necess&#xE1;rio haver um diagn&#xF3;stico preliminar, que acople:</p><ol><li>uma descri&#xE7;&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o-problema;</li><li>uma descri&#xE7;&#xE3;o de problemas (defici&#xEA;ncias ou insufici&#xEA;ncias) a serem enfrentados;</li><li>um diagn&#xF3;stico preliminar, que aponte poss&#xED;veis causas dos problemas.</li></ol><p>Sem o diagn&#xF3;stico preliminar, n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel iniciar o processo de desenvolvimento de uma interven&#xE7;&#xE3;o. Na pesquisa cient&#xED;fica, tamb&#xE9;m &#xE9; imposs&#xED;vel desenhar um m&#xE9;todo sem uma defini&#xE7;&#xE3;o clara do problema (que tamb&#xE9;m envolve uma descri&#xE7;&#xE3;o dos fatos e o diagn&#xF3;stico de uma lacuna). Em ambos os casos, a inexist&#xEA;ncia de um diagn&#xF3;stico claro indica a necessidade de uma <em>pesquisa preliminar</em>, que ofere&#xE7;a esse diagn&#xF3;stico.</p><p>Em ambos os casos, tamb&#xE9;m, pode ocorrer que esse diagn&#xF3;stico preliminar se mostre um desafio t&#xE3;o complexo que seja necess&#xE1;rio realizar previamente uma <em>pesquisa descritiva</em>, voltada especificamente a realizar uma descri&#xE7;&#xE3;o mais precisa dos fatos. Nessa situa&#xE7;&#xE3;o, pode ser que o desenvolvimento de uma pesquisa a&#xE7;&#xE3;o tenha como requisito uma pesquisa descritiva, que segue os par&#xE2;metros da pesquisa cient&#xED;fica: defini&#xE7;&#xE3;o do objeto pesquisado, dos objetivos a serem alcan&#xE7;ado e da abordagem que deve conduzir &#xE0; uma descri&#xE7;&#xE3;o adequada da realidade.</p><p>No caso espec&#xED;fico da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, a descri&#xE7;&#xE3;o da realidade deve ser combinada com um diagn&#xF3;stico, visto que &#xE9; preciso identificar as defici&#xEA;ncias e definir algumas causas veross&#xED;meis. Por isso, a pesquisa pr&#xE9;via n&#xE3;o deve ser meramente descritiva, mas deve envolver tamb&#xE9;m a proposi&#xE7;&#xE3;o de um diagn&#xF3;stico, que n&#xE3;o &#xE9; mais preliminar porque ele &#xE9; suficientemente s&#xF3;lido para que possa ser utilizado para a formula&#xE7;&#xE3;o efetiva de propostas de interven&#xE7;&#xE3;o. Assim, a depender da complexidade necess&#xE1;ria da investiga&#xE7;&#xE3;o voltada ao diagn&#xF3;stico, a pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o pode gerar produtos diferentes, relacionados aos elementos do ciclo de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o.</p><h4 id="1-5-1-diagn-stico">1.5.1 Diagn&#xF3;stico</h4><p>Pode focar-se no diagn&#xF3;stico, caso em que ela deve definir a situa&#xE7;&#xE3;o-problema e uma estrat&#xE9;gia de abordagem capaz de se utilizar dos instrumentos de pesquisa (como entrevistas, grupo focal e question&#xE1;rios) para desenvolver um diagn&#xF3;stico. H&#xE1; muitos casos em que o diagn&#xF3;stico &#xE9; muito desafiador: existe a intui&#xE7;&#xE3;o de que h&#xE1; problemas, mas n&#xE3;o existe uma descri&#xE7;&#xE3;o suficientemente precisa da atividade para possibilitar sequer a formula&#xE7;&#xE3;o de um diagn&#xF3;stico das causas.</p><p>Nesse caso, o tempo dispon&#xED;vel para o TCC tende a ser totalmente consumido no esfor&#xE7;o de realizar uma pesquisa descritiva (ou at&#xE9; mesmo explorat&#xF3;ria), voltada a descrever adequadamente as atividades praticadas. Nessa situa&#xE7;&#xE3;o, n&#xE3;o existe a possibilidade de desenvolver um plano de interven&#xE7;&#xE3;o amadurecido, mas apenas sugerir linhas de a&#xE7;&#xE3;o poss&#xED;veis, decorrentes do diagn&#xF3;stico.</p><p>Por exemplo, n&#xE3;o adianta se dedicar a fazer um plano de interven&#xE7;&#xE3;o em uma pol&#xED;tica de <em>compliance</em> se n&#xE3;o existe uma descri&#xE7;&#xE3;o pr&#xE9;via adequada da situa&#xE7;&#xE3;o atual dessa quest&#xE3;o dentro do &#xF3;rg&#xE3;o, sobre os instrumentos normativos, sobre as orienta&#xE7;&#xF5;es dispon&#xED;veis. Ou pode ocorrer de haver uma descri&#xE7;&#xE3;o razoavelmente clara da situa&#xE7;&#xE3;o, mas que n&#xE3;o &#xE9; suficiente para projetar causas com a plausibilidade necess&#xE1;ria.</p><p>Em um caso como esse, seria inadequado formular propostas antes que fosse realizada uma pesquisa-diagn&#xF3;stico, que explorasse s diversas facetas da situa&#xE7;&#xE3;o e chegasse a um conjunto plaus&#xED;vel de causas. Para essa finalidade, costumam ser &#xFA;teis as estrat&#xE9;gias qualitativas, tais como grupos focais, entrevistas e observa&#xE7;&#xE3;o direta ou observa&#xE7;&#xE3;o participante, que busquem n&#xE3;o apenas descrever a situa&#xE7;&#xE3;o-problema, mas tamb&#xE9;m levantar as percep&#xE7;&#xF5;es dos atores envolvidos acerca das defici&#xEA;ncias existentes na pr&#xE1;tica analisada e de suas poss&#xED;veis causas. Tamb&#xE9;m &#xE9; poss&#xED;vel utilizar abordagens de diagn&#xF3;stico e decis&#xE3;o, que estruturam protocolos espec&#xED;ficos de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, como &#xE9; o caso do <em><a href="https://www.ibm.com/br-pt/services/business/design-thinking?p1=Search&amp;p4=43700052743588597&amp;p5=e&amp;cm_mmc=Search_Google-_-1S_1S-_-LA_BR-_-modelo+de+design+thinking_e&amp;cm_mmca7=71700000065387775&amp;cm_mmca8=kwd-824638932182&amp;cm_mmca9=Cj0KCQiA0-6ABhDMARIsAFVdQv85fhhbLDssOHJDVnYQGadAb_L7raip8iA0Xv6HmdkAFShFTDQs-_8aAgEyEALw_wcB&amp;cm_mmca10=428259716787&amp;cm_mmca11=e&amp;gclid=Cj0KCQiA0-6ABhDMARIsAFVdQv85fhhbLDssOHJDVnYQGadAb_L7raip8iA0Xv6HmdkAFShFTDQs-_8aAgEyEALw_wcB&amp;gclsrc=aw.ds&amp;ref=metodologia.agu.arcos.org.br">design thinking</a></em>.</p><p>O resultado desse esfor&#xE7;o deve ser o devido dimensionamento da situa&#xE7;&#xE3;o e uma identifica&#xE7;&#xE3;o de potenciais causas, de tal forma que a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o possa ser realizada em um trabalho futuro, seja pelo mesmo pesquisador ou por outras pessoas. Caso o esfor&#xE7;o exigido por essa investiga&#xE7;&#xE3;o seja muito grande, ser&#xE1; invi&#xE1;vel avan&#xE7;ar no plano de interven&#xE7;&#xE3;o dentro do TCC, chegando-se no m&#xE1;ximo a delinear certos poss&#xED;veis cursos de a&#xE7;&#xE3;o, mas sem produzir um plano execut&#xE1;vel, visto que n&#xE3;o vale a pena o trabalho exaustivo de formular plano de interven&#xE7;&#xE3;o quando n&#xE3;o se tem clareza suficiente dos objetivos a serem buscados, que s&#xE3;o definidos pelas causas identificadas para o problema.</p><h4 id="1-5-2-proposta-de-interven-o">1.5.2 Proposta de interven&#xE7;&#xE3;o</h4><p>Pode aliar o diagn&#xF3;stico a uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, o que pode ocorrer nos casos em que j&#xE1; exista um diagn&#xF3;stico s&#xF3;lido ou em situa&#xE7;&#xF5;es em que os prazos do curso sejam compat&#xED;veis com &#xA0;o desenvolvimento do diagn&#xF3;stico. No caso das especializa&#xE7;&#xF5;es, &#xE9; prov&#xE1;vel que haja tempo suficiente para desenvolver uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o mais espec&#xED;fica, que constitua um plano execut&#xE1;vel, com indica&#xE7;&#xE3;o precisa do modo pelo qual o plano deve ser implementado, monitorado e avaliado. Nessa situa&#xE7;&#xE3;o, espera-se que o plano seja o de um plano-piloto, que sirva como ferramenta para analisar as potencialidades da proposta.</p><h4 id="1-5-2-relat-rio-de-interven-o">1.5.2 Relat&#xF3;rio de Interven&#xE7;&#xE3;o</h4><p>Havendo tempo dispon&#xED;vel, &#xE9; desej&#xE1;vel que seja feita a implanta&#xE7;&#xE3;o devidamente monitorada do plano-piloto, o que pode gerar dados suficientes para uma avalia&#xE7;&#xE3;o dos resultados. Somente nesse ponto &#xE9; que se fecha o ciclo da investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, visto que a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o &#xE9; implementada de modo controlado, o que permite avaliar a sua efetividade, abrindo espa&#xE7;o para um novo ciclo de reflex&#xF5;es voltadas ao aprimoramento constante da atividade.</p><p>Nesse caso, o produto a ser apresentado n&#xE3;o &#xE9; a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, mas o <em>Relat&#xF3;rio de interven&#xE7;&#xE3;o</em>, que ter&#xE1; uma estrutura pr&#xF3;xima dos trabalhos cient&#xED;ficos, com a defini&#xE7;&#xE3;o do problema (que &#xE9; o n&#xFA;cleo da introdu&#xE7;&#xE3;o), das estrat&#xE9;gias de abordagem (que comp&#xF5;em a metodologia), da descri&#xE7;&#xE3;o dos resultados (com os dados do monitoramento) e de uma discuss&#xE3;o (com os resultados da avalia&#xE7;&#xE3;o)</p><p>Esse ciclo completo, por&#xE9;m, tende a ser incompat&#xED;vel com os prazos de uma especializa&#xE7;&#xE3;o, sendo mais vi&#xE1;vel dentro de um mestrado (especialmente, de um mestrado profissional, que tende a ser mais aberto &#xE0; realiza&#xE7;&#xE3;o de uma investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o).</p><h3 id="1-6-o-planejamento-da-pesquisa-a-o">1.6 O planejamento da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o</h3><p>No planejamento da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o, um dos elementos centrais &#xE9; o cronograma, pois a quest&#xE3;o do tempo &#xE9; crucial para a defini&#xE7;&#xE3;o da amplitude das atividades que ser&#xE3;o realizadas.</p><p>Uma vez definida a situa&#xE7;&#xE3;o problema, &#xE9; preciso avaliar o tempo necess&#xE1;rio para fazer um diagn&#xF3;stico preciso, o que pode limitar o produto a ser apresentado a este diagn&#xF3;stico, o que abre espa&#xE7;o apenas para oferecer algumas diretrizes gerais no sentido de definir potenciais interven&#xE7;&#xF5;es. Nesse caso, voc&#xEA; pode chamar o seu planejamento de <em>projeto de diagn&#xF3;stico</em>. A vantagem dessa redu&#xE7;&#xE3;o &#xE9; que voc&#xEA; pode criar abordagens complexas de diagn&#xF3;stico, combinando m&#xE9;todos diferentes, cujos resultados s&#xE3;o fundamentais para um planejamento adequado das a&#xE7;&#xF5;es.</p><p>Se houver tempo dispon&#xED;vel, voc&#xEA; pode aloc&#xE1;-lo na produ&#xE7;&#xE3;o de uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o propriamente dita. Nesse caso, entra-se em uma zona em que a diferen&#xE7;a entre o <em>plano</em> e o <em>produto</em> fica pouco definida. O que voc&#xEA; far&#xE1; na etapa de planejamento &#xE9; uma esp&#xE9;cie de <em>projeto de proposta de interven&#xE7;&#xE3;o</em>, mas que tem basicamente a mesma estrutura da proposta final.</p><p>Isso indica que essa rela&#xE7;&#xE3;o de plano e produto deve ser pensada como uma continuidade: voc&#xEA; parte de uma <em>proposta preliminar</em> e deve indicar o itiner&#xE1;rio que voc&#xEA; pretende seguir para definir uma proposta execut&#xE1;vel. Nesse caso, o seu desafio &#xE9; desenvolver um projeto piloto eficiente, capaz de definir os elementos da interven&#xE7;&#xE3;o (com uma defini&#xE7;&#xE3;o clara de metas, de recursos e de cronograma), bem como os processos de monitoramento e de avalia&#xE7;&#xE3;o. Essa &#xE9; a parte do trabalho que &#xE9; mais t&#xE9;cnica do que cient&#xED;fica, de tal forma que o produto final &#xE9; um projeto que ser&#xE1; avaliado em sua viabilidade, e n&#xE3;o de uma conclus&#xE3;o que ser&#xE1; avaliada em termos de sua robustez.</p><p>Apesar de ser a parte mais t&#xE9;cnica, trata-se de uma atividade profundamente ligada &#xE0;s abordagens cient&#xED;ficas, dado que &#xE9; preciso construir um piloto que ofere&#xE7;a resultados compar&#xE1;veis: n&#xE3;o basta que o resultado seja uma melhoria dentro de alguma m&#xE9;trica, mas &#xE9; preciso ter seguran&#xE7;a razo&#xE1;vel em afirmar que a melhoria decorre da interven&#xE7;&#xE3;o (e n&#xE3;o de outras varia&#xE7;&#xF5;es ambientais). Por isso, &#xE9; desej&#xE1;vel que voc&#xEA; defina um piloto e tamb&#xE9;m alguma esp&#xE9;cie de grupo de controle, que deve ser monitorado para viabilizar uma compara&#xE7;&#xE3;o dos resultados.</p><p>Caso voc&#xEA; consiga encaixar no seu cronograma tanto o planejamento quanto a execu&#xE7;&#xE3;o da proposta, o seu planejamento n&#xE3;o deve ser apenas uma proposta preliminar, mas precisa ser uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o propriamente dita. Ocorre que a apresenta&#xE7;&#xE3;o dessa proposta completa no in&#xED;cio do processo &#xE9; algo muito dif&#xED;cil, que s&#xF3; &#xE9; plaus&#xED;vel nos casos em que h&#xE1; um diagn&#xF3;stico previamente realizado em uma pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o anterior ou em um ciclo anterior de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, ou quando se trata de propostas bastante pontuais, cujo diagn&#xF3;stico e planejamento sejam pouco complexos e possam ser realizados por meio de uma investiga&#xE7;&#xE3;o preliminar.</p><p>Caso voc&#xEA; tenha a ambi&#xE7;&#xE3;o de realizar o ciclo completo da investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, chegando a um Relat&#xF3;rio de Interven&#xE7;&#xE3;o (e n&#xE3;o apenas a uma proposta execut&#xE1;vel), &#xE9; bem poss&#xED;vel que voc&#xEA; tenha de estabelecer um cronograma com dois pontos de planejamento: uma <em>proposta preliminar</em>, que apresente as estrat&#xE9;gias voltadas a produzir o diagn&#xF3;stico e um planejamento definitivo, uma <em>proposta de interven&#xE7;&#xE3;o</em> propriamente dita, que parta do diagn&#xF3;stico e estabele&#xE7;a as estrat&#xE9;gias &#xA0;da interven&#xE7;&#xE3;o que voc&#xEA; pretende implementar.</p><h2 id="2-o-car-ter-dial-gico-da-pesquisa-a-o">2. O car&#xE1;ter dial&#xF3;gico da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o</h2><h3 id="2-1-a-mitiga-o-dos-vieses-nas-atividades-t-cnicas">2.1 A mitiga&#xE7;&#xE3;o dos vieses nas atividades t&#xE9;cnicas</h3><p>A literatura contempor&#xE2;nea sobre vieses cognitivos tem estimulado uma reflex&#xE3;o voltada a desenvolver uma capacidade de mitigar os vieses que influenciam nossas decis&#xF5;es. N&#xF3;s nos tornamos cada vez mais conscientes de que os vieses cognitivos que todos n&#xF3;s compartilhamos tornam cada indiv&#xED;duo pouco capazes de observar com clareza os limites de suas pr&#xF3;prias intui&#xE7;&#xF5;es. Em especial, nosso forte vi&#xE9;s de confirma&#xE7;&#xE3;o nos torna p&#xE9;ssimos avaliadores da qualidade de nossas intui&#xE7;&#xF5;es.</p><p>Essa consci&#xEA;ncia nos oferece a possibilidade de reinterpretar certas institui&#xE7;&#xF5;es tradicionais, que tornam as decis&#xF5;es sociais fundamentais pouco sujeitas &#xE0; vontade de um indiv&#xED;duo particular, ou mesmo de um grupo de indiv&#xED;duos. As sociedades humanas podem ter v&#xE1;rios n&#xED;veis de subordina&#xE7;&#xE3;o, mas v&#xE1;rias das organiza&#xE7;&#xF5;es sociais mais est&#xE1;veis s&#xE3;o baseadas em alguma forma de <em>coordena&#xE7;&#xE3;o</em>, ainda que essa coordena&#xE7;&#xE3;o seja efetuada por um grupo de lideran&#xE7;as.</p><p>A exig&#xEA;ncia de uma a&#xE7;&#xE3;o coordenada exige que exista um di&#xE1;logo, uma argumenta&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica, uma troca efetiva de experi&#xEA;ncias. Do ponto de vista da psicologia cognitiva, as estruturas pol&#xED;ticas que exigem coordena&#xE7;&#xE3;o parecem bastante ligadas &#xE0;s teorias que percebem a <em>racionalidade humana</em> como uma habilidade discursiva. Sperber e Mercier indicam que grupos tomam decis&#xF5;es melhor que indiv&#xED;duos, pois os equ&#xED;vocos individuais costumam ser mitigados pela necessidade de justificar nossas posi&#xE7;&#xF5;es. Os seres humanos tendem a ser muito exigentes com as argumenta&#xE7;&#xF5;es alheias e pouco exigentes com os pr&#xF3;prios argumentos, de tal forma que decis&#xF5;es colegiadas costumam ser menos sujeitas aos vieses individuais.</p><p>Estruturas decis&#xF3;rias coletivas existem em diversas culturas e a pr&#xF3;pria ci&#xEA;ncia pode ser pensada como uma grande di&#xE1;logo, em que quaisquer pessoas podem participar, oferecendo argumentos. O que torna a ci&#xEA;ncia muito poderosa n&#xE3;o &#xE9; a capacidade individual do pesquisador, mas a possibilidade de coordenar a atua&#xE7;&#xE3;o de milhares de pessoas, acumulando conhecimentos produzidos por uma quantidade imensa de indiv&#xED;duos, que operam com crit&#xE9;rios semelhantes. A pesquisa pode ser uma atividade solit&#xE1;ria, mas essa pesquisa precisa ser validada em inst&#xE2;ncias coletivas, como as bancas de defesa de tese ou os pareceres de <em>peer review</em>.</p><p>No caso das decis&#xF5;es t&#xE9;cnicas, a colegialidade imp&#xF5;e exig&#xEA;ncias, mas tende a gerar resultados positivos: profissionais se re&#xFA;nem em escrit&#xF3;rios comuns, em consult&#xF3;rios que integram redes, em grupos que trocam experi&#xEA;ncias e, com isso, a sua atua&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; t&#xE3;o isolada quanto pode parecer. O erro que passa inc&#xF3;lume pelo de uma pessoa, tende a ser percebido pelo crivo de pessoas que est&#xE3;o mais atentas naquele momento.</p><p>Embora o <em>plano de interven&#xE7;&#xE3;o</em> constitua uma atividade individual, que &#xE9; caracter&#xED;stica dos TCCs, ele somente pode ser adequadamente desenvolvido quando existe um efetivo di&#xE1;logo com outros atores. O di&#xE1;logo com o orientador costuma ser suficiente para as pesquisas acad&#xEA;micas, pois ainda &#xE9; necess&#xE1;ria a defesa e a incorpora&#xE7;&#xE3;o dos novos conhecimentos pelo campo. J&#xE1; para os planos de interven&#xE7;&#xE3;o, esse di&#xE1;logo com o orientador &#xE9; fundamental, mas &#xE9; insuficiente: exige-se uma expans&#xE3;o do di&#xE1;logo para os atores pol&#xED;ticos diretamente envolvidos com a situa&#xE7;&#xE3;o problema.</p><p>Somente esse exerc&#xED;cio coletivo pode fazer com que os vieses do proponente n&#xE3;o influenciem de forma demasiada o seu diagn&#xF3;stico e a terap&#xEA;utica sugerida.</p><h3 id="2-2-a-necessidade-de-valida-o-do-diagn-stico-pelas-autoridades-competentes">2.2 A necessidade de valida&#xE7;&#xE3;o do diagn&#xF3;stico pelas autoridades competentes</h3><p>Como a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o envolve sempre um determinado ambiente organizacional, n&#xE3;o faz sentido despender esfor&#xE7;os no sentido de alterar uma pr&#xE1;tica que n&#xE3;o seja percebida como deficiente pelos atores politicamente relevantes.</p><p>De nada adianta fazer uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o para alterar qualquer aspecto do processo administrativo disciplinar em determinado &#xF3;rg&#xE3;o, quando as pessoas que ocupam os cargos de dire&#xE7;&#xE3;o consideram que n&#xE3;o existe um problema premente a ser &#xA0;enfrentado.</p><p>Enquanto o projeto de pesquisa deve ser acolhido apenas pelo orientador (porque ampliar o conhecimento tem utilidade em si), a <em>proposta preliminar de interven&#xE7;&#xE3;o</em> precisa ser aprovada tamb&#xE9;m pelas pessoas que teriam o poder para determinar essa interven&#xE7;&#xE3;o. Esse tipo de valida&#xE7;&#xE3;o pr&#xE9;via n&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;ria no projeto de diagn&#xF3;stico, visto que a exist&#xEA;ncia de um diagn&#xF3;stico com problemas a serem enfrentados &#xE9; justamente o que precisa ser validado. Por&#xE9;m, mesmo nesse caso &#xE9; desej&#xE1;vel que haja di&#xE1;logos pr&#xE9;vios com os agentes envolvidos, visto que &#xE9; muito prov&#xE1;vel que eles tenham de tomar parte nas estrat&#xE9;gias de diagn&#xF3;stico.</p><p>Embora tal valida&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o garanta que ela ser&#xE1; efetivamente implementada, esse patroc&#xED;nio (ou aceite) demonstra que existe interesse institucional, que existe um reconhecimento de que a situa&#xE7;&#xE3;o-problema demanda algum tipo de altera&#xE7;&#xE3;o e de que h&#xE1; abertura para uma potencial aplica&#xE7;&#xE3;o do projeto desenvolvido.</p><h2 id="3-a-estrutura-do-projeto-de-interven-o">3. A estrutura do projeto de interven&#xE7;&#xE3;o</h2><h3 id="3-1-diagn-stico">3.1 Diagn&#xF3;stico</h3><p>No diagn&#xF3;stico, a situa&#xE7;&#xE3;o problema deve ser devidamente observada, gerando uma <em>descri&#xE7;&#xE3;o</em> muito semelhante ao que seria o resultado de uma pesquisa descritiva. &#xC9; preciso adotar estrat&#xE9;gias emp&#xED;ricas (quantitativas e/ou qualitativas) para que a situa&#xE7;&#xE3;o problema seja devidamente descrita e compreendido o contexto no qual ela se insere.</p><p>Um elemento fundamental do diagn&#xF3;stico &#xE9; a identifica&#xE7;&#xE3;o de:</p><ol><li>potenciais causas das dificuldades observadas;</li><li>potenciais consequ&#xEA;ncias de uma interven&#xE7;&#xE3;o.</li></ol><p>A identifica&#xE7;&#xE3;o das causas &#xE9; importante porque &#xE9; a identifica&#xE7;&#xE3;o das causas que possibilitar&#xE1; o desenvolvimento de estrat&#xE9;gias voltadas a atacar as causas, resolvendo (ou mitigando) os problemas.</p><p>Numa pesquisa acad&#xEA;mica, a identifica&#xE7;&#xE3;o de v&#xED;nculos de causalidade exige a aplica&#xE7;&#xE3;o de metodologias rigorosas, voltadas a identificar se existe realmente uma causalidade entre os fatores.</p><p>Na proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, o objetivo n&#xE3;o &#xE9; avaliar rigorosamente se existe causalidade entre certos fatores, mas &#xE9; partir de observa&#xE7;&#xF5;es baseadas na experi&#xEA;ncia. Com isso, essa estrutura aproxima-se mais da defesa t&#xE9;cnica de uma tese do que de uma efetiva pesquisa cient&#xED;fica. Nesse caso, a <em>verossimilhan&#xE7;a</em> da rela&#xE7;&#xE3;o de causalidade, a partir da experi&#xEA;ncia do pesquisador e do orientador, &#xE9; suficiente para o desenvolvimento da proposta.</p><p>Essa &#xE9; uma fragilidade das propostas de interven&#xE7;&#xE3;o, com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s pesquisas, que buscam um rigor maior no conhecimento dos seus objetos. Na proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, esse rigor &#xE9; mitigado, o que faz com que seja muito importante partir de pesquisas anteriores e de conclus&#xF5;es compat&#xED;veis com o senso comum.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; por acaso que v&#xE1;rias estrat&#xE9;gias de tomada de decis&#xE3;o (como o <em>design thinking</em> e as <em>an&#xE1;lises de impacto regulat&#xF3;rio</em>) tendem a criar sistemas complexos de diagn&#xF3;stico, que envolvem a participa&#xE7;&#xE3;o de v&#xE1;rios atores, o que mitiga bastante os riscos de que o vi&#xE9;s de confirma&#xE7;&#xE3;o do proponente conduza &#xE0; admiss&#xE3;o acr&#xED;tica de um diagn&#xF3;stico incorreto.</p><p>O calcanhar de Aquiles de uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o &#xE9; justamente a potencial fragilidade do diagn&#xF3;stico. Torn&#xE1;-lo mais robusto exige o estabelecimento de di&#xE1;logos com os atores envolvidos, a leitura exaustiva tanto da literatura cient&#xED;fica quanto de an&#xE1;lises t&#xE9;cnicas anteriores e a ado&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias de mitiga&#xE7;&#xE3;o do vi&#xE9;s de confirma&#xE7;&#xE3;o, como a op&#xE7;&#xE3;o por estrat&#xE9;gias que impliquem o di&#xE1;logo de um grupo relativamente grande.</p><p>No caso de uma especializa&#xE7;&#xE3;o, o tempo dispon&#xED;vel para a realiza&#xE7;&#xE3;o dos trabalhos costuma ser compat&#xED;vel apenas com a realiza&#xE7;&#xE3;o do diagn&#xF3;stico. Esse diagn&#xF3;stico de causas n&#xE3;o &#xE9; exatamente uma pesquisa cient&#xED;fica, mas um exerc&#xED;cio t&#xE9;cnico, que utilize de estrat&#xE9;gias adequadas de mitiga&#xE7;&#xE3;o dos vieses, mas que n&#xE3;o adote a via mais complexa de isolar vari&#xE1;veis e testar uma hip&#xF3;</p><h3 id="3-2-proposta">3.2 Proposta</h3><p>A proposta poder&#xE1; ser mais ou menos desenvolvida, a partir do projeto que se tenha da pesquisa-a&#xE7;&#xE3;o. Nos casos em que houver uma concentra&#xE7;&#xE3;o no diagn&#xF3;stico, a proposta poder&#xE1; ser apenas um delineamento geral das causas e de poss&#xED;veis linhas de interven&#xE7;&#xE3;o. Caso o diagn&#xF3;stico permita, a proposta dever&#xE1; ser mais espec&#xED;fica, incluindo um plano de a&#xE7;&#xE3;o execut&#xE1;vel.</p><h4 id="3-2-1-car-ter-execut-vel">3.2.1 Car&#xE1;ter execut&#xE1;vel</h4><p>A proposta, para n&#xE3;o ser um palpite, precisa estar calcada em um diagn&#xF3;stico adequado. A partir de um bom diagn&#xF3;stico, &#xE9; poss&#xED;vel identificar com relativo grau de certeza algumas potenciais causas das dificuldades.</p><p>A investiga&#xE7;&#xE3;o rigorosa das rela&#xE7;&#xF5;es de causalidade exige metodologias espec&#xED;ficas da pesquisa cient&#xED;fica, que podem ser utilizadas, mas que normalmente demandariam uma mudan&#xE7;a no escopo: em vez de realizar uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, seria poss&#xED;vel realizar uma pesquisa explorat&#xF3;ria, ou uma pesquisa descritiva, cuja realiza&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o deixaria tempo suficiente para a formula&#xE7;&#xE3;o &#xA0;de uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Essa proposta deve ter como objetivo atacar as causas que foram diagnosticadas, o que mobiliza um saber t&#xE9;cnico, e n&#xE3;o uma pesquisa cient&#xED;fica. A solidez das propostas depende de um conhecimento exaustivo da &#xE1;rea e da literatura, para que n&#xE3;o se proponha estrat&#xE9;gias que j&#xE1; foram consideradas pouco eficientes. Mas esse salto do diagn&#xF3;stico para a proposi&#xE7;&#xE3;o exige uma simplifica&#xE7;&#xE3;o dos modelos que n&#xE3;o &#xE9; compat&#xED;vel com o rigor da pesquisa cient&#xED;fica.</p><p>Se a pesquisa cient&#xED;fica busca a constru&#xE7;&#xE3;o de um conhecimento rigoroso, mas muito caro e espec&#xED;fico, as propostas de interven&#xE7;&#xE3;o mobilizam o saber menos confi&#xE1;vel e mais vivencial dos especialistas e de sua experi&#xEA;ncia. A vantagem &#xE9; que essa redu&#xE7;&#xE3;o no rigor viabiliza a constru&#xE7;&#xE3;o de sa&#xED;das pr&#xE1;ticas que sejam <em>efetivas</em> e que, tanto quanto poss&#xED;vel, mobilize uma aplica&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica dos conhecimentos obtidos nas pesquisas cient&#xED;ficas.</p><p>Trata-se aqui de uma atua&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica <em>baseada em evid&#xEA;ncias</em>, que n&#xE3;o se confunde com a pesquisa emp&#xED;rica (que &#xE9; baseada em evid&#xEA;ncias, mas exige metodologias rigorosas para a comprova&#xE7;&#xE3;o de hip&#xF3;teses), mas que se relaciona com ela, como uma forma de tomar decis&#xF5;es t&#xE9;cnicas baseadas no conhecimento cient&#xED;fico mais atual.</p><p>O diagn&#xF3;stico precisa ser calcado em evid&#xEA;ncias, mas a proposta precisa ir al&#xE9;m, envolvendo um saber prudencial que se organiza de forma diferente dos discursos cient&#xED;ficos. No &#xE2;mbito da academia, a formula&#xE7;&#xE3;o dessas propostas prudenciais pode ser feito sob uma orienta&#xE7;&#xE3;o de pessoas mais experientes e que conhecem a literatura contempor&#xE2;nea, contribuindo para o aprimoramento t&#xE9;cnico dos estudantes e para a ado&#xE7;&#xE3;o de uma gest&#xE3;o p&#xFA;blica baseada em evid&#xEA;ncias, que &#xE9; uma das t&#xF4;nicas da administra&#xE7;&#xE3;o contempor&#xE2;nea, mas que n&#xE3;o se tornou ainda a forma padr&#xE3;o de atua&#xE7;&#xE3;o dos profissionais.</p><p>A proposta, nesse caso, n&#xE3;o pode ser uma mera sugest&#xE3;o. Precisa ser uma proposta execut&#xE1;vel, com esclarecimentos suficientes, com cronograma plaus&#xED;vel e com estimativas de custo. N&#xE3;o se trata de dar uma ideia, mas de formular um projeto administrativo completo, que pode efetivamente ser executado pelas autoridades que patrocinaram a iniciativa de realizar a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o.</p><h4 id="3-2-2-monitoramento-e-avalia-o">3.2.2 Monitoramento e avalia&#xE7;&#xE3;o</h4><p>Al&#xE9;m de indicar quais s&#xE3;o as mudan&#xE7;as a serem implementadas, o plano deve conter indica&#xE7;&#xF5;es de como essas altera&#xE7;&#xF5;es devem ser monitoradas (que dados devem ser levantados e de que forma) e posteriormente avaliadas, para mensurar se os impactos da interven&#xE7;&#xE3;o foram positivos, negativos ou neutros.</p><p>Essa necessidade de avalia&#xE7;&#xE3;o faz com que o mais adequado seja propor um piloto, que servir&#xE1; para testar as intui&#xE7;&#xF5;es que movem a interven&#xE7;&#xE3;o planejada. Implementar uma transforma&#xE7;&#xE3;o em larga escala &#xE9; um risco, pois &#xE9; poss&#xED;vel que mesmo as solu&#xE7;&#xF5;es que parecem &#xF3;bvias sejam imprecisas e demandem um aprimoramento antes de serem adotadas de forma generalizada.</p><p>Para testar a efici&#xEA;ncia das propostas, &#xE9; muito comum que se fa&#xE7;a primeiramente um piloto, ou seja, uma aplica&#xE7;&#xE3;o limitada das interven&#xE7;&#xF5;es, que sirva como teste. No caso da pesquisa a&#xE7;&#xE3;o, esse piloto deve ser pensado com muito cuidado, pois ele dever&#xE1; conter indica&#xE7;&#xF5;es de como ele deve ser avaliado, o que normalmente importa indicar um grupo de controle: um campo no qual a interven&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o seja aplicada, e que servir&#xE1; como par&#xE2;metro de compara&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Esse grupo de controle &#xE9; muito importante porque a implementa&#xE7;&#xE3;o da proposta pode coincidir com altera&#xE7;&#xF5;es ambientais que inviabilizem uma avalia&#xE7;&#xE3;o adequada: mudan&#xE7;as no ambiente internacional, no governo federal, na legisla&#xE7;&#xE3;o aplic&#xE1;vel, na jurisprud&#xEA;ncia dos tribunais. Para que seja poss&#xED;vel isolar, tanto quanto poss&#xED;vel, os resultados decorrentes da transforma&#xE7;&#xE3;o implementada, &#xE9; preciso definir um par&#xE2;metro de compara&#xE7;&#xE3;o, e esse elemento deve ser parte integrante do plano.</p><h3 id="3-3-relat-rio-de-interven-o">3.3 Relat&#xF3;rio de interven&#xE7;&#xE3;o</h3><p>Caso seja poss&#xED;vel realizar a interven&#xE7;&#xE3;o, deve-se realizar a monitora&#xE7;&#xE3;o dos dados e a conclus&#xE3;o do trabalho dever&#xE1; constituir em uma explana&#xE7;&#xE3;o da avalia&#xE7;&#xE3;o, que indique se os impactos estiveram em linha com o esperado ou se eles sugerem a necessidade de um novo ciclo de investiga&#xE7;&#xE3;o-a&#xE7;&#xE3;o, voltado a aprimorar os resultados.</p><h3 id="3-4-outros-elementos">3.4 Outros elementos</h3><p>Al&#xE9;m do diagn&#xF3;stico e da proposta, a proposta de interven&#xE7;&#xE3;o pode ter outros elementos que s&#xE3;o comuns com as monografias: introdu&#xE7;&#xE3;o, revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica, marco te&#xF3;rico e outros elementos que fazem parte dos discursos acad&#xEA;micos. O trabalho pode ter um cap&#xED;tulo hist&#xF3;rico, pode ter uma an&#xE1;lise de experi&#xEA;ncias internacionais, pode englobar estudos auxiliares que contribuem para a fixa&#xE7;&#xE3;o do diagn&#xF3;stico ou das propostas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Estratégias de abordagem]]></title><description><![CDATA[<p>Trataremos neste texto de algumas das poss&#xED;veis estrat&#xE9;gias de abordagem, tanto qualitativas como quantitativas, que se abrem a uma pesquisa contempor&#xE2;nea em direito.</p><h2 id="1-an-lise-de-dados">1. An&#xE1;lise de dados</h2><p>A an&#xE1;lise quantitativa de dados judiciais &#xE9; uma abordagem que utiliza elementos de</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/estrategias-de-abordagem/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704b</guid><category><![CDATA[texto]]></category><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Mon, 25 Jan 2021 00:40:36 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<p>Trataremos neste texto de algumas das poss&#xED;veis estrat&#xE9;gias de abordagem, tanto qualitativas como quantitativas, que se abrem a uma pesquisa contempor&#xE2;nea em direito.</p><h2 id="1-an-lise-de-dados">1. An&#xE1;lise de dados</h2><p>A an&#xE1;lise quantitativa de dados judiciais &#xE9; uma abordagem que utiliza elementos de estat&#xED;stica para construir modelos descritivos e explicativos acerca das v&#xE1;rias dimens&#xF5;es ligadas aos processos judiciais. Nos textos em ingl&#xEA;s, &#xE9; comum usar o termos <em>jurimetrics</em>, que &#xE9; uma constru&#xE7;&#xE3;o similar &#xE0; da <em>econometrics</em>, que s&#xE3;o estudos concentrados na <em>medi&#xE7;&#xE3;o</em> de certos elementos jur&#xED;dicos e no tratamento estat&#xED;stico das informa&#xE7;&#xF5;es. </p><p>Em portugu&#xEA;s, esse termo tem sido utilizado em alguns c&#xED;rculos, havendo inclusive uma <a href="https://abj.org.br/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Associa&#xE7;&#xE3;o Brasileira de Jurimetria</a>, fundada em 2011, bem como por pesquisadores como a economista <a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/XF889VUG/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Luciana Yeung</a>. Todavia, esse termo n&#xE3;o se tornou de uso corrente entre os pesquisadores, que normalmente utilizam o r&#xF3;tulo <em>pesquisa emp&#xED;rica</em>, que tem um significado potencialmente mais amplo (pois v&#xE1;rias pesquisas emp&#xED;ricas n&#xE3;o adotam um vi&#xE9;s quantitativo), mas que tem sido utilizado para designar abordagens que dialogam com as metodologias quantitativas.</p><p>Essas an&#xE1;lises podem adotar uma abordagem censit&#xE1;ria ou amostral, mas de todo modo utilizam estrat&#xE9;gias de explica&#xE7;&#xE3;o que dialogam com o instrumental da estat&#xED;stica. Em boa parte dos casos, trata-se apenas de <em>estat&#xED;stica descritiva</em>, que faz uma <em>descri&#xE7;&#xE3;o quantitativa</em> do campo (contabilizando n&#xFA;meros de processos, tempos de tramita&#xE7;&#xE3;o ou preval&#xEA;ncia de certos tipos de decis&#xE3;o), utilizando algumas medidas estat&#xED;sticas simples (como m&#xE9;dias, medianas e percentuais), que s&#xE3;o interpretadas a partir de uma an&#xE1;lise <em>qualitativa</em>, focada na compreens&#xE3;o do sentido das grandezas num&#xE9;ricas. Esse tipo de abordagem &#xE9; capaz de tra&#xE7;ar <em>correla&#xE7;&#xF5;es</em>, observando padr&#xF5;es de varia&#xE7;&#xE3;o coordenada nas vari&#xE1;veis estudadas, mas n&#xE3;o pode afirmar a exist&#xEA;ncia de rela&#xE7;&#xF5;es causais.</p><p>Em certos casos, as pesquisas podem passar para o campo da <em>estat&#xED;stica inferencial</em>, que tem metodologias voltadas para analisar as correla&#xE7;&#xF5;es evidenciadas pelas pesquisas e identificar nelas a exist&#xEA;ncia (ou n&#xE3;o) de rela&#xE7;&#xF5;es de causalidade. Nesse caso, utiliza-se um ferramental estat&#xED;stico mais sofisticado, ligado &#xE0;s <em>regress&#xE3;o log&#xED;stica</em>, nome dado ao campo que estuda os padr&#xF5;es de correla&#xE7;&#xE3;o de vari&#xE1;veis e estabelece a possibilidade de identificar, com razo&#xE1;vel seguran&#xE7;a, a exist&#xEA;ncia de rela&#xE7;&#xF5;es de causalidade.</p><p>Acontece, por&#xE9;m, que os modelos de regress&#xE3;o tipicamente exigem amostras bastante grandes (chamadas de pesquisa de N-grande, visto que <em>n</em> designa tipicamente o n&#xFA;mero de elementos que comp&#xF5;em uma amostra), que muitas vezes s&#xE3;o incompat&#xED;veis com os fen&#xF4;menos jur&#xED;dicos estudados. Uma pesquisa de inten&#xE7;&#xE3;o de voto entrevista v&#xE1;rias centenas de pessoas, para alcan&#xE7;ar uma amostra significativa para milh&#xF5;es de eleitores. Ocorre que os processos efetivamente debatidos em um tribunal (qualquer que seja ele) precisam caber no tempo anual de sess&#xF5;es, e raramente s&#xE3;o maiores do que poucas centenas (exceto no caso de julgamentos &quot;expressos&quot;, padronizados, que n&#xE3;o envolvem um debate efetivo nos &#xF3;rg&#xE3;os colegiados).</p><p>Essa relativa limita&#xE7;&#xE3;o do n&#xFA;mero de processos julgados faz com os pesquisadores se vejam frente &#xE0; necessidade de ampliar o seu objeto, viabilizando a acumula&#xE7;&#xE3;o de universos e amostras suficientemente grandes para que haja sentido utilizar as estruturas da estat&#xED;stica inferencial. O problema &#xE9; que, para fazer essa amplia&#xE7;&#xE3;o, muitas vezes &#xE9; necess&#xE1;rio utilizar processos de muitos anos, de muitas origens e de muitos ritos, o que compromete a viabilidade de retirar conclus&#xF5;es v&#xE1;lidas, visto que a amostra pode ser pouco representativa de um universo definido. A estat&#xED;stica inferencial &#xE9; um instrumento poderoso, mas que precisa ser utilizado com muito cuidado para evitar conclus&#xF5;es equivocadas.</p><p>A estat&#xED;stica descritiva &#xE9; um instrumento que leva a conclus&#xF5;es menos s&#xF3;lidas, mas que pode ser utilizada em um n&#xFA;mero maior de casos e que permite a combina&#xE7;&#xE3;o de an&#xE1;lises quantitativas (pois a descri&#xE7;&#xE3;o &#xE9; feita em termo de quantidades) e de an&#xE1;lises qualitativas, visto que a interpreta&#xE7;&#xE3;o dos &quot;n&#xFA;meros&quot; &#xE9; realizada por meio de uma an&#xE1;lise cr&#xED;tica, que constr&#xF3;i narrativas que buscam dar sentido ao panorama descritivo tra&#xE7;ado. Essa &#xE9; uma plasticidade que torna essa abordagem adaptada &#xE0; interpreta&#xE7;&#xE3;o dos dados heterog&#xEA;neos e relativamente pequenos que podemos obter no caso dos processos judiciais que tramitam nos tribunais brasileiros.</p><p>Se voc&#xEA; pretende fazer uma pesquisa com an&#xE1;lise de dados, &#xE9; muito importante fazer um desenho adequado. Para isso, indicamos a leitura cuidadosa do livro <a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/KAC4EJ87/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">An Introduction to Empirical Legal Research</a>, publicado por Lee Epstein e Andrew Martin em 2014, que trata minuciosamente do planejamento e da execu&#xE7;&#xE3;o desse tipo de trabalho. &#xC9; interessante tamb&#xE9;m o livro de 2002, de Lee Epstein e Gary King, chamado <a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/KBP9RRI7/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Pesquisa Emp&#xED;rica em Direito: Regras de Infer&#xEA;ncia</a>, que tem a vantagem de estar em portugu&#xEA;s, mas trata-se de uma vers&#xE3;o anterior do texto, que n&#xE3;o traz de forma detalhada as orienta&#xE7;&#xF5;es para realizar o desenho e a execu&#xE7;&#xE3;o da pesquisa emp&#xED;rica.</p><p>Na an&#xE1;lise de dados, &#xE9; importante que voc&#xEA; fa&#xE7;a um desenho da pesquisa muito cuidadoso, esclarecendo:</p><ol><li>Quais dados ser&#xE3;o coletados e como isso ser&#xE1; feito. Esse &#xE9; um ponto importante, pois em v&#xE1;rias situa&#xE7;&#xF5;es a obten&#xE7;&#xE3;o dos dados &#xE9; um desafio consider&#xE1;vel. Se os dados est&#xE3;o pouco sistematizados e dependem de um esfor&#xE7;o consider&#xE1;vel para a sua identifica&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; preciso esclarecer bem as formas como os dados ser&#xE3;o acessados. Embora exista no Brasil uma lei que determina a transpar&#xEA;ncia dos dados, essa transpar&#xEA;ncia ainda &#xE9; muito relativa (para dizer o m&#xED;nimo). Muitas informa&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o s&#xE3;o disponibilizadas, ou o s&#xE3;o de forma fragment&#xE1;ria, criando desafios de sistematiza&#xE7;&#xE3;o. Outras informa&#xE7;&#xF5;es existem apenas em formato de imagem (e n&#xE3;o de texto), o que exige estrat&#xE9;gias de convers&#xE3;o. As estrat&#xE9;gias de coleta de dado devem ser esclarecidas, at&#xE9; porque os orientadores e examinadores podem ter uma experi&#xEA;ncia que os capacite a avaliar se as expectativas do pesquisador s&#xE3;o razo&#xE1;veis quanto &#xE0; disponibilidade das informa&#xE7;&#xF5;es e da viabilidade das estrat&#xE9;gias voltadas a sua obten&#xE7;&#xE3;o.</li><li>Uma vez coletados os dados, &#xE9; preciso organiz&#xE1;-los, e essa pode ser uma tarefa muito desafiadora, especialmente quando o esfor&#xE7;o de organiza&#xE7;&#xE3;o depender da formula&#xE7;&#xE3;o de novas classifica&#xE7;&#xF5;es. A classifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; o ponto de maior contato entre a pesquisa emp&#xED;rica e as abordagens te&#xF3;ricas, pois os crit&#xE9;rios de segmenta&#xE7;&#xE3;o utilizados em qualquer classifica&#xE7;&#xE3;o devem ter densidade te&#xF3;rica suficiente, sem o que as conclus&#xF5;es se tornam fr&#xE1;geis. Essa organiza&#xE7;&#xE3;o gera as bases de dados que s&#xE3;o pass&#xED;veis de an&#xE1;lise</li><li>An&#xE1;lise dos dados. Uma vez que foram coletados, organizados e classificados, o pesquisador conta com uma base de dados que deve lhe permitir formular interpreta&#xE7;&#xF5;es, seja com base em abordagens quantitativas propriamente ditas (como os modelos de regress&#xE3;o), seja por an&#xE1;lise qualitativas, que buscam conferir um sentido narrativo &#xE0;s grandezas num&#xE9;ricas evidenciadas pela aplica&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias de estat&#xED;stica descritiva.</li></ol><p>No caso de pesquisas voltadas &#xE0; an&#xE1;lise de dados, uma metodologia s&#xF3;lida deveria ser capaz de explicar adequadamente os crit&#xE9;rios que ser&#xE3;o aplicados nessas tr&#xEA;s atividades.</p><h2 id="2-an-lise-de-decis-es">2. An&#xE1;lise de decis&#xF5;es</h2><h3 id="2-1-a-sele-o-das-decis-es">2.1 A sele&#xE7;&#xE3;o das decis&#xF5;es</h3><p>A an&#xE1;lise do conte&#xFA;do de decis&#xF5;es judiciais &#xE9; uma das formas t&#xED;picas de pesquisa em direito. Trata-se de uma forma espec&#xED;fica de an&#xE1;lise documental, j&#xE1; que tais decis&#xF5;es s&#xE3;o esp&#xE9;cies de documentos, ou seja, s&#xE3;o um registro de informa&#xE7;&#xF5;es sobre a atua&#xE7;&#xE3;o judicial. Diferentemente do que chamamos de <em>an&#xE1;lise de dados</em>, essa &#xE9; uma forma de abordagem eminentemente qualitativa, voltada a produzir narrativas que deem sentido aos fen&#xF4;menos observados.</p><p>Quando foca sobre uma decis&#xE3;o espec&#xED;fica, a pesquisa pode ser compreendida como um <em>estudo de caso</em>, sendo aplic&#xE1;veis a esse exerc&#xED;cio todas as quest&#xF5;es ditas no ponto anterior. Em especial, &#xE9; preciso justificar muito bem o motivo pelo qual o estudo de uma determinada decis&#xE3;o &#xE9; relevante para o campo e &#xE9; preciso tomar um cuidado muito grande para n&#xE3;o inferir conclus&#xF5;es gerais a partir de um objeto t&#xE3;o circunscrito.</p><p>Como no caso do estudo de caso, a amplia&#xE7;&#xE3;o do n&#xFA;mero de decis&#xF5;es n&#xE3;o &#xE9; uma solu&#xE7;&#xE3;o adequada para a quest&#xE3;o da relev&#xE2;ncia. Quando um pesquisador escolhe analisar v&#xE1;rias decis&#xF5;es, ele tipicamente busca estabelecer padr&#xF5;es decis&#xF3;rios, com vistas a identificar uma linha jurisprudencial.</p><p>Por&#xE9;m, quando se escolhe um certo conjunto de decis&#xF5;es, &#xE9; preciso ter crit&#xE9;rios muito claros para essa sele&#xE7;&#xE3;o, sob pena de a pesquisa ser inviabilizada por um vi&#xE9;s de sele&#xE7;&#xE3;o: se o pesquisador seleciona as decis&#xF5;es que considera importantes, &#xE9; muito prov&#xE1;vel que os crit&#xE9;rios ideol&#xF3;gicos do pesquisador determinem os processos que ser&#xE3;o analisados. Esse tipo de &quot;grupo de processos&quot; n&#xE3;o pode ser considerado uma &quot;amostra&quot;, visto que <em>toda amostra precisa ser escolhida de forma rand&#xF4;mica</em>.</p><p>Uma amostra adequadamente selecionada pode permitir que a an&#xE1;lise de um grupo de casos leve a conclus&#xF5;es que podem ser aplicadas &#xE0; popula&#xE7;&#xE3;o de casos. Todavia, um grupo de casos selecionados por crit&#xE9;rios de relev&#xE2;ncia n&#xE3;o constitui amostra e n&#xE3;o permite alcan&#xE7;ar conclus&#xF5;es aplic&#xE1;veis para processos fora do grupo analisado.</p><p>Isso n&#xE3;o significa que seja imposs&#xED;vel fazer pesquisas sobre grupos de casos, mas apenas que a sele&#xE7;&#xE3;o desses grupos precisa estar muito bem justificada na metodologia. Voc&#xEA; pode fazer uma pesquisa <em>censit&#xE1;ria</em>, analisando todos os casos do seu universo, desde que trabalhe com um universo pequeno: por exemplo, as decis&#xF5;es tomadas pelo plen&#xE1;rio do STF que usem como fundamento expl&#xED;cito o <em>princ&#xED;pio da igualdade</em> ou o <em>princ&#xED;pio da proporcionalidade</em>.</p><p>Quando voc&#xEA; define um <em>crit&#xE9;rio</em>, a aplica&#xE7;&#xE3;o desse crit&#xE9;rio pode conduzir a sua pesquisa, de forma segura, a um grupo de processos que tenha um tamanho que caiba no seu tempo e no seu or&#xE7;amento. Por esse motivo, os orientadores s&#xE3;o t&#xE3;o insistentes na necessidade de fazer um <em>recorte do objeto</em>, estabelecendo crit&#xE9;rios r&#xED;gidos para o que vai ser ou n&#xE3;o objeto da pesquisa e, com isso, reduzir a complexidade do trabalho a um n&#xED;vel manej&#xE1;vel.</p><p>Essa gest&#xE3;o da complexidade &#xE9; uma das partes mais importantes do trabalho, e uma das fun&#xE7;&#xF5;es primordiais do orientador, pois muitas vezes o pesquisador iniciante n&#xE3;o tem meios para calcular o tamanho do esfor&#xE7;o que ser&#xE1; necess&#xE1;rio para realizar a pesquisa desejada e para chegar ao dif&#xED;cil equil&#xED;brio entre um <em>objeto relevante</em> e o <em>tempo dispon&#xED;vel</em>.</p><h3 id="2-2-o-que-fazer-com-as-decis-es">2.2 O que fazer com as decis&#xF5;es?</h3><p>Essa &#xE9; a quest&#xE3;o fundamental ligada &#xE0; estrat&#xE9;gia de abordagem. Uma vez que voc&#xEA; tem um problema de pesquisa e entende que a an&#xE1;lise de certas decis&#xF5;es contribui para enfrentar esse problema, &#xE9; preciso definir qual ser&#xE1; o <em>tratamento</em> dado a cada decis&#xE3;o.</p><p>Uma das possibilidades &#xE9; focar em alguns elementos espec&#xED;ficos (relatores, tipos de decis&#xE3;o, presen&#xE7;a de certos argumentos), que podem devidamente <em>identificados</em> (como a data da decis&#xE3;o), <em>classificados</em> (por exemplo, definido que as decis&#xF5;es ser&#xE3;o classificadas como proced&#xEA;ncia, improced&#xEA;ncia, prejudicialidade ou extin&#xE7;&#xE3;o processual) ou <em>quantificados</em> (como o tempo de tramita&#xE7;&#xE3;o).</p><p>Se a sua pesquisa gerar informa&#xE7;&#xF5;es desse tipo, o resultado &#xE9; que voc&#xEA; poder&#xE1; resumi-los em uma tabela: uma base de dados, que pode ser analisada a partir das metodologias emp&#xED;ricas descritas no item anterior. Uma vez que voc&#xEA; tenha classifica&#xE7;&#xF5;es e datas, esses dados podem ser transformados em grandezas num&#xE9;ricas, por meio de estrat&#xE9;gias de <em>contagem</em>: embora seja uma dimens&#xE3;o narrativa afirmar que um processo teve uma decis&#xE3;o de proced&#xEA;ncia, passa a ser uma quantidade num&#xE9;rica afirmar que a popula&#xE7;&#xE3;o de decis&#xF5;es teve 150 decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia, que correspondem a 15% dos julgamentos ocorridos em um determinado per&#xED;odo.</p><p>Aquilo que, para um processo determinado, &#xE9; uma <em>classifica&#xE7;&#xE3;o qualitativa</em>, pode ser incorporado a an&#xE1;lises quantitativas quando n&#xE3;o tratamos do processo espec&#xED;fico, mas da <em>popula&#xE7;&#xE3;o de processos</em>. Esse tr&#xE2;nsito para a popula&#xE7;&#xE3;o de processos, com a contagem de dados, abre espa&#xE7;o para a utiliza&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias quantitativas, especialmente para a constru&#xE7;&#xE3;o de um <em>modelo descritivo</em> (que fale das caracter&#xED;sticas de um conjunto de processos ou de decis&#xF5;es) ou mesmo de um <em>modelo explicativo</em> (seja de explica&#xE7;&#xF5;es qualitativas ou at&#xE9; mesmo pelo uso de estat&#xED;stica inferencial).</p><p>Mas pode ser que o tratamento que voc&#xEA; realize com dada decis&#xE3;o conduza sua pesquisa a produzir outros tipos de dados: descri&#xE7;&#xF5;es dos pontos principais, dos argumentos mais relevantes, das intera&#xE7;&#xF5;es entre os atores e de outros dados de natureza <em>narrativa</em>, que n&#xE3;o se prestam muito a entrar em bases de dados.</p><p>Essas narrativas se prestam a an&#xE1;lises qualitativas, que podem apontar a exist&#xEA;ncia de pressupostos impl&#xED;citos, do uso de categorias determinadas, de implica&#xE7;&#xF5;es filos&#xF3;ficas de certos usos, de rela&#xE7;&#xF5;es com a doutrina ou com a jurisprud&#xEA;ncia anterior. Todos esses elementos n&#xE3;o s&#xE3;o redut&#xED;veis a &quot;classifica&#xE7;&#xF5;es&quot; das unidades de an&#xE1;lise, ao menos em um primeiro momento.</p><p>Ocorre que a leitura cr&#xED;tica de v&#xE1;rias decis&#xF5;es pode conduzir a muitas aprecia&#xE7;&#xF5;es diferentes, de processos diferentes, que n&#xE3;o permitam dizer nada sobre o <em>conjunto dos processos analisados</em>. Por isso, voc&#xEA; precisa definir muito bem do que voc&#xEA; pretende falar. Uma coisa &#xE9; fazer um estudo de caso sobre um processo. Uma coisa diferente &#xE9; fazer um estudo de caso sobre um conjunto de processos, que s&#xE3;o entendidos como um &#xFA;nico caso complexo.</p><h3 id="2-3-estudo-de-caso-de-objetos-complexos">2.3 Estudo de caso de objetos complexos</h3><p>Uma situa&#xE7;&#xE3;o desafiadora ocorre quando voc&#xEA; opta por realizar um estudo de caso, mas n&#xE3;o estuda um objeto simples, e sim um caso complexo, formado por v&#xE1;rios objetos interligados. Isso pode acontecer, por exemplo, quando voc&#xEA; pretende analisar a jurisprud&#xEA;ncia recente do STJ sobre uma mat&#xE9;ria, o que faz com que o seu objeto seja &#xFA;nico (a jurisprud&#xEA;ncia recente), mas que ele seja composto por v&#xE1;rios elementos que precisar&#xE3;o ser analisados individualmente (as decis&#xF5;es).</p><p>O fato &#xE9; que todo caso &#xE9; complexo: uma decis&#xE3;o &#xE9; composta por muitos argumentos, uma situa&#xE7;&#xE3;o decorre da intera&#xE7;&#xE3;o de v&#xE1;rias pessoas. Todo caso pode ser subdividido em partes menores, em um processo de <em>an&#xE1;lise</em> (que, literalmente, quer dizer divis&#xE3;o). Mas certos casos somente s&#xE3;o acess&#xED;veis pelo estudo individual de seus componentes, pois o objeto de pesquisa escolhido &#xE9; composto por &#xA0;v&#xE1;rios elementos aut&#xF4;nomos (v&#xE1;rios processos, v&#xE1;rios argumentos, v&#xE1;rias pessoas).</p><p>Esse tipo de complexidade &#xE9; plenamente compat&#xED;vel com os estudos de caso, que t&#xEA;m por fun&#xE7;&#xE3;o justamente lidar com essa sobreposi&#xE7;&#xE3;o de camadas, que desafia estrat&#xE9;gias mais redutoras, como as quantitativas (que somente conseguem lidar com grandezas num&#xE9;ricas).</p><p>Por&#xE9;m, &#xE9; preciso tomar cuidado para definir se o seu projeto tem por objeto o estudo indutivo de uma <em>popula&#xE7;&#xE3;o</em> (estudando uma s&#xE9;rie de caracter&#xED;sticas de membros dessa popula&#xE7;&#xE3;o, eventualmente uma amostra, para fazer afirma&#xE7;&#xF5;es acerca de qualidades da popula&#xE7;&#xE3;o) ou se voc&#xEA; trata o seu objeto complexo como um <em>caso</em>: uma rede de intera&#xE7;&#xF5;es que pode ser analisada diretamente, e n&#xE3;o por uma determinada composi&#xE7;&#xE3;o de suas partes.</p><p>Se o estudo tem uma abordagem populacional, o foco ser&#xE1; a multiplica&#xE7;&#xE3;o de informa&#xE7;&#xF5;es sobre as unidades que constituem a popula&#xE7;&#xE3;o. Se o estudo tem uma abordagem de <em>caso complexo</em>, o grupo de decis&#xF5;es &#xE9; tratado desde logo como um sistema: como express&#xE3;o de uma mesma linha, como realiza&#xE7;&#xE3;o de um entendimento. Nesse caso, a abordagem n&#xE3;o tipicamente <em>indutiva</em>, pois as informa&#xE7;&#xF5;es sobre cada caso s&#xE3;o entendida, desde logo, como informa&#xE7;&#xF5;es sobre a <em>jurisprud&#xEA;ncia recente</em>.</p><p>Esse tipo de estudo de caso complexo pode criar armadilhas para um pesquisador inexperiente, pois ele pode pressupor a exist&#xEA;ncia de certos objetos que, no fundo, n&#xE3;o existem. Falar da &quot;jurisprud&#xEA;ncia recente&quot;, ou mesmo da &quot;jurisprud&#xEA;ncia&quot;, sup&#xF5;e a exist&#xEA;ncia de uma sistematicidade que talvez n&#xE3;o corresponda aos fatos. Quando a sua pergunta adota como unidade de an&#xE1;lise um <em>caso complexo</em>, voc&#xEA; precisa explicar muito bem os motivos pelos quais &#xE9; razo&#xE1;vel tratar um conjunto de decis&#xF5;es como partes de um sistema (e n&#xE3;o apenas como decis&#xF5;es independentes, que podem n&#xE3;o se deixar sistematizar).</p><p>Por tudo isso, o desafio metodol&#xF3;gico para lidar com um objeto complexo &#xE9; muito maior do que o desafio de lidar com um objeto simples, visto que &#xE9; preciso ter justificativas s&#xF3;lidas para tratar um certo <em>conjunto</em> como sendo um <em>sistema</em>.</p><h3 id="2-4-metodologias-espec-ficas">2.4 Metodologias espec&#xED;ficas</h3><p>N&#xE3;o existe algo como uma metodologia espec&#xED;fica para lidar com documentos em geral, nem com decis&#xF5;es em particular. <em>Pesquisa documental</em> n&#xE3;o &#xE9; uma estrat&#xE9;gia espec&#xED;fica, mas &#xE9; um nome que designa um conjunto de estrat&#xE9;gias que t&#xEA;m um objeto comum (e podem n&#xE3;o ter mais nada em comum al&#xE9;m do tipo do objeto tratado).</p><p>Existem, contudo, abordagens espec&#xED;ficas que s&#xE3;o normalmente ligadas aos protocolos adotados por determinados grupos de pesquisa, e que t&#xEA;m como objetivo permitir que as investiga&#xE7;&#xF5;es realizadas por eles sejam (ao menos relativamente) comensur&#xE1;veis. Selecionamos aqui duas abordagens que podem ser interessantes como modelo: a Metodologia de An&#xE1;lise de Decis&#xF5;es (MAD) e a An&#xE1;lise Emp&#xED;rico-Ret&#xF3;rica Do Discurso Jur&#xED;dico (AERD).</p><h4 id="2-4-1-metodologia-de-an-lise-de-decis-es-mad-">2.4.1 Metodologia de An&#xE1;lise de Decis&#xF5;es (MAD)</h4><p>A MAD foi desenvolvida no Grupo de Estudo e Pesquisa Hermen&#xEA;utica e Pol&#xED;ticas P&#xFA;blicas e &#xE9; explicitada em um artigo de Roberto Freitas Filho e Thalita Lima que tem esse mesmo nome (2010). Essa &#xE9; uma abordagem que tem por objetivo organizar informa&#xE7;&#xF5;es sobre um conjunto de decis&#xF5;es, verificar se h&#xE1; nelas uma coer&#xEA;ncia decis&#xF3;ria e produzir uma <em>explica&#xE7;&#xE3;o do sentido do conjunto das decis&#xF5;es</em>. Esses autores prop&#xF5;em iniciar por uma pesquisa explorat&#xF3;ria, que permita mapear as decis&#xF5;es acerca de determinada quest&#xE3;o e definir um problema de pesquisa.</p><p>Esse problema de pesquisa deve conter um <em>crit&#xE9;rio</em> para identificar as decis&#xF5;es que compor&#xE3;o o conjunto de objetos analisados pela pesquisa, e as informa&#xE7;&#xF5;es referentes a esses processos devem ser levantados e organizados em um banco de dados. Como segundo passo, sugere-se que esses dados sejam tratados <em>qualitativamente</em>, com a investiga&#xE7;&#xE3;o dos &quot;conceitos, valores, institutos e princ&#xED;pios presentes nas narrativas decis&#xF3;rias&quot; (Freitas Filho e Lima 2010). A identifica&#xE7;&#xE3;o desses argumentos &#xE9; o primeiro passo para uma nova rodada anal&#xED;tica, voltada a compreender n&#xE3;o apenas os argumentos utilizados, mas a atribuir a esse conjunto de decis&#xF5;es um sentido unificado, compreendendo-as como elementos de uma <em>pr&#xE1;tica decis&#xF3;ria</em>.</p><p>O exerc&#xED;cio de ler as decis&#xF5;es como realiza&#xE7;&#xE3;o de uma pr&#xE1;tica unificada faz com que a pergunta dessa metodologia se dirija a uma <em>pr&#xE1;tica decis&#xF3;ria</em> que deve ser revelada a partir do estudo indutivo de uma s&#xE9;rie de decis&#xF5;es particulares. Entendemos, assim, que esta abordagem trata um conjunto de decis&#xF5;es sobre um certo tema como uma pr&#xE1;tica discursiva e que o resultado aponta para eventuais conclus&#xF5;es sobre a estrutura dessa pr&#xE1;tica. Portanto, um dos desafios para o uso dessa abordagem &#xE9; justificar, a partir da pesquisa explorat&#xF3;ria, a viabilidade de tratar um conjunto de decis&#xF5;es como sendo um sistema, e n&#xE3;o apenas um somat&#xF3;rio de decis&#xF5;es (cujo conjunto pode n&#xE3;o formar um sistema).</p><h4 id="2-4-2-an-lise-emp-rico-ret-rica-do-discurso-jur-dico-aerd-">2.4.2 An&#xE1;lise Emp&#xED;rico-Ret&#xF3;rica Do Discurso Jur&#xED;dico (AERD)</h4><p>Essa &#xE9; uma abordagem desenvolvida por Issac Reis, que &#xE9; pesquisador no Grupo de Pesquisa Ret&#xF3;rica Argumenta&#xE7;&#xE3;o e Juridicidades da UnB. &#xA0;Isaac Reis esclarece que, tal com a An&#xE1;lise do Discurso, a AERD n&#xE3;o est&#xE1; interessada &quot;em sentidos ocultos ou na inten&#xE7;&#xE3;o do orador, mas nos textos mesmos&quot; (Reis 2015), mas nos efeitos ret&#xF3;ricos que uma decis&#xE3;o pode produzir em seu audit&#xF3;rio (Reis 2018).</p><p>O primeiro passo dessa metodologia &#xE9; definir o objeto emp&#xED;rico, que &#xE9; constitu&#xED;do por uma decis&#xE3;o, ou por um pequeno conjunto de decis&#xF5;es, que Reis denomina de <em>corpus</em> de pesquisa (Reis 2018). &#xA0;Como a AERD prop&#xF5;e um tratamento que consome muito tempo para cada decis&#xE3;o, n&#xE3;o &#xE9; vi&#xE1;vel ampliar muito esse corpus.</p><p>O segundo passo, antes mesmo da an&#xE1;lise minuciosa da decis&#xE3;o, &#xE9; a compreens&#xE3;o do seu contexto, n&#xE3;o em busca de compreender suas conex&#xF5;es sociais e pol&#xED;ticas (o que apontaria para outros tipos de abordagem, mais sociol&#xF3;gicos), mas para entender o contexto ret&#xF3;rico que envolveu a formula&#xE7;&#xE3;o do discurso. Como o objetivo &#xE9; compreender os efeitos ret&#xF3;ricos da decis&#xE3;o no audit&#xF3;rio, &#xE9; preciso mapear previamente as concep&#xE7;&#xF5;es desse audit&#xF3;rio e das regras discursivas vigentes.</p><p>Somente depois de fixado o contexto, passa-se &#xE0; <em>leitura explorat&#xF3;ria</em> do corpus (para que o pesquisador formule um mapeamento geral do texto), seguida de uma <em>leitura ret&#xF3;rica</em>, voltada a identificar e classificar as estrat&#xE9;gias ret&#xF3;ricas envolvidas no texto. Uma das maiores contribui&#xE7;&#xF5;es desta metodologia &#xE9; oferecer categorias para que o pesquisador possa fazer essa <em>an&#xE1;lise ret&#xF3;rica</em>, classificando cada um dos argumentos a partir de uma triparti&#xE7;&#xE3;o de tipos de estrat&#xE9;gias:</p><ol><li>As estrat&#xE9;gias de <em>ethos</em> se voltam a persuadir o audit&#xF3;rio por meio de caracter&#xED;sticas do seu emissor (seu prest&#xED;gio, sua legitimidade, sua compet&#xEA;ncia, sua experi&#xEA;ncia, etc.).</li><li>As estrat&#xE9;gias de <em>pathos</em> apontam para a mobiliza&#xE7;&#xE3;o emocional do audit&#xF3;rio, forjando identidades, estimulando medos e desejos, manipulando as emo&#xE7;&#xF5;es do ouvinte.</li><li>As estrat&#xE9;gias de <em>logos</em> buscam afirmar-se como interpreta&#xE7;&#xF5;es objetivas e racionais, atentando para a coer&#xEA;ncia l&#xF3;gica.</li></ol><p>Essa triparti&#xE7;&#xE3;o, como toda divis&#xE3;o, tem seus limites. Por&#xE9;m, a sua fun&#xE7;&#xE3;o na metodologia &#xE9; evitar simplifica&#xE7;&#xF5;es, pois a exist&#xEA;ncia de tr&#xEA;s dimens&#xF5;es a serem analisadas simultaneamente gera a possiblidade de cruzamentos e tens&#xF5;es entre elas.</p><p>Reis sugere ent&#xE3;o uma <em>segunda leitura ret&#xF3;rica</em>, que n&#xE3;o &#xE9; voltada a classificar os argumentos nas 3 dimens&#xF5;es (o que foi feito na primeira leitura), mas classificar que tipo espec&#xED;fico de argumento foi usado (demonstra&#xE7;&#xF5;es de erudi&#xE7;&#xE3;o, dedu&#xE7;&#xF5;es, refer&#xEA;ncias a fatos, perguntas ret&#xF3;ricas, etc.), viabilizando a cria&#xE7;&#xE3;o de um <em>mapa ret&#xF3;rico</em> no qual estejam indicados os tipos de argumento usados, os lugares em que ocorrem e as dimens&#xF5;es a que se ligam. Esse mapa &#xE9; o resultado do levantamento de dados, e a parte anal&#xED;tica da pesquisa se d&#xE1; a partir da interpreta&#xE7;&#xE3;o desse mapa.</p><p>Uma an&#xE1;lise da metodologia indica que ela oferece um quadro conceitual que permite um mapeamento dos argumentos contidos em uma decis&#xE3;o, oferecendo com isso um instrumento voltado a identificar elementos qualitativos (que estrat&#xE9;gias foram usadas?) e quantitativos (que estrat&#xE9;gias foram recorrentes?) que podem auxiliar o pesquisador a produzir uma narrativa que confira um entendimento da decis&#xE3;o enquanto conjunto de elementos ret&#xF3;ricos. Assim, em vez de comparar os conte&#xFA;dos das decis&#xF5;es, as interpreta&#xE7;&#xF5;es que elas trazem, a metodologia AERD oferece a base para uma descri&#xE7;&#xE3;o diferente da decis&#xE3;o, focada os padr&#xF5;es argumentativos que o m&#xE9;todo evidencia.</p><h2 id="3-entrevistas">3. Entrevistas</h2><p>Para poder fazer pesquisas de dados, &#xE9; preciso coletar os dados. No caso de pesquisas sobre processos e decis&#xF5;es, o esfor&#xE7;o envolvido est&#xE1; na identifica&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias por meio das quais &#xE9; poss&#xED;vel ter acesso aos dados dispon&#xED;veis e convert&#xEA;-los em informa&#xE7;&#xF5;es relevantes, por meio de medidas e de classifica&#xE7;&#xF5;es. Por&#xE9;m, em v&#xE1;rios casos n&#xE3;o queremos descobrir <em>como as coisas s&#xE3;o</em>, mas <em>como elas s&#xE3;o percebidas</em>.</p><p>Nessas situa&#xE7;&#xF5;es (como das inten&#xE7;&#xF5;es de voto ou das percep&#xE7;&#xF5;es acerca da democracia), precisamos desenvolver estrat&#xE9;gias para descobrir os interesses, as pretens&#xF5;es, os desejos das pessoas. Isso pode ser feito de modo indireto, por meio da observa&#xE7;&#xE3;o de fatos que consideramos <em>ind&#xED;cios</em> de uma certa percep&#xE7;&#xE3;o: podemos, por exemplo, investigar a origem social dos ju&#xED;zes e a sua trajet&#xF3;ria profissional, com o objetivo de compreender melhor os seus valores e cren&#xE7;as. Mas essa busca pode ser feita tamb&#xE9;m de modo direto: por meio de entrevistas, em que se pergunta como as pessoas enxergam determinados assuntos, como elas narram certas hist&#xF3;rias.</p><p>O potencial das entrevistas est&#xE1; nesse acesso direto &#xE0;s percep&#xE7;&#xF5;es das pessoas. E o limite das entrevistas est&#xE1; a&#xED; tamb&#xE9;m: elas nos dizem pouco sobre como as coisas efetivamente ocorreram, visto que a dist&#xE2;ncia entre fatos e percep&#xE7;&#xF5;es pode ser muito grande. Quem pretende identificar como os ju&#xED;zes atuam na pr&#xE1;tica, tem pouco a ganhar fazendo entrevistas com os ju&#xED;zes, pois esse tipo de estrat&#xE9;gia mostra menos sobre o mundo do que sobre as <em>vis&#xF5;es de mundo</em> dos ju&#xED;zes.</p><p>Entrevistas podem ser elementos muito relevantes de pesquisa, mas elas devem ser sempre utilizadas com cuidado, quando o objetivo &#xE9; compreender as conex&#xF5;es entre os fatos e n&#xE3;o as suas percep&#xE7;&#xF5;es por um certo grupo. Historiadores enfrentam a dificuldade de reconstituir os fatos a partir de uma s&#xE9;rie de <em>narrativas</em>, todas elas contextuais e muitas vezes comprometidas com a defesa de determinadas perspectivas. Essa passagem das narrativas para os fatos &#xE9; sempre imperfeita, mas, na pesquisa hist&#xF3;rica, &#xE9; um dos meios principais de acesso a fatos que ocorreram e somente permanecem registrados em algumas narrativas, tipicamente escritas.</p><p>Por esse motivo, entrevistas tendem a ser excelentes fontes de <em>pesquisa explorat&#xF3;ria</em>, pois permite incorporar os <em>insights</em> e as interpreta&#xE7;&#xF5;es das pessoas envolvidas, que s&#xE3;o fatores primordiais para o desenho de uma pesquisa conclusiva. Por&#xE9;m, no caso de uma pesquisa que pretenda ser conclusiva, as entrevistas precisam ser utilizadas com cuidado e as suas conclus&#xF5;es precisam sempre ser bem dimensionadas, para que se evite utilizar <em>percep&#xE7;&#xF5;es individuais</em> como ind&#xED;cios de que os fatos efetivamente ocorreram de acordo com a percep&#xE7;&#xE3;o dos entrevistados.</p><p>Outra dificuldade muito grande nas entrevistas &#xE9; que pode ser muito dif&#xED;cil tirar uma conclus&#xE3;o a partir delas, visto que <em>entrevistas livres</em> (nas quais as perguntas s&#xE3;o constru&#xED;das ao longo da intera&#xE7;&#xE3;o) tendem a gerar estruturas muito heterog&#xEA;neas. Cada pessoa falar&#xE1; dos temas que lhe s&#xE3;o mais caros e, com isso, torna-se muito dif&#xED;cil fazer uma an&#xE1;lise comparativa dos resultados de um s&#xE9;rie de entrevistas.</p><p>Para aumentar o grau de padroniza&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; poss&#xED;vel fazer um roteiro com algumas perguntas centrais que ser&#xE3;o sempre repetidas (e que fornecem as bases para uma an&#xE1;lise comparativa), mas com uma parte da entrevista livre, tornando admiss&#xED;vel a apresenta&#xE7;&#xE3;o de questionamentos livres, que explorem as narrativas que v&#xE3;o sendo expostas pelos entrevistados.</p><p>Por&#xE9;m, nos casos em que a metodologia das pesquisas envolve uma an&#xE1;lise comparativa mais r&#xED;gida das respostas, &#xE9; comum que seja necess&#xE1;rio repetir o mesmo roteiro com cada entrevistado. Isso acontece porque a inser&#xE7;&#xE3;o de perguntas livres (e mesmo a simples modifica&#xE7;&#xE3;o na ordem das perguntas) altera a pr&#xF3;pria experi&#xEA;ncia e pode conduzir a modifica&#xE7;&#xF5;es nos padr&#xF5;es das respostas anteriores. Imagine, por exemplo, uma entrevista voltada a identificar a inten&#xE7;&#xE3;o de voto no qual os entrevistadores comecem perguntando sobre a ideologia pol&#xED;tica da pessoa, sobre suas posturas pessoais, e depois sobre os candidatos. Provavelmente, os resultados seriam diferentes se a pesquisa come&#xE7;asse perguntando sobre os candidatos preferidos e somente depois sobre a identidade ideol&#xF3;gica do entrevistado.</p><p>As diferen&#xE7;as introduzidas pela falta de padroniza&#xE7;&#xE3;o pode n&#xE3;o ser t&#xE3;o grandes, mas pode ser suficiente para modificar substancialmente os resultados de uma pesquisa em que 5% de diferen&#xE7;a &#xE9; algo bastante substancial. Nesses casos, o indicado &#xE9; a realiza&#xE7;&#xE3;o de entrevistas <em>estruturadas</em>, nas quais o entrevistado &#xE9; submetido a um question&#xE1;rio padr&#xE3;o.</p><h2 id="4-question-rios">4. Question&#xE1;rios</h2><p>Embora a estrutura&#xE7;&#xE3;o das perguntas sirva para tornar as entrevistas mais padronizadas, ela n&#xE3;o garante uma padroniza&#xE7;&#xE3;o nas respostas. Um roteiro id&#xEA;ntico de perguntas abertas pode ser muito &#xFA;til para identificar narrativas complexas, ligadas a pesquisas <em>qualitativas</em>, mas &#xE9; pouco &#xFA;til quando se trata de oferecer respostas estruturadas, que sejam base adequada para a constru&#xE7;&#xE3;o de bancos de dados para pesquisas quantitativas.</p><p>Para tornar respostas mais padronizadas (e por isso mesmo pass&#xED;veis de an&#xE1;lise quantitativa), o pesquisador tamb&#xE9;m pode oferecer aos entrevistados perguntas nas quais n&#xE3;o se espera uma <em>narrativa</em>, mas apenas o oferecimento de dados simples ou a escolha de algumas op&#xE7;&#xF5;es determinadas pelo <em>question&#xE1;rio</em>. Em vez de perguntar o que o entrevistado viu ou sabe, &#xE9; poss&#xED;vel fazer perguntas em que a possibilidade do entrevistado seja apenas o de escolher entre algumas alternativas, definidas pelo pesquisador. Com isso, as categorias que definem a resposta n&#xE3;o s&#xE3;o as do entrevistado, mas aquelas escolhidas pelo entrevistador.</p><p>Quando isso ocorre, o foco deixa de ser a intera&#xE7;&#xE3;o <em>entrevistador/entrevistado</em>, e passa a ser a aplica&#xE7;&#xE3;o de um question&#xE1;rio predefinido, que n&#xE3;o tem apenas perguntas estruturadas, mas tamb&#xE9;m tem respostas estruturadas. A aplica&#xE7;&#xE3;o desse tipo de question&#xE1;rio &#xE9; normalmente realizada como parte de uma <em>pesquisa survey</em> (ou apenas <em>survey</em>), que &#xE9; uma t&#xE9;cnica adaptada a servir como <em>coleta de dados</em> para serem trabalhados a partir de metodologias quantitativas. Por esse motivo, a <em>survey</em> j&#xE1; &#xE9; conduzida para obter dados acerca de uma amostra determinada pelo modelo estat&#xED;stico utilizado na pesquisa.</p><p>Por&#xE9;m, &#xE9; preciso ter em mente que o <em>survey</em> &#xE9; muito pr&#xF3;ximo das entrevistas, pois ele n&#xE3;o nos oferece um acesso direto aos dados, e sim &#xE0; percep&#xE7;&#xE3;o que algumas pessoas t&#xEA;m. Quando perguntamos qual &#xE9; o g&#xEA;nero de uma pessoa, ou qual &#xE9; a sua cor, a resposta &#xE9; inevitavelmente um posicionamento pessoal sobre essa quest&#xE3;o, motivo pelo qual todo question&#xE1;rio levanta dados acerca de opini&#xF5;es, prefer&#xEA;ncias ou perspectivas. Assim, nas pesquisas que pretendem estabelecer modelos descritivos ou explicativos sobre fatos, a coleta de dados via entrevista ou <em>survey</em> deve sempre ser acompanhada por outros m&#xE9;todos, que apontem mais diretamente para a distin&#xE7;&#xE3;o entre as percep&#xE7;&#xF5;es e os fatos e, no caso espec&#xED;fico do direito, entre o que se diz e o que se faz.</p><h2 id="5-observa-o-participante">5. Observa&#xE7;&#xE3;o Participante</h2><p>Os m&#xE9;todos de observa&#xE7;&#xE3;o participante s&#xE3;o ligados especialmente &#xE0;s abordagens antropol&#xF3;gicas, que buscam compreender as rela&#xE7;&#xF5;es sociais existentes em um determinado grupo. Trata-se de uma abordagem <em>imersiva</em>, no sentido de que o pesquisador precisa estar imerso nas rela&#xE7;&#xF5;es sociais que se busca compreender, e que exige um grande investimento de tempo, visto que n&#xE3;o se trata de buscar informa&#xE7;&#xF5;es concentradas, mas de observar uma s&#xE9;rie de intera&#xE7;&#xF5;es sociais relativamente dispersas, e buscar elementos que permitam compreender o seu significado.</p><p>Esse foco no significado, na atribui&#xE7;&#xE3;o de sentido narrativo a uma pr&#xE1;tica social, coloca a observa&#xE7;&#xE3;o participante como uma das abordagens propriamente <em>qualitativas</em>, visto que ela &#xE9; voltada especificamente a buscar dados que n&#xE3;o s&#xE3;o quantific&#xE1;veis: pap&#xE9;is sociais desempenhados, tipos de conceitos utilizados, significados atribu&#xED;dos a determinados atos.</p><p>Trata-se de uma abordagem que consome um tempo muito grande e que coloca o pesquisador em contato com as rela&#xE7;&#xF5;es sociais que se busca compreender no ambiente no qual elas s&#xE3;o efetivamente realizadas. No oposto do controle artificial obtido pelo experimento, a observa&#xE7;&#xE3;o participante busca ter acesso ao modo pelo qual essas rela&#xE7;&#xF5;es operam, com o m&#xED;nimo poss&#xED;vel de interven&#xE7;&#xE3;o do pesquisador.</p><p>Esse tipo de abordagem teve not&#xE1;vel desenvolvimento na antropologia porque n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel observar as rela&#xE7;&#xF5;es sociais a partir de fora, especialmente com rela&#xE7;&#xE3;o a culturas em que somos estrangeiros. A simples presen&#xE7;a de um observador externo possa alterar o comportamento das pessoas, gerando intera&#xE7;&#xF5;es muito diferentes daquelas que ocorreriam de forma espont&#xE2;nea, em um ambiente composto apenas por membros da comunidade. A observa&#xE7;&#xE3;o participante tenta minimizar esse impacto por meio de uma presen&#xE7;a constante e, na medida do poss&#xED;vel, inserida nas atividades sociais que se busca compreender.</p><p>Ao tornar o observador um <em>participante</em> da pr&#xF3;pria atividade, ficam relativamente borradas as distin&#xE7;&#xF5;es externo/interno do pr&#xF3;prio pesquisador, o que tende a minimizar o impacto que a sua presen&#xE7;a tem nos comportamentos e, com isso, possibilita uma observa&#xE7;&#xE3;o de intera&#xE7;&#xF5;es sociais que n&#xE3;o podem ser acessadas por outras abordagens, como entrevistas ou observa&#xE7;&#xF5;es externas. &#xA0;Nas palavras do antrop&#xF3;logo Malinowski, tratava-se de conviver e a &#x201C;ter contato o mais &#xED;ntimo poss&#xED;vel com os nativos&#x201D;; ou, na verdade, a viver &#x201C;como um nativo entre os nativos&#x201D; (<a href="https://www.zotero.org/alexandrearcos/items/BZB2DAFB/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Lupetti Baptista, 2017</a>), a tal ponto que se pudesse ter acesso a uma express&#xE3;o social espont&#xE2;nea (ou quase).</p><p>Quando o pesquisador se torna um dos participantes das rela&#xE7;&#xF5;es sociais que s&#xE3;o seu objeto de pesquisa, ele se torna diretamente &#xA0;&quot;afetado&quot; pelas intera&#xE7;&#xF5;es em que ele est&#xE1; mergulhado, o que faz com que essa abordagem seja menos vista como uma &quot;coleta de dados&quot; do que como uma &quot;viv&#xEA;ncia&quot; (<a href="https://www.zotero.org/alexandrearcos/items/BZB2DAFB/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Lupetti Baptista &#xA0;2017</a>). &quot;Imers&#xE3;o&quot; e &quot;afeta&#xE7;&#xE3;o&quot; s&#xE3;o conceitos chave desse tipo de experi&#xEA;ncia, estabelecendo suas potencialidades e limites. Por um lado, essa afeta&#xE7;&#xE3;o direta permite que o pesquisador perceba elementos que n&#xE3;o seriam acess&#xED;veis de outro modo. Por outro, esse mergulho sens&#xED;vel em uma rede de rela&#xE7;&#xF5;es pode limitar muito a capacidade de o pesquisador ser um observador isento dessas rela&#xE7;&#xF5;es, visto que ele pode ter suas conclus&#xF5;es muito impactadas pelo lugar que ele ocupou nessas rela&#xE7;&#xF5;es.</p><p>Esse equil&#xED;brio prec&#xE1;rio faz com que o exerc&#xED;cio da observa&#xE7;&#xE3;o participante exija um esfor&#xE7;o constante de reflex&#xE3;o, em que as intera&#xE7;&#xF5;es observadas sejam sempre problematizadas, em busca de compreender o seu significado social, para al&#xE9;m do significado que as pessoas que vivenciam a experi&#xEA;ncia atribuem a ela. N&#xE3;o existe uma metodologia muito definida, pois a compreens&#xE3;o das rela&#xE7;&#xF5;es est&#xE1; mais relacionada &#xE0; experi&#xEA;ncia direta e imersiva do pesquisador do que &#xE0; observa&#xE7;&#xE3;o de um conjunto de regras ou de passos a seguir. Como afirma Lupetti Baptista (<a href="https://www.zotero.org/alexandrearcos/items/BZB2DAFB/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2017</a>),</p><blockquote>&quot;sempre respondo a meus ansiosos orientandos e orientandas, &#xE1;vidos por respostas de sobre &apos;como se comportar em campo&apos; ou &apos;o que devo fazer diante do meu interlocutor(?)&apos;. Digo a eles(as) sempre: &apos;Comece logo o trabalho de campo&apos;. E eles(as) retrucam: &apos;Mas como?&apos;. E eu, de novo: Indo a campo.</blockquote><p>Isso n&#xE3;o quer dizer que se pode ir a campo sem ter qualquer preparo, mas apenas que n&#xE3;o h&#xE1; um algoritmo a ser seguido. Por isso, a pr&#xF3;pria metodologia indicada no trabalho n&#xE3;o pode ser t&#xE3;o precisa como em outras abordagens, nas quais se exige uma descri&#xE7;&#xE3;o minuciosa das vari&#xE1;veis, dos dados a serem coletados, dos modos pelos quais eles ser&#xE3;o processados. O estudante pode perceber essa imprecis&#xE3;o como um ganho (pois torna desnecess&#xE1;rio fazer essas escolhas ainda no projeto), mas o fato &#xE9; que representa um grande desafio: a abordagem ser&#xE1; definida ao longo da empreitada, de tal modo que n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel diferenciar o desenho da pesquisa, a coleta de dados e a an&#xE1;lise. Tudo &#xE9; feito ao mesmo tempo e, por isso, toda a pesquisa fica constantemente em aberto, exigindo muitas idas e vindas, muitas redefini&#xE7;&#xF5;es, muitas altera&#xE7;&#xF5;es de percurso: em suma, muito tempo de dedica&#xE7;&#xE3;o. Um tempo que n&#xE3;o se mede em semanas, mas em meses ou mesmo em anos.</p><p>Esse exerc&#xED;cio &#xE9; bem diferente daquele ao qual os juristas s&#xE3;o treinados: uma constante de problematiza&#xE7;&#xE3;o (em vez da busca por respostas), duvidar das interpreta&#xE7;&#xF5;es &#xF3;bvias (em vez de buscar argumentos retoricamente eficientes), ser c&#xE9;tico com ela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s pr&#xF3;prias interpreta&#xE7;&#xF5;es (em vez de defender as pr&#xF3;prias opini&#xF5;es a todo custo), ser claro com rela&#xE7;&#xE3;o aos limites das interpreta&#xE7;&#xF5;es propostas (em vez de apresentar apenas os argumentos favor&#xE1;veis &#xE0; sua tese).</p><p>Essa grande distin&#xE7;&#xE3;o com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s habilidades t&#xED;picas dos juristas torna esse tipo de trabalho de campo desafiador e potencialmente transformador. &#xA0;Apesar do interesse que pode ser despertado por essa possibilidade de trilhar caminhos t&#xE3;o diferentes, &#xE9; preciso ter alguns cuidados na decis&#xE3;o de optar por um m&#xE9;todo desse tipo.</p><p>O primeiro &#xE9; a quest&#xE3;o do tempo, pois a atividade imersiva normalmente exige um investimento muito grande de tempo no trabalho de campo, pois &#xE9; preciso estar imerso nas rela&#xE7;&#xF5;es que se pretende avaliar. Esse tempo &#xE9; muitas vezes incompat&#xED;vel com um mestrado que n&#xE3;o tenha dedica&#xE7;&#xE3;o exclusiva, e uma observa&#xE7;&#xE3;o participante muito r&#xE1;pida tende a n&#xE3;o ter bons resultados.</p><p>Por vezes, essa dificuldade &#xE9; enfrentada por meio da realiza&#xE7;&#xE3;o de uma observa&#xE7;&#xE3;o participante dentro do pr&#xF3;prio ambiente de trabalho, no qual o pesquisador j&#xE1; est&#xE1; imerso. Essa &#xE9; uma op&#xE7;&#xE3;o que, em vez de facilitar as coisas, torna-as mais dif&#xED;ceis, pois &#xE9; extremamente dif&#xED;cil ter um olhar cr&#xED;tico sobre rela&#xE7;&#xF5;es sociais nas quais j&#xE1; estamos inseridos. A abordagem da observa&#xE7;&#xE3;o participante exige, ao mesmo tempo, a proximidade da participa&#xE7;&#xE3;o e o distanciamento do observador, sob o risco de que as explica&#xE7;&#xF5;es geradas pela pesquisa sejam justamente as percep&#xE7;&#xF5;es dominantes no grupo analisado.</p><p>A riqueza da observa&#xE7;&#xE3;o participante est&#xE1; nesse cruzamento de pontos de vistas, de modos diferentes de observa&#xE7;&#xE3;o, que permitem um olhar cr&#xED;tico sobre as intera&#xE7;&#xF5;es sociais observadas/vividas. N&#xE3;o &#xE9; razo&#xE1;vel que se fa&#xE7;a uma observa&#xE7;&#xE3;o participante quando se ocupa um lugar de protagonismo nas rela&#xE7;&#xF5;es sociais observadas, como seria o caso de um juiz fazendo esse tipo de an&#xE1;lise sobre as suas pr&#xF3;prias audi&#xEA;ncias. Em se tratando de participantes sem protagonismo evidente (como o de servidores lotados em um gabinete), &#xE9; dif&#xED;cil alcan&#xE7;ar o distanciamento necess&#xE1;rio para que causem <em>estranheza</em> certas formas de organiza&#xE7;&#xE3;o social que s&#xE3;o muito familiares. Nas palavras de Luppeti Baptista, &#xE9; desafiador &quot;estabelecer a necess&#xE1;ria dist&#xE2;ncia para desnaturalizar e avaliar, com certa objetividade, os dados e as representa&#xE7;&#xF5;es vivenciadas no campo&quot; (<a href="https://www.zotero.org/alexandrearcos/items/BZB2DAFB/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2017</a>). Esse trabalho n&#xE3;o &#xE9; imposs&#xED;vel, mas tem de ser enfrentado com muito cuidado, para ter resultados interessantes.</p><p>Tamb&#xE9;m &#xE9; preciso levar em conta que a realiza&#xE7;&#xE3;o de uma observa&#xE7;&#xE3;o participante no pr&#xF3;prio lugar de trabalho (ou na pr&#xF3;pria fam&#xED;lia, ou na pr&#xF3;pria institui&#xE7;&#xE3;o de estudo ou em outros grupos em que se est&#xE1; inserido) pode gerar situa&#xE7;&#xF5;es insustent&#xE1;veis, visto que a an&#xE1;lise cr&#xED;tica das posi&#xE7;&#xF5;es dos superiores hier&#xE1;rquicos e tamb&#xE9;m dos colegas tem o potencial de gerar consequ&#xEA;ncias indesej&#xE1;veis para o pesquisador. Essa peculiaridade pode limitar bastante o potencial cr&#xED;tico do trabalho, seja porque o pesquisador pode ter dificuldades para desenvolver e enunciar cr&#xED;ticas a seus superiores (ou a seus companheiros), seja porque a familiaridade com as pessoas pode ser um &#xF3;bice para uma an&#xE1;lise mais profunda das rela&#xE7;&#xF5;es em que elas est&#xE3;o inseridas. Por tudo isso, &#xE9; mais adequado fazer esse tipo de abordagem em contextos nos quais voc&#xEA; &#xE9; &quot;estrangeiro&quot; e dos quais voc&#xEA; n&#xE3;o far&#xE1; mais parte depois da pesquisa.</p><p>Al&#xE9;m disso, n&#xE3;o tem sentido pr&#xE1;tico adotar uma abordagem desse tipo para acessar informa&#xE7;&#xF5;es que poderiam ser obtidas de outra forma: por observa&#xE7;&#xF5;es externas dos comportamentos, por an&#xE1;lises de dados, por <em>surveys</em> ou por entrevistas. Por&#xE9;m, quando o foco da pesquisa &#xE9; na compreens&#xE3;o de aspectos fortemente qualitativos (como, por exemplo, a rela&#xE7;&#xE3;o entre os ministros e seus assessores, ou entre os servidores de um gabinete e os seus chefes), essa pode ser uma op&#xE7;&#xE3;o justificada.</p><h2 id="6-grupo-focal">6. Grupo focal</h2><p>O grupo focal &#xE9; uma esp&#xE9;cie de intera&#xE7;&#xE3;o dial&#xF3;gica realizada coletivamente, o que gera resultados diversos das entrevistas individuais. Entrevistas individuais geram uma rela&#xE7;&#xE3;o bilateral, entrevistador/entrevistado. Nos grupos focais, al&#xE9;m dessa intera&#xE7;&#xE3;o do mediador com os participantes, existem uma s&#xE9;rie de influxos que derivam das intera&#xE7;&#xF5;es que ocorrem entre os pr&#xF3;prios participantes.</p><p>Essa intera&#xE7;&#xE3;o complexa tem a potencialidade de gerar resultados diferentes de uma multiplicidade de entrevistas simples. Assim como m&#xFA;ltiplas aulas individuais, em regime de tutoria, t&#xEA;m um resultado diferente de uma aula com muitos alunos, pois essa altera&#xE7;&#xE3;o <em>demogr&#xE1;fica</em> modifica a maneira como as pessoas se comportam.</p><p>Existe o fato de que algumas pessoas que n&#xE3;o falariam isoladamente sobre certos temas, podem se sentir seguras (ou at&#xE9; mesmo encorajadas) quando observam outras pessoas falando de suas pr&#xF3;prias experi&#xEA;ncias. &#xA0;Por&#xE9;m, o elemento mais relevante &#xE9; que um grupo em que os participantes tenham certas identidades pode servir como espa&#xE7;o no qual aflorem certas intera&#xE7;&#xF5;es espont&#xE2;neas que seriam imposs&#xED;veis no contato direto entre o entrevistado e o entrevistador (que &#xE9; sempre um &quot;estrangeiro&quot;).</p><p>O grupo focal pode ser usado como uma forma de produzir rea&#xE7;&#xF5;es mais espont&#xE2;neas do que uma entrevista, mas de uma forma mais <em>intensiva</em> do que a abordagem <em>extensiva</em> da observa&#xE7;&#xE3;o participante. Como afirmam Krueger e Casey (citados por <a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/3E4A3SMG/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Braga e Angotti 2017</a>), existe a percep&#xE7;&#xE3;o de que &quot;as pessoas revelavam informa&#xE7;&#xF5;es delicadas quando se sentiam em seguran&#xE7;a, em lugar confort&#xE1;vel, ao lado de pessoas como elas&quot;.</p><p>Essas peculiaridades exigem dos pesquisadores que tenham uma prepara&#xE7;&#xE3;o para lidar com grupos e para criar o ambiente de seguran&#xE7;a no qual os di&#xE1;logos possam aflorar de modo t&#xE3;o espont&#xE2;neo quanto poss&#xED;vel. Assim, n&#xE3;o faz sentido organizar um grupo focal com uma entrevista muito estruturada, visto que a riqueza das intera&#xE7;&#xF5;es teria pouco espa&#xE7;o para dar resultados mais ricos. Nesse caso, o resultados seria mais pr&#xF3;ximo de uma entrevista coletiva, em que o condutor desempenha um protagonismo muito grande. No grupo focal, o mediador precisa ter o cuidado de conduzir os debates com algum foco, sem o que o tempo dispon&#xED;vel pode ser esgotado (sem que os temas relevantes venham a ser debatidos), mas sem se tornar o centro do discurso (sem o que a riqueza dos di&#xE1;logos pode ser comprometida).</p><p>Braga e Angotti, por exemplo, realizaram grupos focais em uma pesquisa sobre a maternidade no c&#xE1;rcere (chamada Dar luz &#xE0; Sombra), tanto pelas potencialidades espec&#xED;ficas do grupo focal, quanto pela economia de tempo envolvida no contato simult&#xE2;neo com muitas pessoas (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/3E4A3SMG/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2017</a>). Consideradas as dificuldades de conseguir autoriza&#xE7;&#xF5;es para realizar entrevistas individuais com as detentas, o grupo focal se mostrou uma op&#xE7;&#xE3;o que conseguia alcan&#xE7;ar os objetivos da pesquisa de forma mais eficiente e porque viabilizava as intera&#xE7;&#xF5;es dial&#xF3;gicas entre as mulheres presas.</p><p>Por&#xE9;m, tanto na pesquisa de Braga e Angotti como em outras, &#xE9; comum que o grupo focal seja aplicado em coordena&#xE7;&#xE3;o com outros tipos de abordagem (como entrevistas e coletas de dados em documentos), para gerar um conjunto de informa&#xE7;&#xF5;es que seja apta a ser interpretada de forma mais densa pelos pesquisadores.</p><p>Assim como nas entrevistas, o grupo focal tem por objetivo a identifica&#xE7;&#xE3;o de <em>percep&#xE7;&#xF5;es</em>, de modo que n&#xE3;o tendem a gerar resultados conclusivos. Por&#xE9;m, podem ser extremamente &#xFA;teis tanto como parte de uma pesquisa explorat&#xF3;ria ou como elemento voltado a identificar algumas percep&#xE7;&#xF5;es transversais em determinados grupos.</p><h2 id="7-a-pesquisa-sobre-a-pesquisa-a-produ-o-acad-mica-como-objeto-de-pesquisa">7. A pesquisa sobre a pesquisa: a produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica como objeto de pesquisa</h2><p>Quando existe um conjunto suficientemente denso de investiga&#xE7;&#xF5;es cient&#xED;ficas sobre um determinado tema, passa a ser relevante investigar as diversas publica&#xE7;&#xF5;es dispon&#xED;veis, para avaliar a qualidade das pesquisas e para identificar os pontos de converg&#xEA;ncia e diverg&#xEA;ncia.</p><p>Esse tipo de meta-an&#xE1;lise (ou seja, de uma an&#xE1;lise de an&#xE1;lises, e n&#xE3;o de fatos) tem uma grande relev&#xE2;ncia para um campo de conhecimento, visto que ela contribui decisivamente para o mapeamento dos discursos existentes e para a constru&#xE7;&#xE3;o de uma certa sistematicidade.</p><p>No campo das publica&#xE7;&#xF5;es cient&#xED;ficas, &#xE9; comum diferenciar o que &#xE9; um <em>research article</em> (ou seja, um artigo que publica resultados de pesquisas originais) e o que &#xE9; um <em>review article</em> (ou seja, artigo de revis&#xE3;o), que faz revis&#xF5;es de literatura, em suas v&#xE1;rias formas.</p><p>No direito, essas estrat&#xE9;gias ainda s&#xE3;o de dif&#xED;cil aplica&#xE7;&#xE3;o, visto que tipicamente n&#xE3;o h&#xE1; uma base suficientemente ampla e densa de pesquisas emp&#xED;ricas sobre um determinado tema, que justifique a necessidade de um estudo desse tipo para poder mapear um campo.</p><p>Inobstante, j&#xE1; come&#xE7;amos a ter estudos desse tipo: &#xA0;Duarte e outros escreveram um artigo intitulado O<a href="https://www.academia.edu/38266829/O_Sistema_de_Justi%C3%A7a_na_Ci%C3%AAncia_Pol%C3%ADtica_Brasileira_uma_an%C3%A1lise_da_literatura_The_Judicial_System_in_Brazilian_Political_Science_A_Literature_Review_?ref=metodologia.agu.arcos.org.br"> Sistema de Justi&#xE7;a na Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica Brasileira: uma an&#xE1;lise da literatura</a>, no qual fazem um levantamento dos artigos de ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica sobre o sistema de justi&#xE7;a e aplicam a esse conjunto de dados uma t&#xE9;cnica de <em>clusteriza&#xE7;&#xE3;o</em> (programas que dividem um conjunto &#xA0;de textos em <em>clusters</em>, ou seja, em grupos com caracter&#xED;sticas comuns), baseados nas refer&#xEA;ncias bibliogr&#xE1;ficas dessas publica&#xE7;&#xF5;es. O artigo identifica que n&#xE3;o h&#xE1; padr&#xF5;es claros de distribui&#xE7;&#xE3;o das refer&#xEA;ncias, que n&#xE3;o formam clusters significativos, o que sugere que elas n&#xE3;o estabelecem um di&#xE1;logo muito grande entre si, exceto no campo da literatura sobre Justi&#xE7;a Eleitoral.</p><h3 id="7-1-bibliometria">7.1 Bibliometria</h3><p>O referido artigo de Duarte e outros afirma que se utiliza de t&#xE9;cnicas de <em>bibliometria</em>, ou seja, de abordagens quantitativas que mensuram certas rela&#xE7;&#xF5;es entre os textos. Desde que a &#xE1;rea de estat&#xED;stica aplicada &#xE0; economia veio a ser chamada de <em>econometria</em>, outros campos de abordagens quantitativas tamb&#xE9;m passaram a construir seus nomes a partir dessa mesma l&#xF3;gica de identificar um objeto (economia, direito, publica&#xE7;&#xF5;es, ci&#xEA;ncia) e acrescentar o sufixo &quot;metria&quot;, gerando neologismos como <em>bibliometria</em> (<em>bibliometrics</em>), <em>jurimetria</em> (<em>jurimetrics</em>), cientometria (<em>scientometrics</em>).</p><p>Para compreender melhor a bibliometria, h&#xE1; boas refer&#xEA;ncias no artigo <em><a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/SDER5KQW/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Bibliometric Basics</a></em>, de Diane Cooper (2015), na <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Bibliometrics?ref=metodologia.agu.arcos.org.br#:~:text=Bibliometrics%20is%20the%20use%20of,scientific%20publications%20is%20called%20scientometrics.">p&#xE1;gina da Wikipedia</a> e no canal do <a href="https://www.youtube.com/playlist?list=PLQ45kJKYgpbmhyO9dIXe2ur2evFRQA5_U&amp;disable_polymer=true%2F&amp;ref=metodologia.agu.arcos.org.br">HUB no Youtube</a>.</p><p>Uma das fun&#xE7;&#xF5;es b&#xE1;sicas da bibliometria &#xE9; medir o impacto da produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica, utilizando medidas como contagem de cita&#xE7;&#xF5;es e o estabelecimento de &#xED;ndices que determinem o <em>fator de impacto</em> dos peri&#xF3;dicos. A bibliometria n&#xE3;o se concentra no conte&#xFA;do dos textos, na qualidade dos resultados das pesquisas, mas os elementos que podem ser quantificados.</p><p>Um dos instrumentos t&#xED;picos da bibliometria &#xE9; a constru&#xE7;&#xE3;o de redes de cita&#xE7;&#xF5;es, como as que foram estabelecidas por Duarte e outros, em busca de compreender o modo como as pesquisas cient&#xED;ficas se relacionam e quais s&#xE3;o as produ&#xE7;&#xF5;es centrais nessa rede.</p><h3 id="7-2-revis-es-sistem-ticas">7.2 Revis&#xF5;es Sistem&#xE1;ticas</h3><p>As revis&#xF5;es sistem&#xE1;ticas n&#xE3;o se limitam a an&#xE1;lises quantitativas e estat&#xED;sticas, pois a sua fun&#xE7;&#xE3;o &#xE9; realizar o mapeamento das pesquisas realizadas em um certo campo, com foco nas metodologias utilizadas e nos resultados alcan&#xE7;ados. N&#xE3;o se trata de mensurar o impacto de certas publica&#xE7;&#xF5;es (como &#xE9; normalmente o caso das abordagens bibliom&#xE9;tricas), mas de cartografar uma &#xE1;rea de pesquisa, consolidando os resultados e, principalmente, evidenciando quais s&#xE3;o as conclus&#xF5;es predominantes, quais s&#xE3;o os pontos de dissenso e quais s&#xE3;o as lacunas de conhecimento (<em>knowledge gaps</em>) (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/NIPHAI53/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Jesson e outros 2011</a>) que podem ser enfrentadas por novas pesquisas .</p><p>Por mais que toda revis&#xE3;o de literatura organize sistematicamente as publica&#xE7;&#xF5;es mapeadas, a express&#xE3;o <em>revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica</em> tem um sentido t&#xE9;cnico: ela n&#xE3;o &#xE9; um estudo preparat&#xF3;rio, mas ela &#xE9; propriamente uma investiga&#xE7;&#xE3;o, em que o objeto de pesquisa &#xE9; um um campo de pesquisas (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/NIPHAI53/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Jesson e outros 2011</a>).</p><p>Essas revis&#xF5;es tendem a gerar artigos aut&#xF4;nomos e a lidar com grandes conjuntos de informa&#xE7;&#xF5;es (que chegam aos milhares de obras). Por se tratarem de investiga&#xE7;&#xF5;es aut&#xF4;nomas, essas revis&#xF5;es precisam evitar ainda com mais cuidado os vieses de sele&#xE7;&#xE3;o (especialmente, para evitar a localiza&#xE7;&#xE3;o apenas de textos com os quais o pesquisador tende a concordar e para garantir o car&#xE1;ter exaustivo do trabalho), o que exige abordagens metodologicamente bem planejadas.</p><p>O rigor dessas pesquisas explica o fato de que que Kahn e outros designam esse tipo de produ&#xE7;&#xE3;o como um <em>research article</em> e n&#xE3;o como um <em>review article</em>, pois trata-se propriamente de uma investiga&#xE7;&#xE3;o metodologicamente determinada, que tem a peculiaridade de adotar como objeto outras produ&#xE7;&#xF5;es acad&#xEA;micas. Todavia, revis&#xF5;es sistem&#xE1;ticas tendem a ser entendidas como <em>review articles</em> e n&#xE3;o como <em>research articles</em>.</p><p>H&#xE1; algumas d&#xE9;cadas, revis&#xF5;es sistem&#xE1;ticas n&#xE3;o eram trabalhos comuns. Por&#xE9;m, com a recente combina&#xE7;&#xE3;o de (i) uma multiplica&#xE7;&#xE3;o exponencial do n&#xFA;mero de publica&#xE7;&#xF5;es e (ii) a disponibilidade de softwares capazes de pesquisar os dados dessas publica&#xE7;&#xF5;es, fez com que a constru&#xE7;&#xE3;o de revis&#xF5;es sistem&#xE1;ticas se tornasse um elemento fundamental para garantir a coes&#xE3;o de campos de estudo com ampla produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica (especialmente, com produ&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica ampla, que conduz a resultados colidentes e a interpreta&#xE7;&#xF5;es divergentes dos dados).</p><p>No caso das disserta&#xE7;&#xF5;es de mestrado constru&#xED;das como dois artigos concatenados, uma das combina&#xE7;&#xF5;es poss&#xED;veis &#xE9; iniciar o trabalho com uma <em>revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica</em> da literatura, o que seria apropriado caso os estudos preparat&#xF3;rios sugerissem a exist&#xEA;ncia de incertezas e tensionamentos dentro da produ&#xE7;&#xE3;o contempor&#xE2;nea. Nesse caso, o mapeamento da produ&#xE7;&#xE3;o existente, feito de forma rigorosa, pode ser uma etapa necess&#xE1;ria para encontrar as lacunas no campo que poder&#xE3;o dar margem &#xE0; constru&#xE7;&#xE3;o de problemas originais de pesquisa.</p><h3 id="7-3-meta-an-lises">7.3 Meta-an&#xE1;lises</h3><p>Embora meta-an&#xE1;lise signifique textualmente <em>an&#xE1;lises</em> de <em>an&#xE1;lises</em>, esse termo adquiriu um significado espec&#xED;fico na epistemologia, especialmente de &#xE1;reas experimentais.</p><p>As meta-an&#xE1;lises s&#xE3;o uma forma espec&#xED;fica de revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica, caracterizada pelo uso que elas fazem dos resultados das pesquisas mapeadas pela revis&#xE3;o. Nas palavras de Jesson e outros:</p><blockquote>Meta-analysis is a statistical technique which has been developed to combinequantitative results obtained from independent studies that have been published. (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/NIPHAI53/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Jesson e outros 2011</a>)</blockquote><p>O pressuposto da meta-an&#xE1;lise &#xE9; a exist&#xEA;ncia de uma pluralidade de pesquisas que avaliam o mesmo objeto, como ocorre tipicamente nas ci&#xEA;ncias m&#xE9;dicas. No contexto da pandemia de Covid-19, muitos estudos foram feitos simultaneamente, para avaliar os impactos de uma s&#xE9;rie de drogas no tratamento da doen&#xE7;a e de suas repercuss&#xF5;es.</p><p>Cada um desses estudos &#xE9; limitado em seu escopo, e essas limita&#xE7;&#xF5;es dificultam a generaliza&#xE7;&#xE3;o das conclus&#xF5;es. A meta-an&#xE1;lise se utiliza de mecanismos estat&#xED;sticos que permitem combinar os resultados de uma multiplicidade de pesquisas individuais, para tirar conclus&#xF5;es do conjunto dos dados compilados pela revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica.</p><p>Essa abordagem permite a constru&#xE7;&#xE3;o de conjuntos de dados mais robustos do que os contidos em cada pesquisa particular, viabilizando conclus&#xF5;es cientificamente mais s&#xF3;lidas.</p><p>Dado o estado atual das pesquisas em direito, especialmente no Brasil, n&#xE3;o parece vi&#xE1;vel a utiliza&#xE7;&#xE3;o de meta-an&#xE1;lises, as quais somente oferecem conclus&#xF5;es interessantes na medida em que possibilitam combinar dados de uma multiplicidade de pesquisas emp&#xED;ricas (normalmente experimentais) sobre um mesmo objeto, o que n&#xE3;o &#xE9; o caso do contexto atual da pesquisa em direito. Mas &#xE9; importante saber o que elas s&#xE3;o, at&#xE9; para evitar chamar de meta-an&#xE1;lises um <em>artigo de revis&#xE3;o</em>, por mais amplo que seja o seu objeto.</p><h3 id="7-4-artigo-de-revis-o">7.4 Artigo de Revis&#xE3;o</h3><p>Um artigo de revis&#xE3;o &#xE9; uma publica&#xE7;&#xE3;o aut&#xF4;noma, que veicula uma <em>revis&#xE3;o de literatura</em>. Essa revis&#xE3;o n&#xE3;o precisa ser necessariamente sistem&#xE1;tica, no sentido espec&#xED;fico de que ela tem uma metodologia predefinida, pois esses artigos normalmente realizam uma descri&#xE7;&#xE3;o narrativa do campo cient&#xED;fico mapeado pelo pesquisador.</p><p>Quando a revis&#xE3;o de literatura trata de um objeto suficientemente amplo e realiza um mapeamento especialmente complexo, ela pode representar uma contribui&#xE7;&#xE3;o efetiva para o campo estudado. Esse &#xE9; o caso, por exemplo, do artigo de Arantes e Arguelhes intitulado <a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/artigos/direito/supremo-o-estado-da-arte?ref=metodologia.agu.arcos.org.br"><em>Supremo: o estado da arte: &#xA0;pesquisas mapeiam as for&#xE7;as e as fraquezas do STF, do individualismo dos ministros &#xE0; busca por transpar&#xEA;ncia</em></a>.</p><p>Esse tipo de mapeamento extensivo &#xE9; um instrumento relevante para que as pessoas tenham uma vis&#xE3;o de conjunto. Ele tende a poupar o trabalho de outros pesquisadores, na medida em que funcionam como <em>revis&#xF5;es gerais de literatura</em>, que podem ser citadas e incorporadas por outras pesquisas.</p><p>Como tudo na academia, esse tipo de trabalho precisa ser avaliado na sua rela&#xE7;&#xE3;o com o ambiente no qual foi produzido. Quando um campo de pesquisa n&#xE3;o est&#xE1; amadurecido, &#xE9; comum que se multipliquem abordagens aut&#xF4;nomas, sem o devido di&#xE1;logo. Quando os conhecimentos est&#xE3;o dispersos, os mapeamentos feitos por <em>review articles</em> podem ser muito relevantes. &#xA0;Por&#xE9;m, em campos nos quais h&#xE1; mapeamentos constantes (veiculados em revis&#xF5;es de literatura publicadas em v&#xE1;rios trabalhos), pode n&#xE3;o ser relevante um trabalho que se dedique apenas a fazer a revis&#xE3;o de uma literatura que j&#xE1; foi revisada (a n&#xE3;o ser se o resultado apresentado for inovador).</p><p>Quando h&#xE1; uma sedimenta&#xE7;&#xE3;o maior de pesquisas, quando v&#xE3;o se tornando mais claras as metodologias &#xFA;teis e as enganosas, o tipo de mapeamento exigido n&#xE3;o ser&#xE1; o de uma revis&#xE3;o de literatura constru&#xED;da narrativamente, mas de uma revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica com m&#xE9;todos claros. E quando o campo consolida a utiliza&#xE7;&#xE3;o de certas metodologias, os trabalhos podem se tornar t&#xE3;o acopl&#xE1;veis entre si que permitem a realiza&#xE7;&#xE3;o de meta-an&#xE1;lises que combinem resultados de pesquisas independentes, gerando um conhecimento novo a partir dos dados combinados de investiga&#xE7;&#xF5;es realizadas de forma aut&#xF4;noma.</p><p>Os artigos de revis&#xE3;o podem ser o n&#xFA;cleo de uma monografia de gradua&#xE7;&#xE3;o ou de uma monografia de especializa&#xE7;&#xE3;o, mas n&#xE3;o &#xE9; comum que eles sejam aceitos como a produ&#xE7;&#xE3;o de um mestrado, visto que eles n&#xE3;o t&#xEA;m densidade metodol&#xF3;gica.</p><p>Inobstante, dentro de uma monografia pensada como uma combina&#xE7;&#xE3;o de dois artigos (como &#xE9; a sugest&#xE3;o feita neste curso), &#xE9; poss&#xED;vel que o primeiro seja um <em>review article</em> que prepare o terreno para a realiza&#xE7;&#xE3;o de um <em>artigo de pesquisa</em> acoplado a ele. Por&#xE9;m, essa &#xE9; uma escolha que deve ser feita com cuidado, j&#xE1; que os <em>review articles</em> s&#xE3;o normalmente resultados de estudo e n&#xE3;o de pesquisa. Assim, para que essa op&#xE7;&#xE3;o seja devidamente justificada, o mais adequado seria a realiza&#xE7;&#xE3;o de uma revis&#xE3;o sistem&#xE1;tica, com uma metodologia predefinida.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Do Artigo à Dissertação]]></title><description><![CDATA[<h2 id="1-artigos-x-disserta-es">1. Artigos x Disserta&#xE7;&#xF5;es</h2><p>O artigo &#xE9; o g&#xEA;nero b&#xE1;sico da <em>produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica</em> contempor&#xE2;nea. Esse &#xE9; um modelo que tem uma s&#xE9;rie de restri&#xE7;&#xF5;es formais (n&#xFA;mero de p&#xE1;</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/do-artigo-a-dissertacao/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f9704a</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Sat, 24 Oct 2020 22:35:49 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2 id="1-artigos-x-disserta-es">1. Artigos x Disserta&#xE7;&#xF5;es</h2><p>O artigo &#xE9; o g&#xEA;nero b&#xE1;sico da <em>produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica</em> contempor&#xE2;nea. Esse &#xE9; um modelo que tem uma s&#xE9;rie de restri&#xE7;&#xF5;es formais (n&#xFA;mero de p&#xE1;ginas pequeno, n&#xFA;mero de cita&#xE7;&#xF5;es por vezes limitado, n&#xFA;mero m&#xE1;ximo de autores em algumas revistas), mas que comporta trabalhos de todo tipo de complexidade. Sua fun&#xE7;&#xE3;o b&#xE1;sica &#xE9; servir como um <em>relat&#xF3;rio</em> de uma pesquisa: expor os resultados de uma observa&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica e interpret&#xE1;-los &#xE0; luz da metodologia escolhida.</p><p>As disserta&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o trabalhos tipicamente maiores, que seguem a estrutura mais ampla do <em>livro</em> e n&#xE3;o o formato resumido dos artigos. Seguindo essa estrutura, as monografias s&#xE3;o divididas em <em>cap&#xED;tulos</em>, e &#xE9; leg&#xED;timo que voc&#xEA; tenha um cap&#xED;tulo de revis&#xE3;o de literatura e outro de contextualiza&#xE7;&#xE3;o hist&#xF3;rica. Voc&#xEA; pode escrever um cap&#xED;tulo explorando as intui&#xE7;&#xF5;es que foram geradas pelos resultados de sua pesquisa, mas que voc&#xEA; n&#xE3;o comprovou pela sua metodologia. Nos textos monogr&#xE1;ficos, todos esses cap&#xED;tulos entram no r&#xF3;tulo gen&#xE9;rico de <em>desenvolvimento</em>, o que gera textos menos <em>densos</em> que os artigos, entendida densidade como uma rela&#xE7;&#xE3;o entre <em>extens&#xE3;o</em> e <em>conte&#xFA;do original. </em></p><p>Artigos s&#xE3;o tipicamente trabalhos mais densos, pois eles s&#xE3;o focados apenas nas partes que geram interesse de publica&#xE7;&#xE3;o: as revistas s&#xF3; t&#xEA;m interesse real em publicar contribui&#xE7;&#xF5;es originais, que ser&#xE3;o citadas pelos pesquisadores do campo. Enquanto <em>produto</em> destinado &#xE0; publica&#xE7;&#xE3;o, o artigo n&#xE3;o se apresenta como um relato do itiner&#xE1;rio formativo do estudante. Diferentemente dos TCCs, o artigo n&#xE3;o tem por fun&#xE7;&#xE3;o servir como uma narrativa que indica os elementos de reflex&#xE3;o e aprendizagem que realizados ao longo do curso. </p><p>Ao longo do itiner&#xE1;rio da pesquisa, o estudante realiza uma multiplicidade de <em>estudos: </em>faz uma s&#xE9;rie de anota&#xE7;&#xF5;es, desenvolve uma revis&#xE3;o exaustiva da literatura, explora uma s&#xE9;rie de intui&#xE7;&#xF5;es, discute a fundo suas op&#xE7;&#xF5;es metodol&#xF3;gicas. Esses estudos servem como elementos de apoio, na medida em que permitem o aperfei&#xE7;oamento do problema e a defini&#xE7;&#xE3;o da metodologia e do marco te&#xF3;rico. Trata-se de elementos que s&#xE3;o <em>necess&#xE1;rios</em> para a pesquisa, como s&#xE3;o necess&#xE1;rios andaimes para a constru&#xE7;&#xE3;o de um pr&#xE9;dio:</p><ol><li>&#xC9; preciso analisar a literatura e definir as categorias e o modelo de dados;</li><li>&#xC9; preciso avaliar as metodologias aplicadas para escolher uma abordagem;</li><li>&#xC9; preciso explicar por que certa abordagem &#xE9; promissora;</li><li>&#xC9; preciso estudar os conceitos em busca de taxonomias adequadas.</li></ol><p>Todos esses <em>estudos </em>s&#xE3;o importantes par que o pesquisador possa amadurecer sua abordagem e chegar &#xE0;s suas conclus&#xF5;es. No caso dos artigos, essas constru&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o t&#xEA;m espa&#xE7;o para um desenvolvimento maior. Elas podem ser mencionadas, mas n&#xE3;o devem ser desenvolvidas, sob pena de retirar o foco do artigo, que precisa se concentrar em apresentar tr&#xEA;s pontos: </p><ol><li>a metodologia utilizada, </li><li>os resultados da observa&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica ou da coleta de dados,</li><li>uma an&#xE1;lise do impacto dos resultados (conclus&#xE3;o e/ou discuss&#xE3;o).</li></ol><p>Mesmo quando n&#xE3;o adotam o formato IMRD de escrita, os artigos precisam se concentrar nesses pontos. Eles podem apresentar a metodologia na introdu&#xE7;&#xE3;o (quando ela &#xE9; gen&#xE9;rica), eles podem apresentar os resultados em v&#xE1;rias se&#xE7;&#xF5;es, eles podem ser t&#xE3;o descritivos que o pesquisador prefere falar apensa em &quot;considera&#xE7;&#xF5;es finais&quot;. </p><p>Os artigos s&#xE3;o escritos ao longo do processo de pesquisa, mas &#xE9; quando o itiner&#xE1;rio chega ao final que o pesquisador precisa rever seu caminho e tomar uma decis&#xE3;o dif&#xED;cil: escrever um relat&#xF3;rio minimalista, em que deve restar apenas os elementos m&#xED;nimos que sustentam as conclus&#xF5;es. </p><p>Nada de revis&#xF5;es amplas de literatura, nada de p&#xE1;ginas dedicadas a explicar a originalidade de certas contribui&#xE7;&#xF5;es te&#xF3;ricas pouco conhecidas, nada de explica&#xE7;&#xF5;es acerca dos pontos que forma abandonados no caminho, nada de p&#xE1;ginas explicando a hist&#xF3;ria do instituto quando o foco do artigo &#xE9; falar de sua aplica&#xE7;&#xE3;o. </p><p>No artigo, <em>&#xE9; preciso fazer o trabalho de retirar os andaimes</em>. S&#xF3; a constru&#xE7;&#xE3;o deve ser mostrada. O argumento precisa ser coeso e direto, e esse esfor&#xE7;o de corte de todas as partes que n&#xE3;o s&#xE3;o fundamentais para o argumento costuma ser dolorido. Para todos n&#xF3;s, &#xE9; dif&#xED;cil retirar textos cuja escrita exigiu noites insones, &#xE9; dif&#xED;cil abandonar uma descri&#xE7;&#xE3;o sociol&#xF3;gica que n&#xE3;o entrou na argumenta&#xE7;&#xE3;o mas que ajuda a compreender melhor o contexto no qual o problema analisado est&#xE1; inserido. Muitas coisas que s&#xE3;o interessantes (ao menos para o pesquisador...) precisam ser cortadas dos artigos, embora elas tenham lugar nos trabalhos monogr&#xE1;ficos, que seguem a l&#xF3;gica do livro. </p><p>Os trabalhos monogr&#xE1;ficos s&#xE3;o textos que costumam ter muitos andaimes. Isso &#xE9; adaptado aos TCCs porque eles s&#xE3;o como os problemas de matem&#xE1;tica, em que os professores pedem que voc&#xEA; apresente todo o seu racioc&#xED;nio, pois o que est&#xE1; sendo avaliado n&#xE3;o &#xE9; a sua <em>resposta</em>, mas &#xE9; o desenvolvimento do seu racioc&#xED;nio. O TCC tem essa d&#xFA;plice fun&#xE7;&#xE3;o de ser:</p><ol><li>comprova&#xE7;&#xE3;o de um <em>processo </em>de estudos que tem um car&#xE1;ter pedag&#xF3;gico e formativo;</li><li>apresenta&#xE7;&#xE3;o de um <em>produto</em>, que s&#xE3;o as conclus&#xF5;es de uma pesquisa, que &#xE9; a contribui&#xE7;&#xE3;o efetiva do pesquisador para o campo (e n&#xE3;o para o desenvolvimento de suas habilidades).</li></ol><p>Os cursos de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m uma identidade cindida porque esses dois objetivos n&#xE3;o se ajustam muito bem. Alguns estudantes t&#xEA;m um desenvolvimento pessoal grande, mas apresentam um produto deficiente (normalmente pela falta de planejamento adequado ou por uma execu&#xE7;&#xE3;o imperfeita). Outros estudantes entram em um grupo de pesquisa e aplicam uma metodologia que j&#xE1; conheciam, mas que gera produtos adequados.</p><p>E os produtos de um curso de p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o s&#xE3;o <em>textos public&#xE1;veis</em>, na medida em que eles t&#xEA;m uma contribui&#xE7;&#xE3;o a dar ao campo. Nos doutorados, espera-se inclusive que parte dos textos j&#xE1; tenha sido publicado, sendo comum a exig&#xEA;ncia de publica&#xE7;&#xE3;o de um artigo ao longo do curso para obter o t&#xED;tulo de doutor. Nos mestrados, essa exig&#xEA;ncia n&#xE3;o &#xE9; feita porque, dado o tempo restrito, a maioria dos estudantes n&#xE3;o consegue chegar a resultados public&#xE1;veis antes do fim do curso.</p><p>Quando focamos nos <em>artigos</em>, adotamos a perspectiva de quem valoriza o <em>produto</em> e a <em>pesquisa</em>. Esse &#xE9; um foco que est&#xE1; ligado aos crit&#xE9;rios de avalia&#xE7;&#xE3;o dos PPGs, cuja nota na CAPES (que n&#xE3;o define s&#xF3; seu prest&#xED;gio e a continuidade do funcionamento, mas tamb&#xE9;m o financiamento dispon&#xED;vel e sua autonomia or&#xE7;ament&#xE1;ria) depende fundamentalmente da produ&#xE7;&#xE3;o de artigos cient&#xED;ficos revisados por pares. A CAPES exige dos cursos <em>produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica </em>revisada por pares, e essa &#xE9; uma exig&#xEA;ncia que se transforma, na pr&#xE1;tica, em uma press&#xE3;o para a publica&#xE7;&#xE3;o de artigos em revistas de grande prest&#xED;gio e impacto.</p><p>Esse foco no produto se choca com a perspectiva tradicional dos cursos de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Direito, que sempre foram um lugar de reprodu&#xE7;&#xE3;o do discurso dogm&#xE1;tico, mais do que da produ&#xE7;&#xE3;o de pesquisas. Os juristas escrevem normalmente ensaios hermen&#xEA;uticos, defesas de teses, e n&#xE3;o pesquisas emp&#xED;ricas com <em>resultados</em> a serem avaliados e divulgados. O elemento central trabalhos dogm&#xE1;ticos, que discute aplica&#xE7;&#xF5;es corretas do sistema jur&#xED;dico, n&#xE3;o &#xE9; um conjunto de <em>resultados</em>, mas um conjunto de <em>argumentos</em>. </p><p>Esse &#xE9; um tipo de preocupa&#xE7;&#xE3;o que se realiza melhor no formato do <em>livro </em>do que no formato do <em>artigo</em>. No livro, cada cap&#xED;tulo deve contribuir para o argumento, mas esses cap&#xED;tulos normalmente s&#xE3;o baseados em <em>estudos </em>(<em>compila&#xE7;&#xF5;es</em>, <em>resenhas</em>, <em>redescri&#xE7;&#xF5;es, narrativas</em>) e n&#xE3;o em pesquisa prim&#xE1;ria.</p><h2 id="2-a-disserta-o-padr-o-estudos-preparat-rios-artigo">2. A disserta&#xE7;&#xE3;o padr&#xE3;o: estudos preparat&#xF3;rios + artigo</h2><p>As melhores disserta&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o deixam evidentes os seus andaimes. Mas essas disserta&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o raras e ultrapassam as qualidades exigidas para a aprova&#xE7;&#xE3;o de um curso de mestrado.</p><p>O que se espera minimamente de uma disserta&#xE7;&#xE3;o de mestrado &#xE9; que ela tenha uma parte de pesquisa e uma <em>parte preparat&#xF3;ria</em> de estudos. A parcela original da monografia tende a vir no pen&#xFA;ltimo cap&#xED;tulo, que apresenta os resultados e discute o seu significado. O que vem antes disso n&#xE3;o costuma ser uma pesquisa propriamente dita: n&#xE3;o se trata de uma investiga&#xE7;&#xE3;o orientada por um problema e que segue uma estrat&#xE9;gia de abordagem definida.</p><p>Esses estudos preparat&#xF3;rios s&#xE3;o longos e geram os primeiros cap&#xED;tulos da disserta&#xE7;&#xE3;o. Escolhas t&#xED;picas s&#xE3;o: abordagens hist&#xF3;ricas, revis&#xF5;es amplas de literatura em busca de esclarecimentos conceituais, tra&#xE7;ados dos debates mais relevantes da &#xE1;rea, contextualiza&#xE7;&#xE3;o sociol&#xF3;gica de uma quest&#xE3;o que ser&#xE1; tratada. </p><p>Para realizar uma disserta&#xE7;&#xE3;o desse tipo, <em>voc&#xEA; n&#xE3;o precisa fazer um projeto mais complexo do que o seu projeto de artigo</em>. Voc&#xEA; s&#xF3; precisa indicar com clareza que faz parte da sua estrat&#xE9;gia de abordagem a realiza&#xE7;&#xE3;o de determinados estudos preparat&#xF3;rios (como os listados no par&#xE1;grafo acima) e inserir esses estudos no seu rol de objetivos a serem realizados por meio de &quot;pesquisa bibliogr&#xE1;fica&quot; (que n&#xE3;o &#xE9; pesquisa, mas estudo):</p><ol><li>Identificar as principais teorias sobre discricionariedade administrativa;</li><li>Identificar as metodologias utilizadas nos estudo dos fundamentos de decis&#xF5;es em mat&#xE9;ria tribut&#xE1;ria;</li><li>Tra&#xE7;ar a hist&#xF3;ria de um instituto, por meio de fontes bibliogr&#xE1;ficas secund&#xE1;rias;</li><li>Descrever uma certa metodologia de forma minuciosa e avaliar os ajustes que ela precisa sofrer para ser adaptada ao seu objeto;</li><li>etc., etc. etc.</li></ol><p>Cada um desses objetivos pode gerar um cap&#xED;tulo, e voc&#xEA; pode pensar cada cap&#xED;tulo como um bloco de 10 a 20 p&#xE1;ginas. Com isso, voc&#xEA; pode deixar o seu cap&#xED;tulo final como sendo o artigo a ser mandado para publica&#xE7;&#xE3;o (com cerca de 20 p&#xE1;ginas e contendo uma descri&#xE7;&#xE3;o da metodologia, dos resultados e a discuss&#xE3;o) e contar antes disso com dois outros cap&#xED;tulos, em que voc&#xEA; exponha estudos preparat&#xF3;rios.</p><p>Creio que essa &#xE9; a complexidade m&#xED;nima de uma disserta&#xE7;&#xE3;o de mestrado: tra&#xE7;ar alguns estudos pr&#xE9;vios necess&#xE1;rios e incluir o resultado desses estudos como os cap&#xED;tulos iniciais. A defini&#xE7;&#xE3;o desses estudos mostra a consci&#xEA;ncia que o estudante tem dos desafios que ele pretende vencer para chegar ao produto final.</p><p>Esse tipo de estudo ter&#xE1; relev&#xE2;ncia especial nas pesquisas explorat&#xF3;rias, cabendo inclusive reconhecer que a aus&#xEA;ncia na literatura de um mapeamento claro do problema exige que voc&#xEA; fa&#xE7;a a pesquisa com o objetivo de explorar as possibilidades de realizar tal mapeamento. Nesse caso, &#xE9; de se esperar que a defini&#xE7;&#xE3;o do artigo anal&#xED;tico ter&#xE1; de ser feita em moldes mais gerais do que o que apontamos at&#xE9; aqui como adequado. A metodologia n&#xE3;o ser&#xE1; t&#xE3;o precisa e &#xE9; poss&#xED;vel que o marco te&#xF3;rico &#xA0;se limite &#xE0; descri&#xE7;&#xE3;o geral da abordagem (sem uma defini&#xE7;&#xE3;o exaustiva das taxonomias que ser&#xE3;o utilizadas). Mas isso n&#xE3;o &#xE9; um problema, visto que a constru&#xE7;&#xE3;o da an&#xE1;lise depender&#xE1;, de fato, dos resultados da descri&#xE7;&#xE3;o, e essa descri&#xE7;&#xE3;o pode necessitar verdadeiramente de estudos pr&#xE9;vios que viabilizem a formula&#xE7;&#xE3;o de categorias adequadas.</p><p>Uma disserta&#xE7;&#xE3;o com essas caracter&#xED;sticas pode ter uma qualidade excepcional, desde que o artigo produzido seja de excel&#xEA;ncia. Nesse caso, os estudos preparat&#xF3;rios n&#xE3;o ter&#xE3;o a forma de um artigo public&#xE1;vel, mas isso n&#xE3;o &#xE9; um problema, visto que a aten&#xE7;&#xE3;o maior est&#xE1; no artigo a ser publicado.</p><!--kg-card-begin: html--><div class="exercicio">
    <strong>Exerc&#xED;cio 1 <br></strong>
1. Fa&#xE7;a uma descri&#xE7;&#xE3;o minuciosa da sua estrat&#xE9;gia de abordagem, tentando identificar os estudos preparat&#xF3;rios que seriam relevantes para voc&#xEA; poder realizar uma formula&#xE7;&#xE3;o definitiva do problema, da metodologia e do referencial te&#xF3;rico.<br>
2. Essa descri&#xE7;&#xE3;o deve ser uma checlist sequencial, indicando o passo a passo dos estudos pr&#xE9;vios a serem realizados e, depois, da execu&#xE7;&#xE3;o da pesquisa propriamente dita (coleta de dados e an&#xE1;lise dos dados). <br>
3. Esse checklist deve come&#xE7;ar com &quot;verbos&quot;, de tal forma que ele servir&#xE1; como sua lista de objetivos.<br>
4. Se voc&#xEA; tiver mais de 5 objetivos, tente reuni-los em grupos: esses grupos de objetivos concatenados te dar&#xE3;o a sua estrutura de cap&#xED;tulos, sendo que o &#xFA;ltimo cap&#xED;tulo conter&#xE1; propriamente o artigo que voc&#xEA; planejou.</div><!--kg-card-end: html--><h2 id="3-a-disserta-o-de-complexidade-m-dia">3. A disserta&#xE7;&#xE3;o de complexidade m&#xE9;dia</h2><h3 id="3-1-cap-tulo-descritivo-cap-tulo-anal-tico">3.1 Cap&#xED;tulo Descritivo + Cap&#xED;tulo Anal&#xED;tico</h3><p>Nos mestrados, a constru&#xE7;&#xE3;o das disserta&#xE7;&#xF5;es normalmente tem apenas um elemento de pesquisa, o que gera resultados que normalmente podem ser condensados em um artigo de grande interesse para o campo, mas n&#xE3;o gera dois trabalhos de investiga&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica. Por&#xE9;m, quando um trabalho se aproxima da dimens&#xE3;o de um artigo grande (por volta de 30 p&#xE1;ginas), a sa&#xED;da mais adequada, nos dias de hoje, &#xE9; tentar dividir esse trabalho em dois artigos independentes. Esse &#xE9; o melhor custo benef&#xED;cio em termos de trabalho x prest&#xED;gio. </p><p>Mesmo que voc&#xEA; parta da estrutura da <em>disserta&#xE7;&#xE3;o padr&#xE3;o</em>, &#xE9; poss&#xED;vel que voc&#xEA; chegue a uma situa&#xE7;&#xE3;o na qual o cap&#xED;tulo que corresponderia ao seu artigo se torne t&#xE3;o extenso que voc&#xEA; se veja na necessidade de cort&#xE1;-lo em dois. Nesse caso, &#xE9; bem comum que voc&#xEA; tenha um cap&#xED;tulo descritivo centrado na apresenta&#xE7;&#xE3;o dos dados, e um cap&#xED;tulo anal&#xED;tico, centrado na interpreta&#xE7;&#xE3;o dos dados.</p><p>O resultado pr&#xE1;tico &#xE9; que voc&#xEA; pode acabar produzindo um texto dissertativo mais amplo, que o conduzir&#xE1; a ter alguns artigos sequencialmente ligados. Por exemplo voc&#xEA; pode fazer um artigo que mapeia uma pr&#xE1;tica interpretativa do STJ e depois fazer uma an&#xE1;lise filos&#xF3;fica (focada nas categorias usadas) ou uma an&#xE1;lise sociol&#xF3;gica (focada nas intera&#xE7;&#xF5;es sociais que a condicionam) ou uma an&#xE1;lise econ&#xF4;mica (para avaliar o impacto econ&#xF4;mico de uma interpreta&#xE7;&#xE3;o).</p><p>Dependendo da complexidade da sua revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica, voc&#xEA; pode chegar a artigo descritivo (apresentando os dados) e um artigo anal&#xED;tico (que seria o mais importante, na medida em que atribuiria uma significa&#xE7;&#xE3;o aos dados). Eventualmente, o seu estudo metodol&#xF3;gico pode gerar resultados t&#xE3;o interessantes que voc&#xEA; pode at&#xE9; apresentar um <em>artigo metodol&#xF3;gico</em> (discutindo a aplicabilidade de uma metodologia a certa situa&#xE7;&#xE3;o) a certas revistas que est&#xE3;o interessadas nessas quest&#xF5;es (como a da Rede de Estudos Emp&#xED;ricos).</p><h3 id="3-2-artigo-anal-tico-e-cap-tulo-prospectivo">3.2 Artigo anal&#xED;tico e Cap&#xED;tulo Prospectivo</h3><p>Outra organiza&#xE7;&#xE3;o poss&#xED;vel da disserta&#xE7;&#xE3;o &#xE9; come&#xE7;ar diretamente pelo artigo planejado, especialmente quando a sua pergunta &#xE9; mais descritiva, e depois escrever um cap&#xED;tulos mais <em>prospectivo</em>, refletindo sobre os impactos das conclus&#xF5;es do artigo.</p><p>No caso de um mestrado profissional, essa estrat&#xE9;gia pode levar &#xE0; combina&#xE7;&#xE3;o de </p><ol><li>um artigo que alie a apresenta&#xE7;&#xE3;o dos resultados com a sua interpreta&#xE7;&#xE3;o (resultados + discuss&#xE3;o);</li><li>uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, que avalie em que medida as conclus&#xF5;es do artigo sugerem a necessidade de redimensionar alguma atividade judicante ou administrativa do &#xF3;rg&#xE3;o judicial avaliado.</li></ol><p>Cursos com um vi&#xE9;s mais pr&#xE1;tico deixar&#xE3;o espa&#xE7;o para esse tipo de abordagem, que tende a produzir propostas de inova&#xE7;&#xE3;o <em>baseada em evid&#xEA;ncias</em>. Esse <em>baseado em evid&#xEA;ncias</em> &#xE9; importante porque uma proposta de interven&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o estivesse calcada nos resultados de uma pesquisa n&#xE3;o seria uma abordagem com uma complexidade compat&#xED;vel com um mestrado acad&#xEA;mico ou profissional.</p><!--kg-card-begin: html--><div class="exercicio">
    <strong>Exerc&#xED;cio 2 <br></strong>
1. Pense nos poss&#xED;veis resultados da sua pesquisa e nos impactos que ela pode ter sobre a pr&#xE1;tica jur&#xED;dica (especialmente sobre a pr&#xE1;tica administrativa ou judicial).<br>
2. A partir dessa reflex&#xE3;o, imagine um projeto de interven&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica que possa ser feita como uma proposta baseada nas evid&#xEA;ncias que podem decorrer do seu trabalho. <br>
3. Mesmo que voc&#xEA; n&#xE3;o opte pela estrutura de artigo + proposta de interven&#xE7;&#xE3;o, essa reflex&#xE3;o pode gerar ideias interessantes pora incorporar na justificativa do projeto.</div><!--kg-card-end: html--><h2 id="4-disserta-es-de-alta-complexidade-combinando-dois-artigos"><strong>4. Disserta&#xE7;&#xF5;es de alta complexidade: combinando dois artigos</strong></h2><p>Quando voc&#xEA; tem dois artigos pass&#xED;veis de publica&#xE7;&#xE3;o aut&#xF4;noma, mas interconectados, voc&#xEA; certamente tem um trabalho de alta qualidade e complexidade. Por&#xE9;m, a op&#xE7;&#xE3;o por dois ou tr&#xEA;s artigos &#xE9; um caminho mais oneroso do que o esperado para um mestrado.</p><p>As disserta&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o exigem a complexidade de se fazer dois artigos aut&#xF4;nomos e explorar as suas conex&#xF5;es, sendo que essa estrutura &#xE9; mais t&#xED;pica de um doutorado. Nos doutorados, a originalidade normalmente est&#xE1; na explora&#xE7;&#xE3;o de dois elementos diferentes, cujo entrela&#xE7;amento n&#xE3;o havia sido plenamente explorado.</p><p>Apesar disso, &#xE9; poss&#xED;vel que mestrandos tenham interesse em avan&#xE7;ar desde logo para esse grau de complexidade, que maximiza os resultados do trabalho e o seu potencial de gerar publica&#xE7;&#xF5;es de grande impacto, public&#xE1;vel &#xA0;em revistas de ponta. Se voc&#xEA; decidir seguir por esse caminho, e realizar um projeto de disserta&#xE7;&#xE3;o com a complexidade pr&#xF3;xima uma tese, sugiro adotar o seguinte procedimento:</p><ol><li>Escrever o projeto do primeiro artigo;</li><li>Escrever o projeto do segundo artigo;</li><li>Escrever um projeto comum, que ser&#xE1; o projeto de disserta&#xE7;&#xE3;o. Esse projeto deve pensar desde logo na conex&#xE3;o entre os dois artigos e seu problema deve ser uma pergunta que pode ser respondida a partir da conex&#xE3;o entre os resultados de suas duas pesquisas.</li></ol><p>Que conex&#xF5;es s&#xE3;o poss&#xED;veis? As mais variadas.</p><p>Voc&#xEA; pode fazer, por exemplo, um artigo hist&#xF3;rico tratando da processo de desenvolvimento de um instituto e outro artigo descritivo tratando do modo como ele &#xE9; usado na pr&#xE1;tica judicial contempor&#xE2;nea. A conex&#xE3;o entre essas duas abordagens permite que o seu problema esteja ligado a avaliar se h&#xE1; uma conex&#xE3;o efetiva entre essa pr&#xE1;tica e o desenvolvimento hist&#xF3;ria do instituto. A depender dos resultados, voc&#xEA; pode ter uma conclus&#xE3;o t&#xE3;o interessante e complexa que, ela pr&#xF3;pria, tamb&#xE9;m venha a ser um artigo independente.</p><p>Essa constru&#xE7;&#xE3;o modular &#xE9; interessante, mas &#xE9; oneroso partir desde logo para essa defini&#xE7;&#xE3;o de dois projetos independentes. Por mais que a explora&#xE7;&#xE3;o aut&#xF4;noma permita o desenvolvimento de um grau espec&#xED;fica de complexidade (a explora&#xE7;&#xE3;o das rela&#xE7;&#xF5;es entre duas pesquisas aut&#xF4;nomas), nossa sugest&#xE3;o que &#xE9; voc&#xEA; opte por uma disserta&#xE7;&#xE3;o de complexidade padr&#xE3;o, em que n&#xE3;o h&#xE1; dois artigos coordenados (e um texto de liga&#xE7;&#xE3;o), mas um artigo de <em>pesquisa</em> combinado com estudos preparat&#xF3;rios mais desenvolvidos (mas que n&#xE3;o seguem uma metodologia predefinida). </p><p>Note que essa escolha por uma estrutura menos complexa n&#xE3;o significa uma redu&#xE7;&#xE3;o na qualidade do trabalho, visto que essa qualidade ser&#xE1; definida basicamente pela excel&#xEA;ncia acad&#xEA;mica do artigo principal. Aumentar a complexidade do trabalho significa aumentar os desafios a serem enfrentados, e n&#xE3;o a qualidade do resultado final. De fato, a depender do n&#xED;vel de complexidade escolhido, pode ser dif&#xED;cil manter a qualidade dos trabalhos no restrito per&#xED;odo de um mestrado.</p><!--kg-card-begin: html--><div class="exercicio">
    <strong>Exerc&#xED;cio 3 <br></strong>
1. Reflita sobre a possibilidade de escrever dois artigos diferentes no seu TCC. Nesse caso, que artigos voc&#xEA; gostaria de escrver? 
2. Mesmo que voc&#xEA; n&#xE3;o opte por essa estrutura mais complexa, identificar esses dois artigos pode evidenciar a necessidade de certos estudos preparat&#xF3;rios que n&#xE3;o estejam no seu radar neste momento. </div><!--kg-card-end: html-->]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Marco Teórico]]></title><description><![CDATA[<h1 id="1-introdu-o"><strong>1. Introdu&#xE7;&#xE3;o</strong></h1><p>O referencial te&#xF3;rico &#xE9; um elemento fundamental das pesquisas cient&#xED;ficas porque, como afirmam Laplane e outros,&quot;conceptual clarifications not only improve the precision and utility of scientific terms but also lead to novel experimental investigations because the choice of a</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/o-marco-teorico/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97049</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Mon, 19 Oct 2020 20:39:19 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h1 id="1-introdu-o"><strong>1. Introdu&#xE7;&#xE3;o</strong></h1><p>O referencial te&#xF3;rico &#xE9; um elemento fundamental das pesquisas cient&#xED;ficas porque, como afirmam Laplane e outros,&quot;conceptual clarifications not only improve the precision and utility of scientific terms but also lead to novel experimental investigations because the choice of a given conceptual framework strongly constrains how experiments are conceived&quot; (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/BPAJY36Z/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">2019</a>). Sem um referencial adequado, n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel compreender os limites e as possibilidades das pesquisas e, menos ainda, produzir abordagens originais.</p><p>Todavia, somos conscientes de que o <em>referencial te&#xF3;rico</em> (ou <em>marco te&#xF3;rico</em>) costuma ser um dos elementos que gera maior dificuldade para os pesquisadores, tanto nos projetos quanto nos trabalhos. Cremos que essa dificuldade vem do fato de que os pesquisadores tendem a ter conhecimentos profundos de sua especialidade (que chamaremos aqui de <em>conhecimentos materiais</em>) e o desenvolvimento do projeto tende a exigir o desenvolvimento de conhecimentos razo&#xE1;veis de estrat&#xE9;gias de abordagem (que chamaremos aqui de <em>conhecimentos metodol&#xF3;gicos</em>).</p><p>J&#xE1; a defini&#xE7;&#xE3;o do <em>referencial te&#xF3;rico</em> demanda uma reflex&#xE3;o filos&#xF3;fica que n&#xE3;o &#xE9; muito comum entre os pesquisadores, especialmente entre os pesquisadores emp&#xED;ricos, que dedicam a maior parte de seu tempo ao desenvolvimento e &#xE0; aplica&#xE7;&#xE3;o de metodologias adequadas. Inobstante, como afirmou Albert Einstein:</p><blockquote>So many people today&#x2014;and even professional scientists&#x2014;seem to me like somebody who has seen thousands of trees but has never seen a forest. A knowledge of the historic and philosophical background gives that kind of independence from prejudices of his generation from which most scientists are suffering. This independence created by philosophical insight is&#x2014;in my opinion&#x2014;the mark of distinction between a mere artisan or specialist and a real seeker after truth. (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/MQWZNXWZ/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Howard &amp; Giovanelli 2019</a>)</blockquote><p>Apesar dessa relev&#xE2;ncia central dos <em>quadros conceituais</em> que s&#xE3;o utilizados pelas pesquisas (e que s&#xE3;o justamente o que chamamos de <em>marco te&#xF3;rico</em>), muitas pessoas n&#xE3;o t&#xEA;m clareza sobre os repert&#xF3;rios conceituais que elas pr&#xF3;prias utilizam. Isso faz com que seja um lugar comum dos cursos de metodologia afirmar que as pessoas sempre t&#xEA;m referenciais te&#xF3;ricos, ainda que sejam meramente <em>impl&#xED;citos</em>. Nos cursos de metodologia cient&#xED;fica, um dos objetivos &#xE9; tornar <em>expl&#xED;citos</em> esses quadros conceituais, de tal modo que o estudante se torne consciente deles e, com isso, tamb&#xE9;m adquira autonomia suficiente para question&#xE1;-los e para adotar referenciais alternativos.</p><h2 id="2-do-senso-comum-s-teorias-especializadas"><strong>2. Do senso comum &#xE0;s teorias especializadas</strong></h2><p>N&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel falar das coisas sem partir de um repert&#xF3;rio de conceitos e classifica&#xE7;&#xF5;es. Por exemplo, toda vez que falamos do poder judici&#xE1;rio, utilizamos v&#xE1;rios conceitos. Parte deles &#xE9; compreens&#xED;vel por qualquer falante do portugu&#xEA;s, tais como: <em>juiz</em>, <em>decis&#xE3;o</em>, <em>tribunal</em>, <em>lei</em> e <em>interpreta&#xE7;&#xE3;o</em>. Esses conceitos usados pelas pessoas em geral comp&#xF5;em um repert&#xF3;rio compartilhado de conhecimentos que podemos chamar de <em>senso comum</em>. O senso comum &#xE9; a base da nossa comunica&#xE7;&#xE3;o e ele &#xE9; constru&#xED;do de forma <em>consuetudin&#xE1;ria</em>, a partir da consolida&#xE7;&#xE3;o de certos usos em uma comunidade lingu&#xED;stica.</p><p>Por mais que o senso comum seja importante, as pessoas que desenvolvem pr&#xE1;ticas especializadas precisam desenvolver repert&#xF3;rios lingu&#xED;sticos espec&#xED;ficos, capazes de descrever com mais riqueza as situa&#xE7;&#xF5;es envolvidas nessa pr&#xE1;tica. Um jurista bem formado certamente sabe que h&#xE1; <em>computadores</em>, que usam <em>programas</em>, que manejam <em>dados</em> e que podem inclusive resolver problemas mediante <em>intelig&#xEA;ncia artificial</em>. Por&#xE9;m, se voc&#xEA; perguntar ao jurista quais s&#xE3;o os tipos de computadores, quais s&#xE3;o as classes de programas, quais s&#xE3;o as diferentes formas de organizar dados e e as diferen&#xE7;as entre <em>intelig&#xEA;ncia artificial</em> e <em>aprendizado de m&#xE1;quina</em>, &#xE9; bem poss&#xED;vel que o ele n&#xE3;o saiba responder, pois esses tipos de classifica&#xE7;&#xE3;o ultrapassam a linguagem t&#xED;pica que eles aprenderam tanto em seus processos de socializa&#xE7;&#xE3;o quanto no ensino formal.</p><p>Por que o jurista n&#xE3;o conhece essas classifica&#xE7;&#xF5;es? Porque ele pode resolver a maioria dos seus problemas pr&#xE1;ticos sem elas. N&#xE3;o criamos classes novas porque gostamos de multiplicar os conceitos, mas porque as situa&#xE7;&#xF5;es que enfrentamos n&#xE3;o se deixam resolver adequadamente quando tentamos usar as <em>mesmas estrat&#xE9;gias</em> para enfrentar <em>situa&#xE7;&#xF5;es diferentes</em>. Uma pessoa graduada em direito certamente aprendeu v&#xE1;rias classifica&#xE7;&#xF5;es t&#xED;picas desse of&#xED;cio, no qual <em>interpretar contratos</em> &#xE9; diferente de <em>interpretar leis</em>, no qual <em>direitos reais</em> s&#xE3;o regulados de forma diferente de <em>direitos pessoais</em>, no qual os efeitos de uma <em>senten&#xE7;a declarat&#xF3;ria</em> s&#xE3;o diferentes de uma <em>senten&#xE7;a mandamental</em>.</p><p>Essas tipologias criam novos n&#xED;veis de complexidade. Para o senso comum, basta ter uma no&#xE7;&#xE3;o geral acerca de <em>contratos</em>, <em>leis</em> e <em>senten&#xE7;as</em>, mas a necessidade de resolver situa&#xE7;&#xF5;es juridicamente complexas exige essas <em>tipologias especializadas</em>, que permitem diferenciar as situa&#xE7;&#xF5;es e desenvolver estrat&#xE9;gias espec&#xED;ficas para cada uma delas. Toda pessoa que det&#xE9;m um conhecimento especializado pode fazer perguntas que os falantes da l&#xED;ngua n&#xE3;o t&#xEA;m como responder, pois lida com <em>diferencia&#xE7;&#xF5;es conceituais</em> que tentam lidar com as dificuldades de uma &#xE1;rea.</p><p>Um bom mestre de obras precisa saber sobre diferentes t&#xE9;cnicas construtivas, para ser capaz de escolher a que melhor se adapta &#xE0;s peculiaridades da constru&#xE7;&#xE3;o a ser edificada. Um bom advogado precisa saber sobre diferentes estrat&#xE9;gias de resolu&#xE7;&#xE3;o de conflitos para poder orientar as pessoas que buscam os seus servi&#xE7;os. Ocorre que alguns advogados t&#xEA;m conhecimentos mais amplos e outros t&#xEA;m conhecimentos mais restritos.</p><p>Cada pessoa tem um certo repert&#xF3;rio de <em>abordagens</em> que ela conhece e sabe manejar (que poder&#xED;amos chamar de <em>repert&#xF3;rio ativo</em>), tem um certo repert&#xF3;rio de abordagens que ela sabe reconhecer mas n&#xE3;o sabe manejar (que poder&#xED;amos chamar de <em>repert&#xF3;rio passivo</em>) e t&#xEA;m um conjunto gigantesco de t&#xE9;cnicas, conhecimentos e abordagens que ela simplesmente desconhece (e que por tanto s&#xE3;o totalmente estranhas ao seu repert&#xF3;rio). Quando eu observo uma casa, por exemplo, posso avaliar se gosto dela ou n&#xE3;o (o que s&#xF3; envolve o senso comum e meu gosto est&#xE9;tico pessoal), mas eu n&#xE3;o tenho <em>repert&#xF3;rio conceitual</em> para identificar as influ&#xEA;ncias arquitet&#xF4;nicas envolvidas e as t&#xE9;cnicas construtivas. Mas eu n&#xE3;o sou arquiteto, nem engenheiro nem mestre de obras, de forma que essa ignor&#xE2;ncia &#xE9; plenamente justificada.</p><p>A dificuldade ocorre quando um jurista n&#xE3;o se mostra capaz de compreender as v&#xE1;rias abordagens poss&#xED;vel a uma quest&#xE3;o jur&#xED;dica. Assim como &#xE9; poss&#xED;vel que o mestre de obras somente saiba construir casas de um &#xFA;nico modo (que ele identifica como a forma correta de construir), tamb&#xE9;m &#xE9; poss&#xED;vel que o advogado somente saiba escrever peti&#xE7;&#xF5;es de uma &#xFA;nica forma (que ele identifica com a forma correta de escrever peti&#xE7;&#xF5;es) e que um juiz decida sempre com as mesmas estrat&#xE9;gias.</p><p>No caso dos juristas, essa <em>limita&#xE7;&#xE3;o de repert&#xF3;rio</em> &#xE9; estimulada pelo discurso dogm&#xE1;tico, e isso representa uma dificuldade especial para a pesquisa. Espero que um engenheiro aprenda sobre <em>t&#xE9;cnicas construtivas</em> de modo mais rico do que os juristas, que muitas vezes s&#xE3;o ensinados <em>como se houvesse apenas uma forma correta de classificar os objetos e de tomar as decis&#xF5;es com rela&#xE7;&#xE3;o a eles</em>. O discurso dogm&#xE1;tico &#xE9; voltado para organizar o processo decis&#xF3;rio e torn&#xE1;-lo mais previs&#xED;vel.</p><p>O direito processual &#xE9; um bom exemplo desse reducionismo dogm&#xE1;tico. A atua&#xE7;&#xE3;o judicial pode ser pensado a partir da categoria central de <em>a&#xE7;&#xE3;o</em>, que &#xE9; a estrat&#xE9;gia civilista t&#xED;pica. Essa abordagem se concentrar&#xE1; em criar uma <em>tipologia das a&#xE7;&#xF5;es</em> e a focar o aprendizado jur&#xED;dico na identifica&#xE7;&#xE3;o de qual seria a a&#xE7;&#xE3;o adequada para defender um direito. Essa abordagem centrada na <em>a&#xE7;&#xE3;o</em> &#xE9; diferente de uma abordagem centrada no <em>processo</em>, a qual contesta a utilidade em classificar a&#xE7;&#xF5;es e acentua uma ampla liberdade do <em>direito de fazer pedidos</em> (<a href="https://novo.arcos.org.br/conceito-de-acao/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Costa &amp; Costa 2011</a>).</p><p>Em vez de criar uma tipologia dos <em>pedidos poss&#xED;veis</em>, essa abordagem diz que tudo pode ser pedido aos ju&#xED;zes e que o importante &#xE9; regular como o judici&#xE1;rio processar&#xE1; esses pedidos, ou seja, no exerc&#xED;cio da jurisdi&#xE7;&#xE3;o. Com isso, em vez de pensar em <em>um tipo de processo para cada tipo de a&#xE7;&#xE3;o</em>, seria mais adequado identificar certos <em>tipos de exerc&#xED;cio jurisdicional</em>, que podem ser desencadeados pelos pedidos dos autores. Em vez de um rol de dezenas de tipos de a&#xE7;&#xF5;es, cada qual com suas peculiaridades de processamento, essa abordagem aponta para alguns modos diversos de processar os pedidos (<em>cautelar</em>, <em>ordin&#xE1;rio</em>, <em>executivo</em>, etc.).</p><p>Qual dessas abordagens &#xE9; correta? Essa &#xE9; uma pergunta ruim. Podemos perguntar qual dessas abordagens &#xE9; dominante, e isso &#xE9; uma quest&#xE3;o emp&#xED;rica, que pode ser respondida por uma observa&#xE7;&#xE3;o do mundo. Mas perguntar qual &#xE9; a <em>estrat&#xE9;gia correta de classifica&#xE7;&#xE3;o</em> nos coloca uma quest&#xE3;o insol&#xFA;vel em termos emp&#xED;ricos. Podemos <em>escolher uma estrat&#xE9;gia</em> e podemos justificar essa escolha com bons (ou maus) argumentos, mas seria muita pretens&#xE3;o afirmar que um certo conjunto de categorias corresponde objetivamente aos fatos. Categorias <em>classificam fatos</em>, elas n&#xE3;o espelham a sua ess&#xEA;ncia (<a href="https://novo.arcos.org.br/a-filosofia-e-os-paradoxos-da-linguagem-2/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Costa 2020</a>), e por isso n&#xE3;o podemos falar que uma das classifica&#xE7;&#xF5;es poss&#xED;veis corresponde <em>verdadeiramente</em> aos fatos.</p><p>Para complicar ainda mais a situa&#xE7;&#xE3;o, a sistem&#xE1;tica classificat&#xF3;ria hegem&#xF4;nica mistura os dois sistemas e gera um modo h&#xED;brido de descrever os processos, que nem &#xE9; vinculado totalmente &#xE0; teoria abstrata do direito p&#xFA;blico nem &#xE0; teoria concreta das abordagens civilistas.</p><blockquote>Esse tr&#xE2;nsito fatalmente nos levaria a uma teoria em que o centro de gravidade fosse ocupado pela <em>jurisdi&#xE7;&#xE3;o</em>, e no qual a seletividade judicial fosse entendida como uma <em>express&#xE3;o do poder judicial do Estado</em>, e n&#xE3;o de uma <em>limita&#xE7;&#xE3;o do direito subjetivo da parte</em>. Tal passo, contudo, &#xE9; incompat&#xED;vel com as vincula&#xE7;&#xF5;es civilistas dos juristas que deram in&#xED;cio ao movimento de autonomia do processo. Entender o processo como <em>express&#xE3;o de um poder</em>, e n&#xE3;o como <em>realiza&#xE7;&#xE3;o de um direito</em>, era uma mudan&#xE7;a incompat&#xED;vel com a percep&#xE7;&#xE3;o hegem&#xF4;nica da estrutura do direito e da fun&#xE7;&#xE3;o do Judici&#xE1;rio. (<a href="https://novo.arcos.org.br/conceito-de-acao/?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Costa &amp; Costa 2011</a>).</blockquote><p>Nas teorias processuais, como ocorre em muitos campos do direito, os sistemas classificat&#xF3;rios que a dogm&#xE1;tica hegem&#xF4;nica utiliza n&#xE3;o s&#xE3;o muito consistentes, pois unem classifica&#xE7;&#xF5;es que usam crit&#xE9;rios diferentes, bases te&#xF3;ricas diferentes e apontam para elementos diversos. Esse &#xE9; o caso das teorias &quot;mistas&quot; ou &quot;ecl&#xE9;ticas&quot; que aparecem comumente como solu&#xE7;&#xF5;es dogm&#xE1;ticas adequadas, mas que terminam por nos oferecer sistemas classificat&#xF3;rios inconsistentes, que n&#xE3;o viabilizam modelos descritivos adequados.</p><p>Ocorre que nem todos os juristas s&#xE3;o educados para perceber os sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o que est&#xE3;o na base de suas percep&#xE7;&#xF5;es. &#xC9; mais comum que sejamos educados para <em>identificar as classifica&#xE7;&#xF5;es usadas na legisla&#xE7;&#xE3;o ou na jurisprud&#xEA;ncia</em> (que podem ser ou n&#xE3;o &#xFA;teis para a pesquisa) e a considerar <em>corretas</em> as classifica&#xE7;&#xF5;es <em>dominantes na cultura jur&#xED;dica</em>. Abordagens dogm&#xE1;ticas tendem a naturalizar um sistema classificat&#xF3;rio e a desconsiderar os demais, que muitas vezes n&#xE3;o s&#xE3;o estudados ou s&#xE3;o encarados apenas como &quot;descri&#xE7;&#xF5;es&quot; ultrapassadas ou incorretas do funcionamento do direito. Esse tipo de <em>estratifica&#xE7;&#xE3;o conceitual</em> e de falta de horizonte te&#xF3;rico n&#xE3;o &#xE9; um problema espec&#xED;fico do direito, pois Albert Einstein j&#xE1; o identificava na f&#xED;sica h&#xE1; mais de 100 anos:</p><blockquote>Concepts that have proven useful in ordering things easily achieve such an authority over us that we forget their earthly origins and accept them as unalterable givens. Thus they come to be stamped as &#x201C;necessities of thought,&#x201D; &#x201C;a priori givens,&#x201D; etc. The path of scientific advance is often made impassable for a long time through such errors. For that reason, it is by no means an idle game if we become practiced in analyzing the long commonplace concepts and exhibiting those circumstances upon which their justification and usefulness depend, how they have grown up, individually, out of the givens of experience. By this means, their all-too-great authority will be broken. They will be removed if they cannot be properly legitimated, corrected if their correlation with given things be far too superfluous, replaced by others if a new system can be established that we prefer for whatever reason. (Einstein 1916; citado por Howard &amp; Giovanelli 2019)</blockquote><h2 id="3-marco-te-rico-e-revis-o-de-literatura"><strong>3. Marco te&#xF3;rico e revis&#xE3;o de literatura</strong></h2><p>O marco te&#xF3;rico n&#xE3;o &#xE9; a revis&#xE3;o de literatura, mas &#xE9; muito ligado a ela, pois &#xE9; normalmente a revis&#xE3;o da literatura que coloca o pesquisador iniciante frente &#xE0; multiplicidade de abordagens poss&#xED;veis. Por esse motivo, voc&#xEA; deve desenvolver o seu referencial te&#xF3;rico <em>depois</em> de ter realizado uma ampla revis&#xE3;o de literatura, que deve ser capaz de mostrar a voc&#xEA; a multiplicidade de abordagens adotada com rela&#xE7;&#xE3;o ao seu objeto.</p><p>Se voc&#xEA; fizer uma revis&#xE3;o muito focada, &#xE9; poss&#xED;vel que voc&#xEA; localize somente a produ&#xE7;&#xE3;o convergente com as suas intui&#xE7;&#xF5;es, e n&#xE3;o a produ&#xE7;&#xE3;o que &#xE9; cr&#xED;tica (ou mesmo c&#xE9;tica) com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; sua metodologia e &#xE0; viabilidade do seu problema de pesquisa. Vale a pena voc&#xEA; explorar a produ&#xE7;&#xE3;o em &#xE1;reas conexas (hist&#xF3;ria, sociologia, filosofia, ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica), pois &#xE9; sempre no contato com o estrangeiro que percebemos as peculiaridades de nossa cultura. Essa, inclusive, &#xE9; principal virtude da antropologia: o olhar de uma pessoa <em>estranha</em>, imersa em uma cultura que n&#xE3;o lhe &#xE9; familiar, pode notar padr&#xF5;es que escapam &#xE0;s pessoas que est&#xE3;o imersas nessa pr&#xF3;pria cultura.</p><p>Ningu&#xE9;m consegue ser externo a si pr&#xF3;prio. Por&#xE9;m, quando voc&#xEA; explora pesquisas de pessoas que adotam perspectivas diversas da sua, esse contato com a diferen&#xE7;a tem a possibilidade de estimular uma percep&#xE7;&#xE3;o diversa sobre a pr&#xF3;pria pr&#xE1;tica. Esse &#xE9; um dos motivos pelos quais a universidade precisa ser plural e ter espa&#xE7;o para m&#xFA;ltiplas vozes: a nossa cren&#xE7;a de que a diversidade &#xE9; capaz de gerar estranhamentos e que esses estranhamentos s&#xE3;o produtivos. N&#xE3;o &#xE9; por acaso que a tradi&#xE7;&#xE3;o plat&#xF4;nica acentua que a filosofia est&#xE1; ligada &#xE0; capacidade de <em>espanto</em> frente a situa&#xE7;&#xF5;es que nos s&#xE3;o familiares.</p><p>Trabalhos de hist&#xF3;ria do direito, de sociologia jur&#xED;dica e de direito comparado s&#xE3;o &#xF3;timas fontes no sentido de identificar a multiplicidade de abordagens poss&#xED;veis, pois essas s&#xE3;o disciplinas que comportam teorias com perspectivas muito diversas entre si. Mas leia com especial cuidado os trabalhos de filosofia do direito, porque essa abordagem foca sobretudo no modo como as categorias se relacionam. Trabalhos de filosofia envolvem (direta ou indiretamente) reflex&#xF5;es sobre as abordagens te&#xF3;ricas em conflito, sobre os limites das categorias, sobre as potencialidades e limites de certas formas de classificar os fen&#xF4;menos jur&#xED;dicos.</p><p>Se voc&#xEA; utilizar a sua <em>revis&#xE3;o de bibliografia</em> como um bal&#xE3;o de ensaio para produzir espanto, a partir do estranhamento produzido pela diferen&#xE7;a, ela ser&#xE1; o seu melhor instrumento para que voc&#xEA; perceba as categorias que voc&#xEA; usa. Para realizar esse objetivo, voc&#xEA; deve evitar cuidadosamente as armadilhas do discurso dogm&#xE1;tico do direito, que se concentra em buscar refer&#xEA;ncias que fortalecem a tese defendida. No caso da pesquisa, a sua explora&#xE7;&#xE3;o da literatura existente precisa identificar tanto os textos que s&#xE3;o convergentes com as suas intui&#xE7;&#xF5;es quanto os textos que apontam em sentido diverso.</p><p>Os trabalhos <em>diferentes</em> v&#xE3;o contribuir para que voc&#xEA; compreenda as distin&#xE7;&#xF5;es e, com isso, reforce a consci&#xEA;ncia da pr&#xF3;pria identidade. E os trabalhos <em>convergentes</em> v&#xE3;o servir propriamente como o seu <em>marco te&#xF3;rico</em>, na medida em que v&#xE3;o fornecer a voc&#xEA; um repert&#xF3;rio de descri&#xE7;&#xF5;es, de explica&#xE7;&#xF5;es, de abordagens, de classifica&#xE7;&#xF5;es e de conceitos que voc&#xEA; pode utilizar como <em>modelo</em>.</p><p>Em trabalhos de gradua&#xE7;&#xE3;o, especializa&#xE7;&#xE3;o e at&#xE9; mesmo de mestrado, uma das sa&#xED;das adequadas &#xE9; a de unir <em>revis&#xE3;o de literatura</em> e <em>referencial te&#xF3;rico</em> no mesmo t&#xF3;pico. Embora n&#xE3;o se trate da mesma coisa, uma forma de mostrar o marco te&#xF3;rico &#xE9; ir indicando, dentro da revis&#xE3;o, quais s&#xE3;o os textos que ofereceram os modelos que voc&#xEA; utilizar&#xE1;.</p><p>Nos doutorados, conv&#xE9;m manter a diferen&#xE7;a para deixar claro que o estudante (ou candidato) tem clareza te&#xF3;rica suficiente para separar esses dois elementos, mas no n&#xED;vel de complexidade dos mestrados, pode ser suficiente apontar os trabalhos com os quais existe afinidade e marcar a diferen&#xE7;a com rela&#xE7;&#xE3;o a perspectivas alternativas, pois esse trabalho ajuda a mostrar, dentro do campo de estudos, onde se encaixa o trabalho que voc&#xEA; pretende realizar.</p><h2 id="4-a-variada-relev-ncia-do-marco-te-rico"><strong>4. A variada relev&#xE2;ncia do marco te&#xF3;rico</strong></h2><p>Cada pesquisa tem as suas particularidades e devemos reconhecer que nem sempre o marco te&#xF3;rico &#xE9; um elemento central. Nos trabalhos mais <em>explicativos</em>, que buscam tra&#xE7;ar rela&#xE7;&#xF5;es de causalidade, o marco te&#xF3;rico &#xE9; um elemento indispens&#xE1;vel e complexo, pois &#xE9; preciso estabelecer claramente os crit&#xE9;rios te&#xF3;ricos que justificam a infer&#xEA;ncia de rela&#xE7;&#xF5;es causais.</p><p>As metodologias voltadas a inferir a exist&#xEA;ncia de causalidade s&#xE3;o calcadas em um uso complexo das teorias, exigindo uma combina&#xE7;&#xE3;o de desenvolvimentos te&#xF3;ricos e metodol&#xF3;gicos que n&#xE3;o se espera de um mestrado. Nos mestrados, &#xE9; razo&#xE1;vel que o pesquisador <em>aplique uma metodologia j&#xE1; desenvolvida</em>, mas o desafio de modelar uma metodologia explicativa costuma exigir um tempo incompat&#xED;vel com esses cursos. A formula&#xE7;&#xE3;o de uma abordagem metodol&#xF3;gica original &#xE9; esperada nos doutorados, que por isso mesmo duram o dobro do tempo, o que permite que o pesquisador dedique dois anos a estabelecer sua metodologia (defendida publicamente na <em>qualifica&#xE7;&#xE3;o</em>) e outros dois anos a aplic&#xE1;-la.</p><p>Nos trabalhos emp&#xED;ricos mais <em>descritivos</em>, o marco te&#xF3;rico &#xE9; importante, mas &#xE9; menos desafiador, na medida em que n&#xE3;o &#xE9; desnecess&#xE1;ria essa camada de <em>crit&#xE9;rios de aferi&#xE7;&#xE3;o de causalidade</em>. Isso faz com que o marco te&#xF3;rico seja mais simples, concentrando-se na explica&#xE7;&#xE3;o das categorias que s&#xE3;o usadas para descrever o objeto, especialmente nas classifica&#xE7;&#xF5;es que s&#xE3;o usadas. Essa simplifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; maior quando se tratade trabalhos descritivos que n&#xE3;o t&#xEA;m uma hip&#xF3;tese definida, mas que buscam mapear um determinado campo, como uma pesquisa voltada a estabelecer um perfil das decis&#xF5;es de Mandados de Seguran&#xE7;a no STJ. Nesse caso, o marco te&#xF3;rico ser&#xE1; basicamente composto de uma descri&#xE7;&#xE3;o das <em>vari&#xE1;veis</em> que ser&#xE3;o mensuradas para descrever as a&#xE7;&#xF5;es, e dos crit&#xE9;rios de classifica&#xE7;&#xE3;o que ser&#xE3;o utilizados.</p><p>Quando a pesquisa n&#xE3;o &#xE9; orientada somente por objetivos (como &#xE9; o caso da descri&#xE7;&#xE3;o das decis&#xF5;es de um determinado tipo de processo), mas lida com <em>hip&#xF3;teses descritivas</em> (por exemplo, o teste da hip&#xF3;tese de que as ju&#xED;zas s&#xE3;o mais interrompidas do que os ju&#xED;zes homens, nas se&#xE7;&#xF5;es de julgamento), &#xE9; preciso explicitar claramente as teorias que oferecem os crit&#xE9;rios de valida&#xE7;&#xE3;o ou invalida&#xE7;&#xE3;o das hip&#xF3;teses pelos resultados do trabalho. No caso da pesquisa mencionada, um dos elementos centrais da teoria seria o esclarecimento do que &#xE9; considerado <em>interrup&#xE7;&#xE3;o</em>. Todo coment&#xE1;rio &#xE9; interrup&#xE7;&#xE3;o? E quais s&#xE3;o os tipos de interrup&#xE7;&#xE3;o? &#xC9; diferente interromper o discurso para fazer um pedido de explica&#xE7;&#xF5;es, ou para contrapor-se, ou para fazer uma piada. Pode ser que as mulheres sejam mais interrompidas, mas uma descri&#xE7;&#xE3;o adequada do fen&#xF4;meno pode exigir que sejam classificadas as v&#xE1;rias formas de interrup&#xE7;&#xE3;o, visto que a medi&#xE7;&#xE3;o da <em>exist&#xEA;ncia de interrup&#xE7;&#xF5;es</em> pode n&#xE3;o descrever o fen&#xF4;meno de modo suficientemente complexo. Talvez haja um padr&#xE3;o nos tipos de interrup&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o se mostre na simples contagem do n&#xFA;mero de interrup&#xE7;&#xF5;es, que pode levar a conclus&#xF5;es enganosas ou insuficientes. Esse <em>conceito de interrup&#xE7;&#xE3;o</em>, bem como a <em>tipologia de interrup&#xE7;&#xF5;es</em> seria uma parte central do marco te&#xF3;rico dessa pesquisa.</p><p>Em toda pesquisa quantitativa de car&#xE1;ter conclusivo (em oposi&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s pesquisas explorat&#xF3;rias), o marco te&#xF3;rico exerce papel fundamental de orienta&#xE7;&#xE3;o do pesquisador desde o in&#xED;cio do processo de investiga&#xE7;&#xE3;o. Ele &#xE9; indispens&#xE1;vel para a formula&#xE7;&#xE3;o do problema, para a defini&#xE7;&#xE3;o das hip&#xF3;teses e para as demais etapas que comp&#xF5;em do desenho da pesquisa. Isso ocorre porque &#xE9; preciso ter uma teoria que estabele&#xE7;a claramente o modo como certas <em>medidas</em> podem justificar certas <em>conclus&#xF5;es</em>.</p><p>Quando uma correla&#xE7;&#xE3;o pode ser considerada causalidade? Que tipo de configura&#xE7;&#xE3;o de dados pode nos indicar que as mulheres s&#xE3;o efetivamente mais interrompidas do que os homens, <em>pelo fato de serem mulheres</em>? Pode acontecer de escolhermos um tribunal em que as mulheres s&#xE3;o mais interrompidas que os homens, mas essa diverg&#xEA;ncia pode ser explicada por outros fatores: talvez a interrup&#xE7;&#xE3;o seja mais constante no caso de ju&#xED;zes com muitos votos divergentes e as ju&#xED;zas podem divergir mais. Nesse caso, ser mulher n&#xE3;o seria um fator que causaria mais interrup&#xE7;&#xF5;es. Para poder lidar com essas quest&#xF5;es, &#xE9; preciso desenvolver uma metodologia adequada, mas isso por sua vez depende de uma teoria adequada: sobre significado das interrup&#xE7;&#xF5;es, sobre classifica&#xE7;&#xF5;es dos ju&#xED;zes, sobre as rela&#xE7;&#xF5;es entre diverg&#xEA;ncia e interrup&#xE7;&#xF5;es.</p><p>Para as pesquisas emp&#xED;ricas quantitativas, contar com um marco te&#xF3;rico definido &#xE9; vital para que seja poss&#xED;vel alcan&#xE7;ar bons resultados. J&#xE1; nas pesquisas qualitativas, o marco te&#xF3;rico desempenha, com frequ&#xEA;ncia, um papel ancilar nas fases iniciais da investiga&#xE7;&#xE3;o, servindo, basicamente, para justificar a necessidade de sua realiza&#xE7;&#xE3;o e oferecer algumas orienta&#xE7;&#xF5;es sobre o caminho a ser trilhado pelo pesquisador. Isso acontece porque as perspectivas qualitativas muitas vezes se baseiam na capacidade individual do pesquisador de formular interpreta&#xE7;&#xF5;es, a partir do seu pr&#xF3;prio horizonte de compreens&#xE3;o. Nesse caso, &#xE9; dif&#xED;cil estabelecer um <em>marco te&#xF3;rico</em> predefinido, uma forma espec&#xED;fica de lidar com os dados, visto que eles ser&#xE3;o interpretados ao longo do processo.</p><p>Nas metodologias qualitativas, a abordagem coloca o pesquisador frente a fen&#xF4;menos complexos que desafiam a sua interpreta&#xE7;&#xE3;o, o que faz com que a escolha dos repert&#xF3;rios conceituais muitas vezes seja feito <em>ao longo do processo</em>. Quando enfrentamos os desafios de compreender o sentido das entrevistas, de identificar os argumentos centrais, ou de identificar os pressupostos filos&#xF3;ficos de uma pr&#xE1;tica cultural, &#xE9; dif&#xED;cil partir de uma rede predefinida de conceitos (como aqueles que s&#xE3;o necess&#xE1;rios para fazer um levantamento quantitativo de dados). Nesses casos, o marco te&#xF3;rico &#xE9; importante, mas ele pode ser simplificado.</p><p>Em vez de indicar todas as categorias que ser&#xE3;o usadas, ser&#xE1; suficiente indicar as perspectivas gerais que orientam a pesquisa. Para quem faz o projeto, pode parecer uma boa escolha, j&#xE1; que desonera o projeto de um desenvolvimento te&#xF3;rico mais abrangente. Entretanto, isso tamb&#xE9;m significa um risco (come&#xE7;ar a pesquisa sem uma defini&#xE7;&#xE3;o clara das categorias que ser&#xE3;o usadas) e imp&#xF5;e ao pesquisador um peso muito maior: j&#xE1; que n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel definir todos os conceitos de antem&#xE3;o, o pesquisador dever&#xE1; contar com um repert&#xF3;rio muito amplo de conceitos para poder lidar com o seu objeto. Isso faz com que os pesquisadores qualitativos tenham de ter uma forma&#xE7;&#xE3;o filos&#xF3;fica mais s&#xF3;lida e uma &quot;sensibilidade conceitual&quot; muito desenvolvida, sem a qual n&#xE3;o lhes seria poss&#xED;vel formular as categorias conceituais a partir do contato com o objeto de pesquisa.</p><p>Quanto mais simplificado o marco te&#xF3;rico do projeto, mais a realiza&#xE7;&#xE3;o da pesquisa depende de um conhecimento te&#xF3;rico especialmente amplo dos pesquisadores. Isso &#xE9; o que ocorre, por exemplo, nas abordagens de <em>teoria fundamentada</em>, que t&#xEA;m por objetivo desenvolver categorias te&#xF3;ricas de forma indutiva, a partir dos dados levantados na pesquisa: as proposi&#xE7;&#xF5;es te&#xF3;ricas surgem dos dados emp&#xED;ricos obtidos no processo de investiga&#xE7;&#xE3;o, e n&#xE3;o em estudos pr&#xE9;vios. Trata-se, pois, de um desenho de pesquisa muito arriscado para quem n&#xE3;o tem um repert&#xF3;rio conceitual amplo e n&#xE3;o conta com orienta&#xE7;&#xE3;o adequada.</p><p>No caso das pesquisas quantitativas, que exigem marcos conceituais muito definidos, &#xE9; comum que uma pesquisa de mestrado possa se limitar a indicar uma determinada teoria, que ser&#xE1; implementada a partir de seus conceitos e metodologias. Esse tipo de abordagem pressup&#xF5;e um campo j&#xE1; mapeado, com teorias desenvolvidas, com conceitos estratificados e bem definidos. Mas o que podemos fazer em uma pesquisa explorat&#xF3;ria? Nesse caso, o o pesquisador decide se lan&#xE7;ar em campo de conhecimento ainda pouco explorado, em que somente haja fragmentos te&#xF3;ricos ou descobertas interessantes, mas parciais, que n&#xE3;o constituam uma teoria propriamente dita, com o n&#xED;vel de desenvolvimento necess&#xE1;rio para se qualificar como tal.</p><p>Nos campos em que n&#xE3;o existem teorias claras, n&#xE3;o se pode exigir que o pesquisador indique previamente uma teoria &#xE0; qual o trabalho se filiar&#xE1;. Ainda assim, o pesquisador pode construir seu marco te&#xF3;rico a partir das orienta&#xE7;&#xF5;es ou elementos parciais para desenvolver os estudos de natureza explorat&#xF3;ria. Quando h&#xE1; teorias estratificadas e metodologias bem definidas, &#xE9; poss&#xED;vel que o pesquisador (normalmente em abordagens emp&#xED;ricas quantitativas) chegue a bons resultados mediante a aplica&#xE7;&#xE3;o de modelos predefinidos. J&#xE1; no caso das pesquisas explorat&#xF3;rias, assim como nas pesquisas qualitativas, o sucesso da investiga&#xE7;&#xE3;o depender&#xE1; muito da habilidade do pesquisador, da extens&#xE3;o e da riqueza dos seus conhecimentos.</p><p>Portanto, a complexidade do marco te&#xF3;rico do projeto &#xE9; inversamente proporcional &#xE0;s exig&#xEA;ncias te&#xF3;ricas e filos&#xF3;ficas que recaem sobre o pesquisador. Quanto mais claro o marco te&#xF3;rico, quanto mais desenvolvido o quadro conceitual a ser usado, menor ser&#xE1; o trabalho te&#xF3;rico que o pesquisador precisar&#xE1; fazer ao longo do trabalho. Se voc&#xEA; puder definir de antem&#xE3;o o seu quadro conceitual, de modo bem ajustado com a metodologia, sua pesquisa poder&#xE1; constituir uma <em>aplica&#xE7;&#xE3;o do quadro te&#xF3;rico</em> a um conjunto de observa&#xE7;&#xF5;es emp&#xED;ricas. Se voc&#xEA; n&#xE3;o tiver a possibilidade de definir previamente esse quadro, a pesquisa exigir&#xE1; que voc&#xEA; tome essas decis&#xF5;es metodol&#xF3;gicas e te&#xF3;ricas ao longo do processo, de forma aut&#xF4;noma, um exerc&#xED;cio que &#xE9; mais indicado para pesquisadores experientes ou pesquisadores que puderem contar com uma orienta&#xE7;&#xE3;o te&#xF3;rica e metodol&#xF3;gica constante e intensa.</p><h2 id="5-a-coer-ncia-do-marco-te-rico"><strong>5. A coer&#xEA;ncia do marco te&#xF3;rico</strong></h2><p>A qualidade de um marco te&#xF3;rico n&#xE3;o &#xE9; medida por sua extens&#xE3;o ou pelo n&#xFA;mero de refer&#xEA;ncias contidas em seu texto. A apresenta&#xE7;&#xE3;o de um amontoado de cita&#xE7;&#xF5;es desconectadas entre si ou a abordagem de temas que n&#xE3;o se relacionam diretamente ao problema de pesquisa s&#xE3;o exemplos de estrat&#xE9;gias ruins para a realiza&#xE7;&#xE3;o dessa atividade. Em vez disso, sugere-se, para a constru&#xE7;&#xE3;o de um marco te&#xF3;rico adequado, a observ&#xE2;ncia dos crit&#xE9;rios de seletividade, profundidade e coer&#xEA;ncia.</p><p>A seletividade confere foco &#xE0; perspectiva te&#xF3;rica desenvolvida pelo pesquisador. A delimita&#xE7;&#xE3;o precisa do objeto de pesquisa &#xE9; uma reconhecida virtude de um estudo cient&#xED;fico, que tamb&#xE9;m deve balizar a constru&#xE7;&#xE3;o do marco te&#xF3;rico. Retomar aspectos te&#xF3;ricos muito elementares de uma &#xE1;rea tem&#xE1;tica abrangente ou antecedentes hist&#xF3;ricos remotos que n&#xE3;o possuem rela&#xE7;&#xE3;o de proximidade com o problema investigado pode tornar o projeto ou o relat&#xF3;rio de pesquisa mais prolixo, sem, no entanto, contribuir para a qualidade do trabalho.</p><p>Em vez de extens&#xE3;o, recomenda-se profundidade, caracter&#xED;stica que se relaciona &#xE0; anterior. Diferentemente dos manuais, que se prop&#xF5;em a abarcar as diversas tem&#xE1;ticas relativas a determinado ramo do direito, as pesquisas cient&#xED;ficas se debru&#xE7;am sobre problemas espec&#xED;ficos, bem delimitados e com certo grau de profundidade. N&#xE3;o se deve qualificar como pesquisa cient&#xED;fica um estudo que somente se disponha a examinar dado problema de forma superficial e desconectada da literatura especializada existente sobre o assunto. A profundidade exigida do pesquisador na an&#xE1;lise do problema formulado reflete-se na tarefa de constru&#xE7;&#xE3;o do marco te&#xF3;rico, devendo ser com ela compat&#xED;vel.</p><p>Coer&#xEA;ncia diz respeito &#xE0; ado&#xE7;&#xE3;o de mecanismos de liga&#xE7;&#xE3;o l&#xF3;gica entre os elementos do marco te&#xF3;rico. As postula&#xE7;&#xF5;es ou afirma&#xE7;&#xF5;es te&#xF3;ricas devem estar entrela&#xE7;adas, concatenadas, bem como devem ser consistentes entre si.</p><p>Ao mencionarmos as postula&#xE7;&#xF5;es ou afirma&#xE7;&#xF5;es de um ou mais autores como elementos do marco te&#xF3;rico, dois esclarecimentos se fazem necess&#xE1;rios. Em primeiro lugar, &#xE9; conveniente ressaltar que o marco te&#xF3;rico n&#xE3;o corresponde, como regra, &#xE0; integralidade da obra de determinado autor. O marco te&#xF3;rico &#xE9; constitu&#xED;do, na verdade, por alguma afirma&#xE7;&#xE3;o ou concep&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica de um autor, cujo conjunto da obra pode ser formado por teorias distintas, relacionadas a quest&#xF5;es diversas ou, at&#xE9; mesmo, incompat&#xED;veis entre si.</p><p>Al&#xE9;m disso, uma pesquisa pode ter mais de um autor como marco te&#xF3;rico ou, ainda, mais de um marco te&#xF3;rico. Isso pode ocorrer, por exemplo, em investiga&#xE7;&#xF5;es interdisciplinares ou em estudos que adotem processos mistos de pesquisa. O que importa, nesses casos, &#xE9; que os diferentes autores ou marcos te&#xF3;ricos sejam convergentes entre si e compat&#xED;veis com o problema de pesquisa.</p><h2 id="6-entendendo-os-conceitos-utilizados"><strong>6. Entendendo os conceitos utilizados</strong></h2><p>O primeiro passo para definir um marco te&#xF3;rico &#xE9; encarar as pr&#xF3;prias defini&#xE7;&#xF5;es, conceitos e tipologias como <em>classifica&#xE7;&#xF5;es poss&#xED;veis</em> e n&#xE3;o como <em>descri&#xE7;&#xF5;es corretas</em>. Esse tipo de opera&#xE7;&#xE3;o envolve um esfor&#xE7;o de <em>desnaturaliza&#xE7;&#xE3;o</em> dos pr&#xF3;prios marcos, que somente se mostra vi&#xE1;vel quando o estudante amplia os seus conhecimentos para al&#xE9;m do discurso dogm&#xE1;tico hegem&#xF4;nico, que normalmente &#xE9; o discurso aprendido na gradua&#xE7;&#xE3;o.</p><p>O primeiro passo para construir o marco te&#xF3;rico &#xE9; desnaturalizar os pr&#xF3;prios conceitos, &#xE9; observ&#xE1;-los cuidadosamente para compreender:</p><ol><li>quais s&#xE3;o as tipologias que usamos?</li><li>elas s&#xE3;o compat&#xED;veis entre si?</li><li>quais s&#xE3;o os seus pressupostos?</li><li>em que tipo de abordagem elas se encaixam?</li></ol><p>Esse &#xE9; um processo de autoconhecimento, que desafia fortemente nosso vi&#xE9;s de confirma&#xE7;&#xE3;o. Nossa tend&#xEA;ncia &#xE9; a de exigir pouco dos sistemas classificat&#xF3;rios que nos s&#xE3;o familiares: poucas justificativas, poucas explica&#xE7;&#xF5;es, poucas problematiza&#xE7;&#xF5;es. Antes de fazer uma escolha consciente sobre os modelos dispon&#xED;veis, &#xE9; preciso se dedicar a compreender os <em>modelos te&#xF3;ricos</em> que est&#xE3;o impl&#xED;citos no modo pelo qual n&#xF3;s <em>formulamos o problema</em> e <em>desenvolvemos a metodologia</em>.</p><p>O problema &#xE9; essa auto-observa&#xE7;&#xE3;o, al&#xE9;m de ser muito dif&#xED;cil, somente se torna vi&#xE1;vel quando aumentamos o nosso repert&#xF3;rio te&#xF3;rico o suficiente para que vejamos as nossas abordagens como <em>abordagens poss&#xED;veis</em>. Precisamos deixar a posi&#xE7;&#xE3;o do mestre de obras que somente sabe repetir as t&#xE9;cnicas construtivas que ele aprendeu e passemos &#xE0; posi&#xE7;&#xE3;o do mestre de obras que conhece alternativas adequadas <em>para diferentes situa&#xE7;&#xF5;es</em> e que, com isso, pode fazer escolhas t&#xE9;cnicas adequadas.</p><p>Esse tr&#xE2;nsito pode ser f&#xE1;cil de descrever, mas &#xE9; um movimento dif&#xED;cil de se realizar. O caminho para desenvolver essa <em>consci&#xEA;ncia te&#xF3;rica</em> &#xE9; longo, envolve muita leitura e, de fato, n&#xE3;o se espera que estudantes de mestrado cheguem a um alto grau de consci&#xEA;ncia te&#xF3;rica. Por isso, exig&#xEA;ncias te&#xF3;ricas mais s&#xF3;lidas tendem a ser realizadas apenas no n&#xED;vel do doutorado. Nos mestrados, espera-se dos pesquisadores a capacidade de <em>operar uma metodologia</em> e <em>operar dentro de um marco te&#xF3;rico</em>, mas sabemos que esses desenvolvimentos n&#xE3;o s&#xE3;o tipicamente oferecidos na gradua&#xE7;&#xE3;o e que v&#xE3;o ser desenvolvidos ao longo do curso, seja ele acad&#xEA;mico ou profissional.</p><p>Desenvolver <em>metodologias inovadoras</em> e <em>inova&#xE7;&#xF5;es te&#xF3;ricas</em> (criticando e propondo altera&#xE7;&#xF5;es mais substanciais das teorias dispon&#xED;veis, especialmente nas tipologias) &#xE9; algo que se espera apenas no final do processo de doutoramento, pois &#xE9; marca da originalidade que deve caracterizar o doutorado. &#xA0;Portanto, &#xE9; mais do que compreens&#xED;vel mestrandos tenham dificuldade na defini&#xE7;&#xE3;o do marco te&#xF3;rico, especialmente no in&#xED;cio do seu curso, quando precisam fixar o seu projeto de pesquisa.</p><p>Na constru&#xE7;&#xE3;o definitiva do projeto de pesquisa, a fixa&#xE7;&#xE3;o de um marco te&#xF3;rico &#xE9; um passo importante e devemos ter em mente que o seu desenvolvimento &#xE9; muito facilitado por uma boa orienta&#xE7;&#xE3;o: enquanto os estudantes raramente t&#xEA;m o repert&#xF3;rio de teorias que os permite escolher entre abordagens poss&#xED;veis, os orientadores s&#xE3;o pesquisadores experientes e contam com um repert&#xF3;rio te&#xF3;rico mais amplo. Isso faz com que uma das fun&#xE7;&#xF5;es dos orientadores seja indicar para os orientandos que h&#xE1; v&#xE1;rias abordagens poss&#xED;veis, de tal forma que a defini&#xE7;&#xE3;o do referencial te&#xF3;rico do trabalho seja fruto de uma <em>escolha</em> consciente, e n&#xE3;o da repeti&#xE7;&#xE3;o maqu&#xED;nica de um modelo tido como correto, especialmente quando se trata de um <em>modelo dogm&#xE1;tico</em>.</p><p>Embora a orienta&#xE7;&#xE3;o facilite o desenvolvimento dessa consci&#xEA;ncia, trata-se de um processo em que o estudante &#xE9; o protagonista: cabe ao pesquisador analisar cuidadosamente o seu problema e a sua metodologia, em busca de compreender a sua pr&#xF3;pria base te&#xF3;rica, em ao menos 3 dimens&#xF5;es.</p><h2 id="7-dimens-es-do-referencial-te-rico"><strong>7. Dimens&#xF5;es do referencial te&#xF3;rico</strong></h2><h3 id="d1-a-perspectiva-geral-de-abordagem-o-campo-te-rico"><strong>D1. A perspectiva geral de abordagem: o campo te&#xF3;rico</strong></h3><p>Essa perspectiva geral pode ser respondida a partir do seu problema, especificamente do tipo de quest&#xE3;o que ele prop&#xF5;e e das abordagens que ele suscita.</p><ol><li>Trata-se de uma quest&#xE3;o dogm&#xE1;tica? Nesse caso, voc&#xEA; deve estar se perguntando sobre os crit&#xE9;rios adequados de tomada de decis&#xE3;o: sobre a <em>interpreta&#xE7;&#xE3;o correta</em> de uma norma, sobre a adequa&#xE7;&#xE3;o de uma linha jurisprudencial, sobre a aplicabilidade de um princ&#xED;pio.</li><li>Trata-se de uma quest&#xE3;o hist&#xF3;rica? Nesse caso, voc&#xEA; n&#xE3;o se perguntar&#xE1; sobre se determinada decis&#xE3;o &#xE9; correta (ou devida, ou v&#xE1;lida), mas sobre o processo hist&#xF3;rico que conduziu a determinadas configura&#xE7;&#xF5;es sociais. Voc&#xEA; pode investigar a hist&#xF3;ria de uma interpreta&#xE7;&#xE3;o, de um conceito, de uma diverg&#xEA;ncia jurisprudencial, mas esse &#xE9; um tipo de enfoque se concentra em explicar <em>como certos fatos ocorreram</em>.</li><li>Trata-se de uma quest&#xE3;o de ci&#xEA;ncias sociais? Nesse caso, voc&#xEA; n&#xE3;o se perguntar&#xE1; sobre a hist&#xF3;ria de uma tomada de decis&#xE3;o, nem sobre os processos que levaram a certas rela&#xE7;&#xF5;es sociais a adotarem certo formato. A sua pergunta ser&#xE1; sobre as configura&#xE7;&#xF5;es da sociedade contempor&#xE2;nea, sobre as formas pelas quais os seres humanos praticam comportamentos coordenados. As ci&#xEA;ncias sociais (sociologia, ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica e antropologia) tipicamente &#xA0; explicam a atua&#xE7;&#xE3;o da sociedade introduzindo uma &quot;classifica&#xE7;&#xE3;o&quot; que permita dividir a sociedade como um todo em alguns subsistemas com caracter&#xED;sticas pr&#xF3;prias, por vezes chamados de <em>institui&#xE7;&#xF5;es</em> (economia, pol&#xED;tica, direito) e concentram-se na explica&#xE7;&#xE3;o de certos fen&#xF4;menos sociais a partir da intera&#xE7;&#xE3;o entre esses subsistemas.</li><li>Trata-se de uma quest&#xE3;o sociol&#xF3;gica? Quando o cientista se concentra no funcionamento de certas institui&#xE7;&#xF5;es sociais, a partir de uma observa&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica, &#xA0;chamamos esse trabalho tipicamente de <em>sociol&#xF3;gico</em>. A sociologia do direito tende a propor descri&#xE7;&#xF5;es e explica&#xE7;&#xF5;es acerca do modo como as institui&#xE7;&#xF5;es jur&#xED;dicas interagem com outros fatores sociais, em uma rede complexa de intera&#xE7;&#xF5;es. &#xA0;Portanto, as abordagens sociol&#xF3;gicas n&#xE3;o se concentram nos discursos dogm&#xE1;ticos, nos argumentos explicitados pelos ministros, mas nos comportamentos efetivos da corte. Pode-se perguntar, por exemplo, quais s&#xE3;o as fun&#xE7;&#xF5;es desempenhadas por um tribunal, quais s&#xE3;o as consequ&#xEA;ncias de determinadas decis&#xF5;es, qual &#xE9; a rela&#xE7;&#xE3;o do ensino jur&#xED;dico com a estrutura das profiss&#xF5;es jur&#xED;dicas. As abordagens sociol&#xF3;gicas se concentram em explicar o que uma institui&#xE7;&#xE3;o faz, e n&#xE3;o o que ela <em>diz que faz</em>.</li><li>Trata-se de uma abordagem de ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica? A ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica &#xE9; uma determinada vertente da <em>sociologia pol&#xED;tica</em> que concentra seus esfor&#xE7;os na compreens&#xE3;o do funcionamento do subsistema pol&#xED;tico de uma sociedade, bem como de sua intera&#xE7;&#xE3;o com outros subsistemas. A ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica normalmente adota um enfoque quantitativo</li><li>Trata-se de uma abordagem antropol&#xF3;gica? Abordagens antropol&#xF3;gicas costumam utilizar uma metodologia de <em>observa&#xE7;&#xE3;o participativa</em>, que aposta na inser&#xE7;&#xE3;o do pesquisador na comunidade que ele busca estudar, com o objetivo de realizar uma <em>investiga&#xE7;&#xE3;o qualitativa</em> capaz de descrever o modo como opera uma cultura.</li><li>Trata-se de uma abordagem filos&#xF3;fica? Abordagens filos&#xF3;ficas normalmente n&#xE3;o se concentram na observa&#xE7;&#xE3;o de fatos emp&#xED;ricos, mas na an&#xE1;lise de certos discursos, com o objetivo de compreender quais s&#xE3;os os seus pressupostos te&#xF3;ricos, quais s&#xE3;o as formas como eles se conectam com discursos filos&#xF3;ficos precedentes, quais s&#xE3;o as categorias que ele formula. Essas an&#xE1;lises filos&#xF3;ficas est&#xE3;o ligadas &#xE0; discuss&#xE3;o acerca das categorias utilizadas e do modo como elas se inter-relacionam.</li></ol><p>Perguntas como essas indicam algumas das <em>perspectivas gerais de abordagem</em> que o seu trabalho pode adotar. Trata-se de uma descri&#xE7;&#xE3;o muito gen&#xE9;rica e abstrata da perspectiva adotada pelo trabalho, que &#xE9; importante como ponto de partida, mas que nunca &#xE9; suficiente para organizar um trabalho, tendo em vista que cada uma dessas abordagens pode ser feitas de m&#xFA;ltiplas formas.</p><h3 id="d2-perspectiva-espec-fica-de-abordagem-a-teoria-de-base"><strong>D2. Perspectiva espec&#xED;fica de abordagem: a teoria de base</strong></h3><p>Uma vez definida a perspectiva geral, voc&#xEA; precisa dar um passo a mais e buscar, entre as muitas teorias existentes dentro de cada uma das abordagens, qual &#xE9; a perspectiva mais pr&#xF3;xima da abordagem que voc&#xEA; prop&#xF5;em no seu problema + metodologia.</p><p>A dificuldade nesse ponto &#xE9; a de que cada uma dessas &#xE1;reas conta com m&#xFA;ltiplas teorias, m&#xFA;ltiplas formas de abordagem, m&#xFA;ltiplos repert&#xF3;rios conceituais. S&#xE3;o tantas perspectivas que n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel esgotar essa tem&#xE1;tica em um curso geral de metodologia. Por&#xE9;m, podemos explorar algumas possibilidades.</p><ol><li>Se voc&#xEA; adotar uma perspectiva <em>dogm&#xE1;tica</em>, dificilmente ser&#xE1; poss&#xED;vel realizar propriamente uma pesquisa, visto que a dogm&#xE1;tica &#xE9; um discurso ligado &#xE0; defesa retoricamente adequada de teses jur&#xED;dicas. Se voc&#xEA; se pergunta sobre a corre&#xE7;&#xE3;o de uma determinada interpreta&#xE7;&#xE3;o, isso &#xE9; feito provavelmente porque voc&#xEA; pretende defender que uma interpreta&#xE7;&#xE3;o que voc&#xEA; j&#xE1; formulou &#xE9; correta. Embora n&#xE3;o seja poss&#xED;vel estabelecer uma metodologia emp&#xED;rica de an&#xE1;lise (pois a corre&#xE7;&#xE3;o de uma interpreta&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o &#xE9; mensur&#xE1;vel por uma an&#xE1;lise emp&#xED;rica), voc&#xEA; pode esclarecer da melhor forma poss&#xED;vel quais s&#xE3;o os crit&#xE9;rios hermen&#xEA;uticos que tornariam uma interpreta&#xE7;&#xE3;o correta. Algumas das teorias com maior uso nos trabalhos dogm&#xE1;ticos s&#xE3;o justamente teorias que estabelecem certos crit&#xE9;rios gerais de interpreta&#xE7;&#xE3;o correta, como a teoria da integridade de Dworkin e certas abordagens neoconstitucionalistas que oferecem crit&#xE9;rios para a aplica&#xE7;&#xE3;o de determinados princ&#xED;pios constitucionais.</li><li>Se voc&#xEA; adotar uma perspectiva hist&#xF3;rica, seu marco te&#xF3;rico deve ser primordialmente metodol&#xF3;gico: identificar uma teoria que esclare&#xE7;a quais s&#xE3;o as fontes que podem ser utilizadas, como elas devem ser trabalhadas e que tipo de conclus&#xF5;es voc&#xEA; pode tirar de determinadas fontes.</li><li>Se voc&#xEA; adotar uma perspectiva de ci&#xEA;ncias sociais, o mais comum &#xE9; que voc&#xEA; tenha de se posicionar inicialmente sobre uma quest&#xE3;o central dessa abordagem: se voc&#xEA; tentar explicar os comportamentos coletivos a partir de uma an&#xE1;lise de fatores individuais (interesses, prefer&#xEA;ncias, ideologias, etc), voc&#xEA; estar&#xE1; ligado a teorias cl&#xE1;ssicas fundadas na ag&#xEA;ncia (na atua&#xE7;&#xE3;o individual dos agentes); se voc&#xEA; inverter essa l&#xF3;gica e entender que os comportamentos individuais s&#xE3;o determinados pelas estruturas sociais, voc&#xEA; estar&#xE1; pr&#xF3;ximo do estruturalismo (que, na ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica, normalmente &#xE9; chamado de institucionalismo). Se voc&#xEA; tentar combinar de alguma forma <em>ag&#xEA;ncia</em> individual (como as prefer&#xEA;ncias ideol&#xF3;gicas dos ministros e a sua busca por prest&#xED;gio) com as decorr&#xEA;ncias das estruturas estabelecidas (como os crit&#xE9;rios de vota&#xE7;&#xE3;o de um Tribunal), voc&#xEA; estar&#xE1; no campo h&#xED;brido do <em>neoinstitucionalismo</em>.</li></ol><p>Nas pesquisas emp&#xED;ricas sobre o direito, a ado&#xE7;&#xE3;o de um marco neoinstitucional (impl&#xED;cito ou expl&#xED;cito) &#xE9; o mais comum. Se voc&#xEA; pretende identificar padr&#xF5;es decis&#xF3;rios a partir da an&#xE1;lise de certos elementos institucionais (como as leis, as formas de sele&#xE7;&#xE3;o dos ju&#xED;zes ou as fun&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas do judici&#xE1;rio) e de certos elementos de ag&#xEA;ncia (como o interesse pol&#xED;tico dos ministros, suas rela&#xE7;&#xF5;es interpessoais e caracter&#xED;sticas peculiares de seus processos de nomea&#xE7;&#xE3;o), voc&#xEA; estar&#xE1; frente a uma abordagem que pode se qualificar de <em>neoinstitucionalista</em>, um r&#xF3;tulo que &#xE9; bem comum nas pesquisas em ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica, mas pouco comum nas pesquisas em direito.</p><h3 id="d3-categrorias-espec-ficas-utilizadas-o-modelo-de-dados"><strong>D3. Categrorias espec&#xED;ficas utilizadas: o modelo de dados</strong></h3><p>Se o seu projeto lida com alguma forma de levantamento de dados, isso deve estar esclarecido na <em>metodologia</em> e voc&#xEA; deve ter algumas intui&#xE7;&#xF5;es acerca dos tipos de dados que voc&#xEA; pretende coletar. Com isso, voc&#xEA; deve ser capaz de indicar que coletar&#xE1; dados acerca de certos objetos (a unidade de an&#xE1;lise), sendo que para cada objeto voc&#xEA; levantar&#xE1; dados acerca de determinados atributos (as vari&#xE1;veis), com o objetivo de tentar identificar padr&#xF5;es na intera&#xE7;&#xE3;o ou comportamento de objetos que fazem parte de um determinado comunto (o universo de an&#xE1;lse). Para cada vari&#xE1;vel, voc&#xEA; deve ser capaz de tra&#xE7;ar a sua amplitude (os valores que podem ser atribu&#xED;dos a cada objeto), o que colocar&#xE1; na necessidade de entender as classifica&#xE7;&#xF5;es ligadas a cada atributo.</p><p>Se voc&#xEA; conseguir discernir com clareza (ao menos relativa) a unidade de an&#xE1;lise, o universo, as vari&#xE1;veis e as tipologias ligadas a elas, voc&#xEA; ter&#xE1; os elementos b&#xE1;sicos do seu modelo de dados. Todas essas categorias dever&#xE3;o estar devidamente explicadas no seu marco te&#xF3;rico, especialmente quando elas envolverem tipologias.</p><p>O desenvolvimento de tipologias &#xE9; uma tarefa &#xE1;rdua, complicada e sujeita a muitos percal&#xE7;os. N&#xF3;s erramos muito e penamos muito at&#xE9; chegar a uma tipologia minimamente adequada. Por isso mesmo, todo pesquisador prefere adotar padr&#xF5;es classificat&#xF3;rios que j&#xE1; foram desenvolvidos em trabalhos pr&#xF3;prios, que j&#xE1; foram testados em pesquisas anteriores e que j&#xE1; foram validados pela sua aprova&#xE7;&#xE3;o em uma banca ou em <em>peer review</em>.</p><p>Adotar classifica&#xE7;&#xF5;es alheias &#xE9; uma forma de evitar um trabalho imenso e de incorporar reflex&#xF5;es valiosas. &#xC9; claro que isso nem sempre &#xE9; poss&#xED;vel, pois muitas vezes voc&#xEA; trabalha em campos pouco explorados, em que faltam referenciais te&#xF3;ricos adequados. Nesse caso, por&#xE9;m, o mais prov&#xE1;vel &#xE9; que voc&#xEA; tenha de se limitar a fazer uma pesquisa explorat&#xF3;ria, que n&#xE3;o parte de marcos definidos, mas parte do reconhecimento de que &#xE9; necess&#xE1;rio construir esses marcos (o que &#xE9; o objetivo espec&#xED;fico das pesquisas explorat&#xF3;rias, que se voltam a construir categorias capazes de guiar outras pesquisas, de car&#xE1;ter conclusivo).</p><h2 id="8-conclus-o"><strong>8. Conclus&#xE3;o</strong></h2><p>O marco te&#xF3;rico deve ser pensado pelo pesquisador como uma forma de fixar um quadro conceitual dentro do qual poder&#xE1; trabalhar. Quando a fixa&#xE7;&#xE3;o desse marco pode ser feita de modo preciso, &#xE9; prefer&#xED;vel que voc&#xEA; fa&#xE7;a isso. Quando n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel, voc&#xEA; precisa desenvolver os esclarecimentos te&#xF3;ricos de modo mais autoral e, possivelmente, ter&#xE1; de fazer muitas escolhas te&#xF3;ricas ao longo do trabalho.</p><p>Em pesquisas explorat&#xF3;rias, os marcos te&#xF3;ricos s&#xE3;o mais gen&#xE9;ricos e d&#xE9;beis, pois n&#xE3;o h&#xE1; uma rede de categorias consolidada que pode guiar o pesquisador. Nesse caso, voc&#xEA; pode fazer uma revis&#xE3;o de bibliografia indicando a falta de trabalhos na &#xE1;rea e de quadros de refer&#xEA;ncia bem estabelecidos, e dentro dessa revis&#xE3;o indicar alguns textos com os quais o seu trabalho pretende dialogar.</p><p>Em pesquisas qualitativas, os marcos te&#xF3;ricos podem avan&#xE7;ar um pouco mais, mas especialmente no que chamamos de primeira dimens&#xE3;o: a do quadro te&#xF3;rico mais geral, ligado &#xE0; perspectiva geral de abordagem. A escolha de uma abordagem hist&#xF3;rica leva a certas escolhas metodol&#xF3;gicas e te&#xF3;ricas diferentes de uma abordagem sociol&#xF3;gica, e o seu referencial pode dedicar um ou dois par&#xE1;grafos para mostrar que voc&#xEA; &#xE9; consciente dessa inser&#xE7;&#xE3;o e de suas implica&#xE7;&#xF5;es. Essas s&#xE3;o pesquisas em que a metodologia tamb&#xE9;m &#xE9; mais gen&#xE9;rica e deixa muito espa&#xE7;o para a interpreta&#xE7;&#xE3;o, o que tamb&#xE9;m contribui para diminuir o peso do marco te&#xF3;rico e para aumentar as exig&#xEA;ncias de conhecimento te&#xF3;rico do pesquisador.</p><p>Em pesquisas quantitativas, mesmo que meramente <em>descritivas</em>, o marco te&#xF3;rico costuma ser mais robusto, pois a an&#xE1;lise de dados exige a constru&#xE7;&#xE3;o de um <em>modelo de dados</em> claro, com categorias bem definidas, com codifica&#xE7;&#xF5;es adequadas. Essas exig&#xEA;ncias metodol&#xF3;gicas resultam em um quadro te&#xF3;rico mais denso, que precisa ser definido <em>a prirori</em>, para que seja vi&#xE1;vel partir para as observa&#xE7;&#xF5;es emp&#xED;ricas.</p><p>Em pesquisas quantitativas <em>explicativas</em>, o marco te&#xF3;rico alcan&#xE7;a seu m&#xE1;ximo de complexidade, pois al&#xE9;m de um esclarecimento geral do campo e de uma explicita&#xE7;&#xE3;o das categorias usadas no modelo de dados, &#xE9; tamb&#xE9;m preciso introduzir um elemento te&#xF3;rico complexo: a identifica&#xE7;&#xE3;o dos crit&#xE9;rios que ser&#xE3;o utilizados para identificar a presen&#xE7;a de causalidade. Nesses casos, cresce a relev&#xE2;ncia e a complexidade do marco te&#xF3;rico, que provavelmente ter&#xE1; de designar <em>teorias</em> espec&#xED;ficas, que lidem com a quest&#xE3;o da infer&#xEA;ncia causal.</p><p>Dado que a fixa&#xE7;&#xE3;o desses marcos depende de um repert&#xF3;rio te&#xF3;rico amplo, a fixa&#xE7;&#xE3;o definitiva do referencial te&#xF3;rico (que integrar&#xE1; o trabalho final) &#xE9; uma atividade que deve ser realizada em conjunto com os orientadores, especialmente nos n&#xED;veis de especializa&#xE7;&#xE3;o e mestrado. Por&#xE9;m, na defini&#xE7;&#xE3;o provis&#xF3;ria (contida no projeto), conv&#xE9;m que os estudantes escolham um n&#xED;vel de complexidade compat&#xED;vel com a sua experi&#xEA;ncia e seu conhecimento te&#xF3;rico, sendo uma boa estrat&#xE9;gia a unifica&#xE7;&#xE3;o entre o referencial te&#xF3;rico ea revis&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica.</p><p>Al&#xE9;m disso, &#xE9; conveniente que pesquisadores iniciantes optem por pesquisas que n&#xE3;o exijam o desenvolvimento de metodologias pr&#xF3;prias e de marcos te&#xF3;ricos inovadores, pois esse tipo de escolha pode exigir um tempo que n&#xE3;o &#xE9; dispon&#xED;vel nas gradua&#xE7;&#xF5;es, especializa&#xE7;&#xF5;es e mesmo nos mestrados. Na pr&#xE1;tica, sugere-se que pesquisas emp&#xED;ricas feitas nesse grau sigam modelos previamente testados (especialmente quando se trata de pesquisas conclusivas) ou que adotem uma perspectiva mais descritiva. Por fim sugere-se que seja avaliada com cuidado a escolha de pesquisas qualitativas que diminuem a necessidade de explicitar o marco te&#xF3;rico no projeto, mas que imp&#xF5;em ao pesquisador a necessidade de desenvolver habilidades te&#xF3;ricas e metodol&#xF3;gicas sofisticadas para que possam realizar adequadamente a investiga&#xE7;&#xE3;o proposta.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Classificações e Marco Teórico]]></title><description><![CDATA[<h2 id="1-classifica-es-e-categorias-te-ricas"><strong>1. Classifica&#xE7;&#xF5;es e categorias te&#xF3;ricas</strong></h2><p>A classifica&#xE7;&#xE3;o dos dados se d&#xE1; quando o pesquisador insere conceitos capazes de promover uma segmenta&#xE7;&#xE3;o dos fen&#xF4;menos em diferentes <em>classes</em>, que precisam ser tratadas de forma independente para que a</p>]]></description><link>https://metodologia.agu.arcos.org.br/classificar/</link><guid isPermaLink="false">6453ae8a26359b7467f97047</guid><dc:creator><![CDATA[Alexandre Costa]]></dc:creator><pubDate>Mon, 12 Oct 2020 14:18:27 GMT</pubDate><content:encoded><![CDATA[<h2 id="1-classifica-es-e-categorias-te-ricas"><strong>1. Classifica&#xE7;&#xF5;es e categorias te&#xF3;ricas</strong></h2><p>A classifica&#xE7;&#xE3;o dos dados se d&#xE1; quando o pesquisador insere conceitos capazes de promover uma segmenta&#xE7;&#xE3;o dos fen&#xF4;menos em diferentes <em>classes</em>, que precisam ser tratadas de forma independente para que a explica&#xE7;&#xE3;o fa&#xE7;a sentido. </p><p>Por exemplo, podemos analisar as ADIs em busca de compreender os padr&#xF5;es de ajuizamento desse tipo de a&#xE7;&#xE3;o, um desafio que foi enfrentado no artigo <a href="http://www.periodicos.ufc.br/revcienso/article/view/30926?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Evolu&#xE7;&#xE3;o do perfil dos demandantes no controle concentrado de constitucionalidade realizado pelo STF por meio de ADIs e ADPFs</a>. </p><p>Esse tipo de investiga&#xE7;&#xE3;o exigia que fiz&#xE9;ssemos um levantamento dos <em>Requerentes</em> que ajuizaram as ADIs e ADPFs, o que nos leva a uma lista bastante heterog&#xEA;nea, com mais de 800 atores, que ajuizaram mais de 6000 processos. Na m&#xE9;dia, cada ator tinha ajuizado cerca de 8 a&#xE7;&#xF5;es, mas essa m&#xE9;dia n&#xE3;o quer dizer rigorosamente nada porque havia uma grande concentra&#xE7;&#xE3;o das a&#xE7;&#xF5;es em alguns poucos atores: os vinte demandantes com mais a&#xE7;&#xF5;es tinham ajuizado mais de metade dos processos:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2020/10/image.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="647" height="459" srcset="https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/size/w600/2020/10/image.png 600w, https://metodologia.agu.arcos.org.br/content/images/2020/10/image.png 647w"></figure><p>Por outro lado, mais de 500 demandantes haviam ingressado apenas com 1 a&#xE7;&#xE3;o e 90 demandantes haviam ajuizados apenas 2 a&#xE7;&#xF5;es. Essa grande dispers&#xE3;o faz com que a maior parte dos trabalhos que tentaram entender os padr&#xF5;es de ajuizamento n&#xE3;o tenha se concentrado nos <em>agentes </em>individuais que moveram as a&#xE7;&#xF5;es, mas nos <em>tipos de agentes </em>com legitimidade para mover tais a&#xE7;&#xF5;es<em>, </em>especialmente<em> </em>: governadores, partidos pol&#xED;ticos, entidades de classe, MP e OAB.</p><p>Para reduzir essa multiplicidade de atores a certas <em>classes</em>, precisamos criar categorias que viabilizem essa subdivis&#xE3;o, que correspondem aos <em>tipos</em> citados acima. Cada categoria tem uma certa defini&#xE7;&#xE3;o sem&#xE2;ntica (que diz o que ela significa) e aponta para um certo conjunto de objetos, mais ou menos heterog&#xEA;neos.</p><p>Uma categoria curiosa, que costuma aparecer em nossas classifica&#xE7;&#xF5;es, &#xE9; <em>outros</em>. Nesse caso, podemos usar <em>outros</em> para designar todos os objetos que n&#xE3;o entram na categorias que definem as pessoas com legitimidade para mobilizar o controle concentrado, e que podem entrar na classifica&#xE7;&#xE3;o <em>outros</em>: pessoas f&#xED;sicas, diret&#xF3;rios regionais de partidos pol&#xED;ticos, entidades nacionais que n&#xE3;o s&#xE3;o de classe, entidades de classe regionais, etc.</p><p>Quando fazemos essa uni&#xE3;o de certos objetos em determinados <em>grupos de objetos</em>, podemos gerar a possibilidade de fazer interpreta&#xE7;&#xF5;es interessantes, desde que o crit&#xE9;rio de agrupamento seja relevante. A experi&#xEA;ncia nos sugere que &#xE9; poss&#xED;vel fazer afirma&#xE7;&#xF5;es interessantes sobre a atua&#xE7;&#xE3;o dos <em>partidos pol&#xED;ticos</em> em geral, e n&#xE3;o apenas de cada partido, em particular. </p><p>Quando n&#xE3;o cont&#xE1;vamos com os programas atuais de computa&#xE7;&#xE3;o, essa classifica&#xE7;&#xE3;o costumava ser feita pela defini&#xE7;&#xE3;o de um sistema de <em>c&#xF3;digos</em>, que inclusive foi utilizado no banco de dados do referido artigo. Os governadores foram codificados como &quot;5&quot;, o presidente foi codificado como &quot;1&quot;, os partidos pol&#xED;ticos como &quot;8&quot;. A atribui&#xE7;&#xE3;o de um c&#xF3;digo num&#xE9;rico &#xE9; uma maneira que agiliza muito o trabalho quando fazemos essas classifica&#xE7;&#xF5;es de forma manual e a capacidade reduzida dos primeiros programas de computador utilizados para essa finalidade tamb&#xE9;m exigia a cria&#xE7;&#xE3;o de sistemas de c&#xF3;digos. Por esse motivo, falamos em <em>codifica&#xE7;&#xE3;o</em>, para tratar desses sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Hoje, n&#xE3;o precisamos usar c&#xF3;digos, pois podemos trabalhar sem problema com as <em>classes </em>a que esses c&#xF3;digos se referem. Por&#xE9;m, a utiliza&#xE7;&#xE3;o de c&#xF3;digos pode ser uma estrat&#xE9;gia classificadora interessante, especialmente quando tratamos de m&#xFA;ltiplos n&#xED;veis de classifica&#xE7;&#xE3;o simult&#xE2;neo. Esse &#xE9; o caso da classifica&#xE7;&#xE3;o dos atos impugnados, cujos c&#xF3;digos indicam simultaneamente a distin&#xE7;&#xE3;o de &#xF3;rg&#xE3;o federativo (Federal, Estadual, Municipal) e do tipo de ato (Leis, Medidas Provis&#xF3;rias, Atos do Judici&#xE1;rio, etc.).</p><h2 id="explicando-os-conceitos-ligados-classifica-o">Explicando os conceitos ligados &#xE0; classifica&#xE7;&#xE3;o</h2><p>A depender do enfoque adotado, daremos nomes diferentes aos elementos que comp&#xF5;em um sistema de classifica&#xE7;&#xE3;o. Na pesquisa emp&#xED;rica, normalmente nos encontramos frente ao desafio de fazer afirma&#xE7;&#xF5;es sobre um <em>universo</em>, que &#xE9; uma determinada popula&#xE7;&#xE3;o de <em>objetos</em> ou de <em>pessoas</em>. </p><p>Uma tabela tenta resumir um universo, composto por uma s&#xE9;rie de <em>unidades,</em> que ser&#xE3;o descritas em cada linha.<em> </em>Contar o n&#xFA;mero de linhas nos mostra o tamanho da popula&#xE7;&#xE3;o (no caso de pesquisas censit&#xE1;rias) ou da amostra. &#xC9; comum chamar cada uma desses elementos de <em>objeto</em>, para indicar claramente que se trata de uma das unidades da popula&#xE7;&#xE3;o (universo).</p><p>Cada uma das categorias usadas para descrever o objeto aparece em uma coluna e essas colunas s&#xE3;o chamadas de <em>vari&#xE1;veis </em>(para indicar que elas variam conforme o objeto), ou de <em>atributos </em>(para designar que elas s&#xE3;o qualidades atribu&#xED;das aos objetos). Essas vari&#xE1;veis/atributos s&#xE3;o categorias utilizadas para a classifica&#xE7;&#xE3;o dos objetos, e cada uma dessas categorias aponta para um certo conjunto poss&#xED;vel de <em>valores</em>.</p><p>Numa classifica&#xE7;&#xE3;o, os valores s&#xE3;o as v&#xE1;rias <em>classes</em> usadas para classificar os objetos, com rela&#xE7;&#xE3;o a um determinado atributo. Por exemplo, tomando o objeto <em>processo</em>, podemos identificar para cada um deles o atributo <em>tipo de demandante</em>, sendo que esse atributo assume um valor para cada processo (uma das classes de demandantes, como Governador ou Presidente da Rep&#xFA;blica).</p><h2 id="classifica-es-e-marco-te-rico">Classifica&#xE7;&#xF5;es e Marco Te&#xF3;rico</h2><p>Buscar explica&#xE7;&#xF5;es totalizantes para fen&#xF4;menos diferentes termina nos levando a becos sem sa&#xED;da, em que n&#xE3;o somos capazes de visualizar padr&#xE3;o algum ou no qual identificamos padr&#xF5;es equivocados. A atua&#xE7;&#xE3;o de um conjunto de 800 atores dificilmente pode ser explicada por um padr&#xE3;o unificado. Cada ator tem uma agenda diferente, um n&#xFA;mero de processos ajuizados, uma disponibilidade econ&#xF4;mica e uma influ&#xEA;ncia pol&#xED;tica diversas. </p><p>Podemos fazer um estudo de caso para entender a atua&#xE7;&#xE3;o individual de cada um, em um per&#xED;odo, mas isso n&#xE3;o nos fala nada sobre uma popula&#xE7;&#xE3;o, o &#xA0;que pode gerar conhecimentos de car&#xE1;ter mais geral. Para sair dos limites do caso espec&#xED;fico, sem cair nas armadilhas de uma generaliza&#xE7;&#xE3;o sem sentido, a sa&#xED;da mais vi&#xE1;vel &#xE9; a elabora&#xE7;&#xE3;o de um sistema de classifica&#xE7;&#xF5;es que permita que tratemos, com sentido, da atua&#xE7;&#xE3;o de certos grupos de atores.</p><p>Essa classifica&#xE7;&#xE3;o permite que fa&#xE7;amos uma diferencia&#xE7;&#xE3;o adequada entre grupos de fen&#xF4;menos que podem ser tratados como <em>conjuntos, </em>evitando os erros de uma generaliza&#xE7;&#xE3;o indevida, mas possibilitando fazer afirma&#xE7;&#xF5;es com certo grau de generalidade. Colocado assim o problema, creio que deve ficar claro o motivo pelo qual a classifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; sempre um desafio: ela implica sempre uma distor&#xE7;&#xE3;o dos objetos descritos.</p><p>A classifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; sempre uma escolha, uma proposta de segmenta&#xE7;&#xE3;o da realidade em conjuntos de objetos. Ela define um n&#xED;vel de an&#xE1;lise, um modelo descritivo que n&#xE3;o &#xE9; verdadeiro nem &#xE9; falso, pois as classifica&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o <em>correspondem </em>ao mundo, elas <em>organizam </em>o mundo na forma de categorias conceituais.</p><p>Que classifica&#xE7;&#xF5;es devem ser usadas? Essa &#xE9; uma escolha <em>te&#xF3;rica</em> fundamental. N&#xE3;o se trata de um problema <em>emp&#xED;rico</em>, mas da defini&#xE7;&#xE3;o das categorias a partir das quais os dados acerca do mundo emp&#xED;rico ser&#xE3;o utilizados pelo pesquisador para construir modelos descritivos e explicativos.</p><p>Quando n&#xE3;o conhecemos suficientemente as teorias existentes, podemos n&#xE3;o ter uma no&#xE7;&#xE3;o clara dos diferentes sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o dispon&#xED;veis. Quando o conhecimento te&#xF3;rico &#xE9; pequeno, o pesquisador pode at&#xE9; criar a ilus&#xE3;o de que somente existe apenas uma classifica&#xE7;&#xE3;o correta, que &#xE9; aquela que lhe &#xE9; familiar. </p><p>No campo do direito, essa tend&#xEA;ncia &#xE9; especialmente forte porque a forma&#xE7;&#xE3;o dos juristas se d&#xE1; pelo <em>discurso dogm&#xE1;tico</em>, que normalmente apresenta uma certa classifica&#xE7;&#xE3;o como correta: tipos de a&#xE7;&#xF5;es, tipos de contratos, tipos de efeitos da senten&#xE7;a, tipos de distribui&#xE7;&#xE3;o. A dogm&#xE1;tica nos oferece muitas <em>tipologias </em>(ou seja, sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o) que s&#xE3;o ligadas &#xE0; busca de definir uma <em>decis&#xE3;o correta </em>e s&#xE3;o essas tipologias que s&#xE3;o normalmente utilizadas pelos tribunais nas suas pr&#xF3;prias decis&#xF5;es.</p><p>Por constitu&#xED;rem a pr&#xF3;pria linguagem do judici&#xE1;rio, s&#xE3;o as classifica&#xE7;&#xF5;es dogm&#xE1;ticas que formam as estruturas dos bancos de dados dos tribunais. Essas categorias se tornam t&#xE3;o familiares aos juristas que n&#xF3;s podemos facilmente naturaliz&#xE1;-las, o que pode limitar nosso &quot;horizonte de classifica&#xE7;&#xE3;o&quot; &#xE0;s teorias dogm&#xE1;ticas que s&#xE3;o usadas no discurso judicial.</p><p>Um exemplo de como isso ocorre &#xE9; dado pela distin&#xE7;&#xE3;o dogm&#xE1;tica <em>proced&#xEA;ncia/improced&#xEA;ncia</em>. Essa &#xE9; uma classifica&#xE7;&#xE3;o ligada ao deferimento ou n&#xE3;o dos pedidos feitos pelos advogados, e parece nos dar uma divis&#xE3;o em tr&#xEA;s n&#xED;veis: </p><ol><li>proced&#xEA;ncia total;</li><li>proced&#xEA;ncia parcial;</li><li>improced&#xEA;ncia.</li></ol><p>De fato, em termos da conex&#xE3;o da atividade advocat&#xED;cia (pedir) e da judicial (decidir), &#xE9; uma classifica&#xE7;&#xE3;o interessante, e sua inser&#xE7;&#xE3;o no dispositivo da senten&#xE7;a ou ac&#xF3;rd&#xE3;o indica ao advogado algo relevante para as partes, inclusive para a defini&#xE7;&#xE3;o da sucumb&#xEA;ncia. Por&#xE9;m, quando tentamos compreender o significado da decis&#xE3;o <em>para a sociedade</em> e n&#xE3;o <em>para o pedido</em>, essa categoria pode levar ao equ&#xED;voco de pensar que:</p><ol><li>proced&#xEA;ncia total significa que as partes satisfizeram os seus interesses;</li><li>proced&#xEA;ncia parcial significa que as partes satisfizeram parcialmente os seus interesses;</li><li>improced&#xEA;ncia significa que as partes n&#xE3;o satisfizeram seus interesses.</li></ol><p>Embora isso possa ocorrer em alguns casos, &#xE9; uma armadilha analisar as ADIs com esse prisma, por v&#xE1;rios motivos. O primeiro &#xE9; o de que essa classifica&#xE7;&#xE3;o sup&#xF5;e que o objetivo das partes &#xE9; obter <em>decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia</em>, sem levar em conta que pode haver &#xA0;muitos interesses <em>extra-processuais</em> no ajuizamento de uma a&#xE7;&#xE3;o: conseguir chamar aten&#xE7;&#xE3;o de um tema na m&#xED;dia, obter uma decis&#xE3;o liminar imediata (sendo irrelevante a proced&#xEA;ncia final, que vir&#xE1; anos depois), pressionar politicamente uma autoridade. </p><p>Quando as partes n&#xE3;o movem a a&#xE7;&#xE3;o exclusivamente em busca de uma decis&#xE3;o de proced&#xEA;ncia, a devida compreens&#xE3;o do <em>comportamento das partes</em> exige sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o que ultrapasse o bin&#xF4;mio proced&#xEA;ncia/improced&#xEA;ncia. Uma possibilidade, por exemplo, &#xE9; classificar as decis&#xF5;es em <em>satisfativas</em> e <em>n&#xE3;o-satifativas</em>, com rela&#xE7;&#xE3;o aos interesses principais.</p><p>Uma das decis&#xF5;es mais complexas de se avaliar &#xE9; a <em>decis&#xE3;o de proced&#xEA;ncia </em>que utiliza a t&#xE9;cnica da <em>interpreta&#xE7;&#xE3;o conforme a constitui&#xE7;&#xE3;o</em>. Essa &#xE9; uma forma de decidir que aparentemente satisfaz os interesses do Requerente (porque o pedido &#xE9; entendido como procedente), mas que n&#xE3;o exclui do ordenamento uma lei que foi considerada inconstitucional. Como o que se considera <em>interpreta&#xE7;&#xE3;o conforme</em> varia de caso a caso, &#xE9; preciso avaliar individualmente se o provimento do tribunal foi ou n&#xE3;o satisfativo com rela&#xE7;&#xE3;o ao interesse das partes, sendo poss&#xED;vel identificar decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia n&#xE3;o-satisfativas.</p><p>A <em>proced&#xEA;ncia parcial</em> tamb&#xE9;m &#xE9; um conceito fugidio, pois pode significar a obten&#xE7;&#xE3;o dos principais interesses (o que tornaria a decis&#xE3;o satisfativa), mas a proced&#xEA;ncia pode ter sido dada em uma parcela pouco significante do pedido (o que a tornaria n&#xE3;o-satisfativa). </p><p>Essa an&#xE1;lise mais cuidadosa das tipologias dogm&#xE1;ticas pode revelar muitos problemas em sua utiliza&#xE7;&#xE3;o <em>na pesquisa em direito.</em> As categorias dogm&#xE1;ticas s&#xE3;o bem adaptadas a organizar um discurso decis&#xF3;rio, mas n&#xE3;o s&#xE3;o modeladas para organizar uma reflex&#xE3;o sobre o significado pol&#xED;tico das pr&#xE1;ticas judiciais ou quando se tenta compreender o <em>comportamento </em>judicial ou o comportamento das partes. </p><p>A formula&#xE7;&#xE3;o de classifica&#xE7;&#xF5;es adequadas &#xE9; provavelmente o ponto mais delicado das pesquisas qualitativas, e &#xE9; tamb&#xE9;m a sua principal interface com o <em>referencial te&#xF3;rico</em>, que &#xE9; a fonte de v&#xE1;rias classifica&#xE7;&#xF5;es:</p><ol><li>tipos de processo,</li><li>tipos de senten&#xE7;a,</li><li>tipos de contratos,</li><li>tipos de partes,</li><li>tipos de intera&#xE7;&#xF5;es.</li></ol><p>Os tipos n&#xE3;o existem empiricamente: eles s&#xE3;o <em>classifica&#xE7;&#xF5;es</em> lingu&#xED;sticas por meio das quais n&#xF3;s qualificamos os objetos estudados. Por serem constru&#xE7;&#xF5;es lingu&#xED;sticas, esses tipos s&#xE3;o parte integrantes das <em>teorias</em>, ou seja, dos modelos que usamos para descrever e explicar.</p><p>Uma pesquisa precisa usar sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o adaptados a seus objetos e, por isso, &#xE9; preciso que o pesquisador desenvolva um conhecimento das v&#xE1;rias abordagens poss&#xED;veis: quanto maior o conhecimento te&#xF3;rico, mais amplas se tornam as <em>possibilidades </em>de escolha. Quanto maior nossa limita&#xE7;&#xE3;o &#xE0; dogm&#xE1;tica, mais dif&#xED;cil ser&#xE1; incluir novos sistemas de classifica&#xE7;&#xE3;o, que podem nos fazer construir modelos diferentes das percep&#xE7;&#xF5;es do senso comum dos juristas. </p><p>Teorias diversas nos d&#xE3;o modos diferentes de classificar os objetos, de hierarquizar as preocupa&#xE7;&#xF5;es, de estabelecer conex&#xF5;es causais. As teorias nos oferecem os modelos pelos quais convertemos as nossas <em>observa&#xE7;&#xF5;es emp&#xED;ricas</em> em uma descri&#xE7;&#xE3;o significativa. Isso faz com que, por mais que as pesquisas nos coloquem diretamente em contato com as <em>evid&#xEA;ncias</em>, n&#xE3;o podemos perder de vista que esse contato &#xE9; mediado pelas categorias te&#xF3;ricas que conformam as nossas formas de ver o mundo.</p><h2 id="2-requisitos-de-uma-classifica-o-robusta">2. Requisitos de uma classifica&#xE7;&#xE3;o robusta</h2><h3 id="2-1-confiabiliade">2.1 Confiabiliade</h3><p>Toda classifica&#xE7;&#xE3;o robusta precisa ter crit&#xE9;rios de classifica&#xE7;&#xE3;o que sejam confi&#xE1;veis, ou seja, que sejam pass&#xED;veis de gerar os mesmos resultados caso sejam aplicados par pessoas diferentes, em tempos diferentes (<a href="https://www.zotero.org/groups/2544664/alexandre_arajo_costa/items/KBP9RRI7/item-details?ref=metodologia.agu.arcos.org.br">Epstein e King 2013</a>).</p><p>Se fazemos uma pesquisa em que buscamos identificar a preval&#xEA;ncia de certos assuntos nas decis&#xF5;es liminares concedidas pelo STJ, precisamos contar com uma tabela de classifica&#xE7;&#xE3;o de assuntos que tenha crit&#xE9;rios suficientemente precisos e claros, para que os resultados sejam confi&#xE1;veis. Uma impessoalidade absoluta pode ser quim&#xE9;rica, mas a falta de explica&#xE7;&#xE3;o adequada dos crit&#xE9;rios pode fazer com que pessoas diferentes fa&#xE7;am classifica&#xE7;&#xF5;es t&#xE3;o d&#xED;spares que o resultado da classifica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o seja confi&#xE1;vel.</p><p>Na pesquisa &quot;A quem interessa o controle de constitucionalidade?&quot;, buscamos desenvolver categorias que identificassem quem eram as pessoas beneficiadas pelas decis&#xF5;es de ADI julgadas pelo STF, mas o fato &#xE9; que n&#xE3;o conseguimos desenvolver um sistema confi&#xE1;vel de classifica&#xE7;&#xE3;o. Em alguns casos, essa aprecia&#xE7;&#xE3;o era simples (como quando um grupo de servidores recebia benef&#xED;cios salarias), mas em outros ela era t&#xE3;o imprecisa (quando um determinado benef&#xED;cio era anulado) que n&#xE3;o conseguimos estabelecer um crit&#xE9;rio de classifica&#xE7;&#xE3;o minimamente satisfat&#xF3;rio. Isso fez com que a pergunta fundamental do trabalho n&#xE3;o fosse respondida de forma direta.</p><p>Por&#xE9;m, devemos conceder que mesmo as classifica&#xE7;&#xF5;es que usamos n&#xE3;o eram totalmente confi&#xE1;veis, porque nos baseamos em distin&#xE7;&#xF5;es conceituais que n&#xE3;o s&#xE3;o totalmente definidas. N&#xF3;s buscamos classificar os fundamentos da decis&#xE3;o, mas em muitos casos esses fundamentos eram m&#xFA;ltiplos, o que dificultava identificar um fundamento &#xFA;nico. Al&#xE9;m disso, havia decis&#xF5;es que declaravam a inconstitucionalidade de v&#xE1;rios dispositivos, por motivos diferentes, o que impedia uma classifica&#xE7;&#xE3;o totalmente consistente. Para completar, havia casos em que as pr&#xF3;prias decis&#xF5;es n&#xE3;o eram muito consistentes, como na aplica&#xE7;&#xE3;o do princ&#xED;pio da simetria.</p><p>Uma dificuldade especial &#xE9; que esses crit&#xE9;rios de classifica&#xE7;&#xE3;o tinham grandes impactos <em>quantitativos</em>, visto que nossa interpreta&#xE7;&#xE3;o da atua&#xE7;&#xE3;o do STF dependia da verifica&#xE7;&#xE3;o da predomin&#xE2;ncia de certos tipos de decis&#xF5;es. Com isso, toda imprecis&#xE3;o conceitual gerava uma classifica&#xE7;&#xE3;o imprecisa, e esta gerava medidas que incorporavam o mesmo grau de imprecis&#xE3;o.</p><p>Toda classifica&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica precisa enfrentar esses desafios e alcan&#xE7;ar um alto grau de confiabilidade &#xE9; um objetivo dif&#xED;cil, embora deva pautar os esfor&#xE7;os da pesquisa. De toda forma, a pesquisa precisa ser transparente quanto &#xE0;s suas pr&#xF3;prias limita&#xE7;&#xF5;es: cabe esclarecer os crit&#xE9;rios que foram efetivamente utilizados, para que os leitores possam avaliar a solidez dos diagn&#xF3;sticos e das explica&#xE7;&#xF5;es.</p><h3 id="2-2-validade"><strong>2.2 Validade</strong></h3><p>Uma classifica&#xE7;&#xE3;o pode ser confi&#xE1;vel (no sentido de ser precisa o suficiente para se tornar repet&#xED;vel), mas conduzir a resultados inv&#xE1;lidos. Uma dificuldade que localizamos nas pesquisas sobre controle concentrado foi a de que muitas delas buscam fazer infer&#xEA;ncias a partir de todos os casos de ADIs, sem levar em considera&#xE7;&#xE3;o que os padr&#xF5;es de ajuizamento e de julgamento de a&#xE7;&#xF5;es diretas contra atos estaduais (ADEs) s&#xE3;o muito diferentes das a&#xE7;&#xF5;es contra atos federas (ADFs).</p><p>Isso faz com que a contagem do n&#xFA;mero de decis&#xF5;es de proced&#xEA;ncia em ADIs conduza a resultados confi&#xE1;veis, mas inv&#xE1;lidos, na medida em que a falta de distin&#xE7;&#xE3;o entre a impugna&#xE7;&#xE3;o de atos federais e estaduais torna essa contagem de decis&#xF5;es um dados sem muito sentido pr&#xE1;tico.</p><p>Outro exemplo de medida inv&#xE1;lida, de corrente de classifica&#xE7;&#xF5;es inv&#xE1;lidas, seriam as tentativas de utilizar a ideologia dos presidentes que indicaram os ministros do STF como indicadores de suas prefer&#xEA;ncias ideol&#xF3;gicas pessoais. Nos EUA, &#xE9; comum que o grupo dos ministros indicados pelo Partido Republicano sejam considerados como ideologicamente diversos do grupo dos ministros indicados pelo Partido Democrata. Por&#xE9;m, esse &#xE9; um tipo de liga&#xE7;&#xE3;o muito t&#xEA;nue em nosso presidencialismo de coaliza&#xE7;&#xE3;o, o que faz com que a busca de aplicar no Brasil metodologias que diferenciam os ministros em termos da presid&#xEA;ncia que os nomeou tende a gerar resultados inv&#xE1;lidos.</p><h2 id="dados-estruturados-e-dados-n-o-estruturados"><strong>Dados estruturados e Dados n&#xE3;o-estruturados</strong></h2><p>A classifica&#xE7;&#xE3;o dos objetos gera dados que chamamos de &quot;estruturados&quot;, pois eles se encontram organizados segundo uma <em>estrutura,</em> que define um certo objeto a partir de um conjunto determinado de <em>vari&#xE1;veis </em>que t&#xEA;m uma amplitude definida.</p><p>Embora seja comum ligar os dados estruturados com dados organizados em tabelas, o conte&#xFA;do de certos <em>atributos</em> pode ser composto por elementos que n&#xE3;o constituem dados estruturados. Esse &#xE9;, por exemplo, o caso de haver uma tabela de processos com uma coluna de <em>ementa</em> ou <em>decis&#xE3;o</em>.</p><p>Uma <em>ementa </em>ou um <em>dispositivo</em>, por exemplo, s&#xE3;o blocos textuais que n&#xE3;o t&#xEA;m uma estrutura definida. S&#xE3;o trechos de <em>linguagem natural</em>, que demandam uma complexa interpreta&#xE7;&#xE3;o para que sejam extra&#xED;dos delas alguns dados estruturados, contidos em categorias mais espec&#xED;ficas: tipo da decis&#xE3;o, data da decis&#xE3;o, unanimidade/maioria.</p><p>Embora haja certa ambiguidade nos termos, os textos em linguagem natural s&#xE3;o considerados tipicamente <em>dados n&#xE3;o-estruturados</em>, que desafiam as estrat&#xE9;gias mais simples de agrega&#xE7;&#xE3;o, como opera&#xE7;&#xF5;es matem&#xE1;ticas (como m&#xE9;dias) e opera&#xE7;&#xF5;es de contagem (que se aplicam a vari&#xE1;veis com um <em>range </em>restrito de valores). </p><p>Os dados <em>estruturados</em> podem ser utilizados por esses tipos de opera&#xE7;&#xE3;o, enquanto os dados n&#xE3;o-estruturados precisam de processos de an&#xE1;lise e interpreta&#xE7;&#xE3;o que extraiam deles dados estruturados ou de processos espec&#xED;ficos para lidar com esse tipo de informa&#xE7;&#xE3;o, que envolvem estrat&#xE9;gias de <em>intelig&#xEA;ncia artificial</em>.</p><p>Quando trabalhamos com a an&#xE1;lise de processos judiciais, costumamos encontrar certos dados <em>estruturados, </em>que admitem valores dentro de um conjunto finito de possibilidades: data de ajuizamento, decis&#xE3;o final, tipo de requerente. Mas tamb&#xE9;m encontramos dados n&#xE3;o-estruturados e complexos, como ementas, decis&#xF5;es, votos e grava&#xE7;&#xF5;es.</p><p>Cada um desses elementos n&#xE3;o-estruturados, composto por trechos de linguagem natural, pode ser a fonte de muitos dados relevantes, desde que sejam devidamente interpretados.</p><h2 id="dados-e-informa-es">Dados e informa&#xE7;&#xF5;es</h2><blockquote>Se voc&#xEA; tiver uma lista com as ementas de todas as ADIs, o que esse conjunto de dados te diz? Como &#xE9; poss&#xED;vel transformar esse conjunto de dados dispersos em uma informa&#xE7;&#xE3;o acerca da popula&#xE7;&#xE3;o de ementas?</blockquote><p>&#xC9; comum distinguir de <em>dado</em> (que &#xE9; um objeto a ser interpretado) da <em>informa&#xE7;&#xE3;o</em>, que &#xE9; o resultado da interpreta&#xE7;&#xE3;o dos dados. Nem sempre usamos essa diferen&#xE7;a de forma muito precisa, inclusive porque informa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; um conceito <em>relacional</em>: &#xE9; sempre informa&#xE7;&#xE3;o <em>com rela&#xE7;&#xE3;o</em> a certo sistema.</p><p>Em uma tabela sobre processos, h&#xE1; uma s&#xE9;rie de <em>atributos</em> dos processos, que podem ser consideradas <em>informa&#xE7;&#xF5;es sobre os processos</em>. Saber a ementa de um processo nos faz ter uma informa&#xE7;&#xE3;o sobre ele. Assim, a <em>data de autua&#xE7;&#xE3;o de um processo</em> &#xE9; uma informa&#xE7;&#xE3;o com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;quele processo, mas &#xE9; um <em>dado</em> com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; popula&#xE7;&#xE3;o de processos.</p><p>Quando voc&#xEA; constitui uma base de dados voltada a permitir uma compreens&#xE3;o dos padr&#xF5;es de ajuizamento de ADIs ou de julgamentos de medidas cautelares, a data de autua&#xE7;&#xE3;o &#xE9; apenas um <em>dado</em>. Para que seja poss&#xED;vel fazer uma afirma&#xE7;&#xE3;o sobre o tempo de processamento das adis, &#xE9; preciso ter muitos <em>dados</em>, que podem viabilizar uma interpreta&#xE7;&#xE3;o que consolide a descri&#xE7;&#xE3;o na identifica&#xE7;&#xE3;o de um <em>tempo m&#xE9;dio</em>.</p><p>Parece-me mais proveitoso entender que a <em>informa&#xE7;&#xE3;o</em> &#xE9; um enunciado lingu&#xED;stico feito acerca de um objeto emp&#xED;rico, a partir de certas <em>evid&#xEA;ncias</em>, e chamamos de <em>dados</em> as evid&#xEA;ncias que nos permitem inferir uma informa&#xE7;&#xE3;o.</p><h2 id="modelo-de-dados-e-marco-te-rico">Modelo de dados e marco te&#xF3;rico</h2><p>Quando organizamos os dados em um <em>modelo de dados</em>, n&#xF3;s precisamos agrup&#xE1;-los dentro de certas <em>vari&#xE1;veis</em>. Quando fazemos isso, geramos uma din&#xE2;mica entre <em>objetos </em>(unidades de an&#xE1;lise), <em>atributos </em>(que &#xE9; uma categoria) e <em>valor</em> (que &#xE9; um dado), que nos oferece uma tabela.</p><p>Esses valores normalmente s&#xE3;o de 4 tipos: sequ&#xEA;ncias de caracteres (<em>string</em>), datas (no sentido geral de marcadores de tempo, o que pode envolver tamb&#xE9;m horas), n&#xFA;meros integrais (int) e n&#xFA;meros fracion&#xE1;rios (float).</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://dsd.arcos.org.br/content/images/2020/10/image-28.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="536" height="101"></figure><p>Na tabela acima, cada linha corresponde a um <em>objeto</em>, que s&#xE3;o os elementos de nossa unidade de an&#xE1;lise. A primeira coluna corresponde ao <em>nome</em> do objeto, que &#xE9; uma vari&#xE1;vel do tipo <em>string </em>que desempenha uma fun&#xE7;&#xE3;o particular: ela designa o modo pelo qual nos referimos ao objeto. </p><p>Se houver v&#xE1;rias linhas para o mesmo objeto, teremos problemas para a analisar os dados, visto que os programas que usamos pressup&#xF5;em que cada linha &#xE9; um objeto diverso. Assim, duas linhas com o mesmo nome podem indicar objetos &quot;hom&#xF4;nimos&quot;, mas elas devem indicar ser dois objetos diferentes. Por isso, &#xE9; necess&#xE1;rio que desenvolvamos uma &quot;string&quot; que funcione como <em>identificador</em>, de modo que qualquer pesquisa feita com esse argumento nos conduza ao objeto desejado. Esse identificador costuma estar na primeira coluna.</p><p>Nas minhas tabelas sobre o STF, costumo usar como identificador a sigla da Classe + o n&#xFA;mero do processo, com 5 d&#xED;gitos. Note que o indicador &#xE9; tamb&#xE9;m uma vari&#xE1;vel, com a peculiaridade que o seu &quot;range&quot; &#xE9; o mesmo do n&#xFA;mero de objetos, pois deve haver um indicador por objeto. </p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://dsd.arcos.org.br/content/images/2020/10/image-32.png" class="kg-image" alt loading="lazy" width="574" height="121"></figure><p>Quanto &#xE0;s demais vari&#xE1;veis, uma classifica&#xE7;&#xE3;o importante &#xE9; a distin&#xE7;&#xE3;o entre <em>dimens&#xF5;es</em> e <em>medidas</em>. Medidas s&#xE3;o vari&#xE1;veis num&#xE9;ricas, sejam de n&#xFA;meros integrais (int) ou fracion&#xE1;rios (float). Essa distin&#xE7;&#xE3;o &#xE9; importante porque as vari&#xE1;veis num&#xE9;ricas podem ser usadas em <em>opera&#xE7;&#xF5;es matem&#xE1;ticas</em>, e as dimens&#xF5;es n&#xE3;o.</p><p>Tal distin&#xE7;&#xE3;o precisa ser feita especialmente quando usamos um sistema de de c&#xF3;digos num&#xE9;ricos, como feito na base de dados do artigo sobre o Perfil de Ajuizamento no Controle Concentrado, em que o <em>tipo de requerente </em>foi codificado a partir do inciso que confere legitimidade para o ajuizamento de ADIs e ADPFs. Todos os governadores foram codificados como &quot;5&quot;, mas esse caractere n&#xE3;o corresponde a uma medida (um n&#xFA;mero), mas sim a uma dimens&#xE3;o. Nesse caso, o valor contido na c&#xE9;lula &#xE9; &quot;5&quot;, esse d&#xED;gito opera como um &quot;nome&quot; e n&#xE3;o como um &quot;n&#xFA;mero&quot;.</p><p>Nas an&#xE1;lises quantitativas, n&#xF3;s muitas vezes constru&#xED;mos <em>medidas</em> a partir de <em>dimens&#xF5;es</em>. J&#xE1; fizemos isso nas tabelas din&#xE2;micas e continuaremos realizando essa opera&#xE7;&#xE3;o de <em>contagem</em>. Quando contamos o n&#xFA;mero de c&#xE9;lulas com valores &quot;Procedente&quot;, isso nos gera uma medida (a contagem), que nos permite fazer an&#xE1;lises quantitativas (como descobrir a porcentagem de ADIs julgadas procedentes).</p><p>Para que a contagem nos ofere&#xE7;a dados &#xFA;teis, &#xE9; preciso que o &quot;range&quot; da vari&#xE1;vel seja pequeno. Quando a nossa classifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; bin&#xE1;ria (Julgado, N&#xE3;o-Julgado) ou tem poucos elementos elementos (por exemplo: Aguardando Julgamento, Procedente , Extinto Processualmente e Outros), n&#xF3;s conseguimos fazer gr&#xE1;ficos que consolidem as informa&#xE7;&#xF5;es de maneira bastante vis&#xED;vel. Por&#xE9;m, quando fazemos um gr&#xE1;fico de todos os Requerentes, teremos mais de 400 valores, o que inviabiliza consolidar essas informa&#xE7;&#xF5;es em um gr&#xE1;fico.</p><p>No caso de <em>medidas</em>, essa multiplica&#xE7;&#xE3;o de valores &#xE9; resolvida por meio de opera&#xE7;&#xF5;es que oferecem mensura&#xE7;&#xF5;es sobre a popula&#xE7;&#xE3;o (m&#xE9;dias, medianas) ou por meio do agrupamento dos valores em quartis, por exemplo. No caso das <em>dimens&#xF5;es</em>, &#xE9; preciso ter um grupo discreto de valores, o que exige de n&#xF3;s um esfor&#xE7;o de classifica&#xE7;&#xE3;o: agrupar as unidades a partir de crit&#xE9;rios precisos, confi&#xE1;veis e &#xFA;teis.</p><p>A constru&#xE7;&#xE3;o do modelo de dados (com a defini&#xE7;&#xE3;o das unidades de an&#xE1;lise, das vari&#xE1;veis que ser&#xE3;o medidas ou classificadas, dos poss&#xED;veis valores que essas vari&#xE1;veis podem adotar) &#xE9; um elemento ligado ao marco te&#xF3;rico porque &#xE9; esse referencial que oferece ao pesquisador a rede de categorias que ser&#xE1; utilizada para definir os crit&#xE9;rios pelos quais os seus <em>dados</em> ser&#xE3;o organizados em um <em>modelo</em>, que ser&#xE1; interpretado da forma definida na <em>metodologia</em>.</p><p>Portanto, uma parte relevante do referencial te&#xF3;rico &#xE9; a explicita&#xE7;&#xE3;o dos sistemas conceituais que s&#xE3;o utilizados para guiar a observa&#xE7;&#xE3;o emp&#xED;rica e a organiza&#xE7;&#xE3;o dos dados, respondendo a quest&#xF5;es como:</p><ol><li>o que &#xE9; uma decis&#xE3;o e quais s&#xE3;o os seus tipos;</li><li>o que &#xE9; um algoritmo e quais s&#xE3;o os seus tipos;</li><li>o que &#xE9; uma ementa e quais s&#xE3;o os seus tipos, seu objetivos, suas poss&#xED;veis estruturas.</li><li>o que &#xE9; um <em>smart contract</em> e quais s&#xE3;o os seus tipos.</li></ol><p>Em suma: para que possam ser interpretados adequadamente, os dados precisam ser classificados. Sem um sistema de classifica&#xE7;&#xE3;o, somos incapazes de segmentar os dados em grupos diferentes e identificar os <em>padr&#xF5;es</em> ligados a cada um desses grupos. A aus&#xEA;ncia de uma classifica&#xE7;&#xE3;o (ou a presen&#xE7;a de uma tipologia inadequada) impede a observa&#xE7;&#xE3;o de padr&#xF5;es complexos dentro do universo analisado e &#xE9; no estudo <em>te&#xF3;rico</em> que criamos um repert&#xF3;rio de classifica&#xE7;&#xF5;es poss&#xED;veis.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>